“Ad maiorem Dei gloriam”, o lema dos Jesuítas significa em português para a maior glória de Deus, sendo missionários que dedicam sua vida e entregam-se (materialmente e espiritualmente) para levarem a palavra de Deus para os lugares mais distantes do globo. Silêncio, o novo filme de Martin Scorsese, foca sua história durante o século XVII, onde a Companhia de Jesus teve um papel fundamental na evangelização de novos povos, como o Brasil e o Japão, no caso do filme.

O longa conta a história de dois padres jesuítas, Rodriguez (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver), que partem para o oriente a fim de encontrar seu antigo mentor, Ferreira (Liam Neeson), que teria sucumbido a repressão local e renegado a Deus publicamente. O filme tem início com a leitura de uma carta de Ferreira contando as mazelas sofridas por cristãos residentes no Japão, enquanto isso é visto o sofrimento destes num longo plano em que pessoas são crucificadas próximos a poços termais, onde os prisioneiros são queimados pelo exército do inquisidor.

Numa composição que remete a uma ideia de pintura em movimento, com a câmera fixa e ação desenrolando-se frente ao espectador, é como se o público desde o início sentisse o peso e a dor daquela missão evangelizadora, a glória de Deus proposta pelos Jesuítas leva ao sofrimento e a uma possível assemelhação a Jesus Cristo, a missão convicta daqueles padres passa a ser a sua maior provação.


Silêncio é justamente sobre isso, sobre o peso dessa convicção, sobre o questionamento do que viria a ser essa doação para a glória do Senhor. Essas questões são colocadas a prova a todo o momento, num filme que a cada plano, que a cada diálogo e que a cada sequência evoca o peso dessas escolhas. Em outro momento bem significativo, quando os dois padres saem de um mosteiro em Portugal rumo ao Japão o longa faz um enquadramento do alto – na chamada visão de Deus – com a câmera totalmente inclinada, em que os personagens estão descendo uma grande escadaria, porém por causa da angulação da câmera perde-se a noção de onde está o começo ou o final da escada, questionando visualmente a noção de ascendência contida naquela missão, onde começa o mundano e o divino?

Assim, Silêncio traz toda as consequências sobre essa busca para glorificação de Deus, o Japão quase feudal fechado para uma nova religião é um lugar arenoso para aqueles homens, os padres estão ali não para iluminar almas no vale da sombras, mas sim para terem sua fé e todas suas crenças colocadas em cheque, como se a viagem de Ferreira e Garupe fosse o diálogo mais sincero e honesto com Deus, e julgar um desespero humano perante a um silêncio divino não é uma opção cabível ao assistir ao longa. Aquele cenário, representado com pouquíssima interferência humana, traz uma natureza que não é redentora como nos filmes mais espirituais de Terrence Malick, mas trabalhada como se fosse verdadeiramente um pântano, um ambiente hostil em que seria impossível brotar e fixar as raízes dessa religião ou de um amor divino.

Dessa forma, o protagonista do longa e o próprio filme vão questionando a verdadeira essência dessa missão, coloca-se a prova o que seria essa glória divina buscada por Ferreira. A dúvida central de Silêncio aparece nessa relação em que a glória seria de fato para quem. Para o povo que sofre uma repressão pesada concordando com as ideias do cristianismo, ou para o próprio Padre que, dessa forma, resistindo a essa dor se assemelharia ao próprio Cristo? Essa é uma ideia muito utilizada por Silêncio, essa aproximação de Ferreira com a figura de Jesus. O próprio Andrew Garfield vai ficando fisicamente parecido com a imagem clássica do filho de Deus.

Silêncio, assim, vai aparentemente comprando essa ideia de que a dor sofrida por Ferreira seria para dar a salvação aos cristãos japoneses – é recorrente a imagem de um quadro de Cristo representando o pensamento do protagonista, todavia o filme vai aos poucos desconstruindo essa ideia. Essa quebra ocorre de novo num plano exemplar dentro do filme, durante uma de suas andanças Ferreira encontra no seu reflexo num rio a figura do próprio Jesus, como se naquele momento tivesse se tornado o cordeiro que tira o pecado do mundo, mas é ali que o personagem é capturado.

A partir de então seu sofrimento marcará o questionamento de sua missão e da sua visão de glorificação a Deus, Ferreira é de carne e pode sucumbir a qualquer momento, essa relação a figura de Cristo começa ocorrer na chave da desconstrução, como quando chega a uma cidade em cima de um burro e é recebido com pedradas, diferenciando-se e remetendo ao momento bíblico em que Jesus é saudado pelo povo com ramos, ou quando Ferreira refaz a pergunta de Cristo, “Deus meu, Deus meu! Por que me abandonastes?”, aqui num sentido de uma separação total do personagem e de sua missão. O sofrimento de Ferreira não leva à redenção de seus semelhantes, pelo contrário, leva ao questionamento e consequentemente a culpa, algo que distancia o protagonista de sua própria redenção, ou pelo menos a coloca em dúvida.

É notável como essa relação da dor, da culpa e da redenção seja tão pulsante em Silêncio, esses são temas centrais na obra de Scorsese. Desde Caminhos Perigosos (1973) ou até antes em Quem Bate à Minha Porta (1967), essas são questões fundamentais no cinema do diretor ítalo-americano, seus personagens são assombrados por essa culpa e pela dor, algo que coloca a redenção num lugar distante, essas relações são sempre permeadas por símbolos cristãos. Assim esses temas ganham uma materialização impressionante em Silêncio, não é à toa que esse projeto vem sendo tocado por Scorsese há anos e é o primeiro filme roteirizado por Scorsese desde Cassino,de 1995.

É incrível, dessa forma, como o longa é, em muitos aspectos, um filme corajoso, não só em seu tema e como ele é abordado, mas também na forma como isso é transpassado para as telas. Silêncio talvez seja o filme mais arriscado de Scorsese desde O Aviador (2004), o cineasta se distancia de uma auto-referência e uma auto-cópia que contaminava seus últimos projetos, algo que buscava sempre repetir uma ideia do que é um filme do Scorsese.

Silêncio é um filme que se despe de uma estética pré-estabelecida por outros filmes do diretor, buscando construir planos de extrema contemplação para que se sinta o peso daquele mundo retratado, e encontrando, também, soluções narrativas interessantes, como um momento em que a câmera assume a visão de seu protagonista preso e num plano sequência com movimentos panorâmicos (a câmera movendo em torno de seu próprio eixo) mostra-se, através da barras de ferro, a tortura e o sofrimento dos cristãos japoneses, colocando o público não só os olhos do personagem, mas também partilhando seu sentimento de incapacidade e de culpa perante à situação.

Não é de se surpreender que a Academia tenha esnobado tanto esse filme. A sua inventividade e sua busca extremamente densa por questões que parecem tão fora de moda não se encontram com o “padrão de qualidade” do Oscar. Silêncio é um filme que com certeza terá um lugar especial na obra de Scorsese e crescerá a cada leitura.

O veterano cineasta realiza um longa que articula todos seus temas da maneira mais potente possível, conseguindo transmitir as sensações e as dúvidas presentes em seus personagens e em sua narrativa de forma que seja possível entender como se encontra a glória divina ou cinematográfica diante do silêncio.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here