Crítica | A Cabana

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Deus é certamente uma das figuras mais interessantes de todos os tempos: há quem diga que ele nos vigia lá de cima e que possui o poder de gerência sobre tudo o que vivemos neste planeta. Outros preferem encará-lo mais como uma energia, uma presença, do que como um ser divino capaz de orquestrar os rumos de nossas vidas. Claro, também não podemos nos esquecer daqueles que nem sequer acreditam em sua existência. Para estes, Deus não passa de uma invenção muito bem (ou mal) contada. Seja o que for, a verdade é que Ele pode provocar muitas coisas – e indiferença não é uma delas.

Fica evidente então a semente do sucesso da obra literária A Cabana, um best-seller estrondoso que agora desmembrou-se num filme protagonizado por Sam Worthington e pela atriz vencedora do Oscar Octavia Spencer. Aqui, Deus é uma mulher. Uma mulher negra e de olhar e gestos serenos. Uma mulher que não só fala de paz, mas também a transmite. Ao abordar a “intervenção” de Deus na vida de uma pessoa de maneira não-ortodoxa, o livro soube comunicar-se com um público amplo e diversificado. No entanto, é uma pena que por mais bonito (e até certo ponto desafiador) que seja o conceito de Deus proposto pela obra, ele esteja inserido em um contexto que mina totalmente suas chances de provocar boas reflexões: a narrativa atolada de clichês, a breguice em todo o seu vergonhoso esplendor desfilando cena atrás de cena e uma direção covarde e cinematograficamente oca.

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Nos emocionaríamos com mais facilidade se o filme não quisesse o tempo todo nos emocionar. Parece contraditório, mas faz sentido: a trilha incidental e suas melodias chorosas habitam A Cabana por praticamente todo o seu tempo de duração e nos distraem, afastando-nos do que está acontecendo na tela e aproximando-nos de uma experiência sensorial fora de contexto – não há uma construção cautelosa do “sentir”, há apenas a preguiça dos realizadores e a vontade exacerbada de fazer chorar, recorrendo, para tanto, a velhos truques (quase) infalíveis. A música, em A Cabana, serve para manipular o público e não para enriquecer a narrativa ou transmitir sentimentos. É quase como se a personagem Sarayu estivesse ali, na sessão de cinema, querendo desesperadamente coletar as lágrimas das pessoas enquanto estas assistem ao filme (quem vir o filme vai entender…).

Sarayu, por sinal, remonta a outro dos grandes problemas do longa: as atuações, muitas delas prejudicadas pelo péssimo roteiro. Se Sam Worthington se esforça para conferir peso dramático ao seu complicado Mackenzie, ainda que sem os recursos de um Casey Affleck de Manchester a Beira-Mar, por exemplo, os demais a sua volta não passam de caricaturas. Octavia Spencer faz o que pode para transmitir um pouco de verdade, mas seu Deus é mal escrito e unidimensional; Avraham Aviv Alush, a representação do humano filho de Deus é um chato, e algumas cenas constrangedoras dele com Mackenzie me fizeram pensar que talvez estivesse rolando uma tensão sexual ali – mas é claro que não!, essa não é A Cabana de Brokeback Mountain; e Sarayu, finalmente ela, é interpretada por uma Sumire Matsubara que parece estar sempre chapada: pensamento lento (até demais!), fala pausada, olhar perdido. “Ah, mas ela representa a criatividade…”. Mais caricatural e irritante que isso, impossível. Isso sem contar a pequena e terrível participação da brasileira Alice Braga, que aqui encontra-se visivelmente perdida (mais perdida que a Sarayu, acreditem!) e desconfortável com sua personagem, que representa a Sabedoria. A cena em que Mackenzie a encontra é vergonhosa: trata-se do momento em que o filme escancara de vez sua veia de autoajuda de quinta categoria. Tudo bem: só para não ficar parecendo que está tudo errado, digamos que a pequenina Amélie Eve, que faz a Missy, filha mais nova de Mackenzie, é uma gracinha. E só.

