Crítica | O Poderoso Chefinho

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“Mantenha seus amigos perto, mas seus inimigos mais ainda”. Será que a célebre frase de Don Corleone se aplica a relação de dois irmãos na primeira infância? O Poderoso Chefinho brinca com o momento em que um filho único tem que dividir toda atenção de seus pais com outra criança, o longa parte desse momento muito comum para criar uma narrativa cheia de aventura, imaginação e um bebê tão assustador que chega realmente a parecer um mafioso.

A animação começa expondo a vida perfeita que o protagonista tinha vivendo apenas com seus pais. O garoto inventa as mais diversas brincadeiras, ouve seus pais tocarem sua música favorita e contarem histórias de dormir, toda essa mordomia acaba quando um bebê chega e muda toda essa dinâmica familiar. Nesse primeiro momento da projeção, O Poderoso Chefinho mostra como funciona também o mundo imaginário dessa criança de sete anos, em que sua realidade se mistura com sua criatividade. Sua sala de estar, em um toque de mágica, transforma-se num parque de dinossauros ou numa nave espacial, Tim, o protagonista, conversa com seu despertador – um mago que parece ter saído da terra média – e como seus pais dizem: ele é um garoto que imagina demais.

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Logo seu irmão caçula surge de táxi, vestindo terno e com uma maleta toda suspeita, aquele bebê que de longe pode parecer uma fofura, para Tim representa uma séria ameaça à sua família. Essa vai ser a dinâmica por todo o filme, Tim buscando evidências de que aquele garotinho é mais que um simples neném, e aquele poderoso chefinho tentando cumprir sua missão ultra-secreta.

O mais interessante em O Poderoso Chefinho é como essa realidade de Tim é retratada. O longa utiliza-se da perspectiva do garoto para criar um universo totalmente imaginativo, algo que nunca é questionado pela própria trama. Tudo o que se passa na projeção é tratado como se fosse real, mesmo que surjam as coisas mais absurdas, gerando em seu espectador até uma certa dúvida em relação a veracidade do que se vê, se aquilo está num plano real ou imaginário. O Poderoso Chefinho vai dando pistas sobre aquela narrativa, como se em um ou outro momento apontasse para essa grande imaginação de seu protagonista, o que se vê é um filme narrado por um narrador sem limites para sua criação.

Essa lógica fílmica gera alguns aspectos interessantes ao longa, por exemplo, é interessante como esse tom imaginário reverbera no estilo da animação. Seguindo a forma dos filmes animados digitalmente, O Poderoso Chefinho vez ou outra aposta em estéticas diferenciadas, principalmente quando esse plano imaginário está mais evidente. Em certo momento, Tim se fantasia de ninja para espionar seu irmão e mesmo que sua fantasia seja feita de objetos caseiros, o garoto pensa realmente ter saído de algum filme de espionagem, logo, o longa se transforma em uma animação 2D com uma brincadeira inteligente entre luz e sombra, fazendo com que aquele momento pareça ter saído de uma série animada de alguns anos atrás, como Samurai Jack, por exemplo.

Outra questão interessante é que esse mundo imaginário gera situações narrativas bastante surpreendentes e divertidas. Muito menos pelo mundo burocrático da criação dos bebês – que em certos momentos parece muito exagerado-, e muito mais pelos novos rearranjos proposto por aquele neném que veste terno e gravata. Em um ponto da narrativa, aquele bebê, uma espécie de chefe dos recém nascidos de todo o mundo, convoca uma reunião em sua nova casa, chamando os bebês do bairro, um momento cômico pelo estranhamento que gera. personagens de fralda, munidos de suas mamadeiras, discutindo negócios a sua forma, pedindo aumento de salário (pirulitos, no caso), definindo estratégias e tudo mais.

Por outro lado, apesar de ser um filme despretensioso em sua comédia e narrativa, O Poderoso Chefinho tenta ser envolvente emocionalmente, algo que acaba colocando o longa em situações que parecem exagerar em seu drama, provendo mais carga emocional do que as situações necessitam. Isso se reflete enormemente no protagonista Tim, quando o garoto explode por uma ou duas vezes, e O Poderoso Chefinho tenta construir uma atmosfera dramática, tudo aquilo parece muito exagerado, fazendo com que as motivações do protagonista pareçam apenas de uma criança mimada, isso fica ainda mais forte se pensar que o primeiro momento do longa foi mostrando justamente o quanto o garoto tinha tudo o que desejava, fazendo que nesses momentos dramáticos haja um distanciamento com esse protagonista.

O mesmo ocorre com a utilização das músicas no filme, sempre trabalhando numa lógica de envolvimento emocional. A principal delas sem dúvida a canção dos Beatles, Blackbird, música que servia para Tim dormir, mas que a cada momento pretensamente dramático, os acordes de Lennon e McCartney voltam para funcionar como uma espécie de chantagem emocional e forçar uma aproximação dramática entre espectador e personagens.

Fato é que O Poderoso Chefinho carrega, dessa maneira, uma série de irregularidades. Se o mundo imaginário de Tim e seu irmão totalmente peculiar são totalmente divertidos, seu envolvimento emocional quase sempre deixa a desejar. O Poderoso Chefinho realmente parece quando se visita um recém nascido, não dá para se esperar maturidade ou grandes ações, mas o que fica é a fofura daquele encontro, o famoso “ah! que engraçadinho”.

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