A narração em off que abre a fecha o filme é outro elemento que serve às suas pretensões sensacionalistas. Trata-se de uma muleta para a narrativa, que caminha a passos trôpegos em direção ao caos. É muito mais fácil, quando não se sabe como abordar uma história em seus detalhes mais profundos, utilizar-se de um narrador onisciente que ilumine esses detalhes, pois é muito complexo administrá-los visualmente. Mas o Cinema é o desafio do visual e a recusa a esse desafio prova mais uma vez a covardia de seus realizadores. Uma narração como a que vemos em “Beleza Americana”, por exemplo, é inteligente porque serve ao aspecto visual do filme, num bate bola que confere à obra suas complexas camadas. O material que o diretor e roteiristas tinham em mão – ao menos esse conceito instigante de Deus – merecia uma abordagem mais corajosa e fora do padrão, como pode-se ver no trabalho primoroso de Sam Mendes e Alan Ball. O resultado, infelizmente, é uma bagunça que se apega a esquematizações e “força a barra” para criar empatia com o público desde seus minutos iniciais, quando nos é apresentada a dolorosa infância de Mackenzie e sua conturbada relação com o pai.

Outro aspecto especialmente irritante de A Cabana está intimamente ligado à fraqueza de seus diálogos. Ao invés de proporcionar ao espectador conversas profundas que iluminem a condição humana e tratem da relação do Homem com Deus de forma digna, sem válvulas de escape, o filme prefere se focar nos diálogos fáceis que supostamente só têm como objetivo o de emocionar: “não se esqueça que nos amamos”; “o amor sempre deixa uma marca” e assim por diante. Fica difícil levar a sério um filme que lida com temas tão pesados e questionamentos tão “além de nós” de maneira tão formulaica e muitas vezes apelando para um humor escapista que contribui para maquiar a falta de envergadura da narrativa. Como se não bastasse, muitas vezes a impressão que dá é a de que os personagens estão falando diretamente conosco e não entre eles. A sensação de que se tem que enfiar “autoajuda de quinta categoria” goela abaixo é tão presente que os diálogos em diversos momentos não soam como diálogos, mas sim como sermões, lições de moral que nós, o público, somos obrigados a ouvir. Um certo distanciamento faria bem, não?

O filme gosta de insistir em respostas, mas trabalha com temas que mais têm a ver com dúvidas do que com qualquer outra coisa. Ao invés de apresentar respostas prontas e frases feitas, que tal ancorar-se nessa dúvida e transformá-la no combustível para personagens fortes e narrativas de densidade minimamente condizente com a temática abordada? Em relação a Deus, sempre foi assim: a dúvida fica, as respostas mudam. Por que não aceitar esse fato?

A Cabana seria mais suportável se, mesmo com os diálogos frouxos e o sentimentalismo barato, a direção do filme trouxesse algo de visualmente interessante para a narrativa. Mas, infelizmente, não é o caso. Com uma mise-en-scène descuidada e calcada em artificialismos, a impressão que fica é a de que Stuart Hazeldine parece não ter tido qualquer envolvimento emocional com o material de origem e contentou-se apenas em “fazer o seu trabalho” – muito mal feito, por sinal. Reparem na cena em que Mackenzie conta para Missy a lenda da princesa índia. É amadora como um trabalho de estudante de cinema. A câmera não sabe para onde apontar. Os figurantes, ao invés de passarem despercebidos (na maioria dos casos é isso que se espera da figuração) deixam na cara que são figurantes e que estão sendo (mal) orientados para agir como agem. É tudo muito encenado, tudo muito fake.

No mais (e digo isso com toda a sinceridade do mundo, de coração aberto), é realmente uma pena que o filme tenha medo de ousar um pouquinho que seja. E é uma pena que o talento de Octavia Spencer tenha sido desperdiçado numa obra como essa. O Deus por ela interpretado gosta de Neil Young, está sempre sorrindo e cantando. Por mais que isso tudo soe super cool e ultra simpático, não deixa de ser uma abordagem simplória e sem peso de uma figura tão interessante, tão forte, tão controversa.

Deus, independente de sua existência, merecia um filme melhor.

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