Crítica | Além das Palavras

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Talvez as biografias mais interessante sejam aquelas que busquem uma inserção total no mundo de seu retratado, que tente exprimir todas as suas sensações, pensamentos e sentimentos no corpo e na alma da obra, não sendo apenas uma mera ilustração da vida de outrem. Além das Palavras encontra-se nesse campo, na tentativa de aproximação total com seu retratado, buscando fazer do filme o corpo de Emily Dickinson.

O longa do britânico Terence Davies poderia muito bem optar por caminhos mais cômodos, que resultaria numa bela ilustração artesanal, eficiente mas sem personalidade. Além das Palavras se passa no sul dos Estados Unidos no século XIX, seria muito fácil criar um belo drama, com aura romântica, utilizando o sol para iluminar as belas planícies sulistas; realizando um drama emocionalmente envolvente sobre uma mulher a frente de seu tempo. O comodismo dessa hipotética produção chamaria atenção de um bom público, porém não se aproximariam em quase nada do projeto de Davies, muito menos da figura de Dickinson.

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Conforme a própria escritora, a obviedade deveria ser afastada em qualquer das hipóteses, é necessário dizer que Além das Palavras não é um filme convencional (que bom!). O trabalho de Davies surge muito mais numa pesquisa pela compreensão de quem realmente é Emily Dickinson, do que buscar construir uma identificação entre público e personagem. Dessa maneira, é preciso compreender as propostas fílmicas, para que seu aproveitamento seja ainda melhor.

Por isso, em Além das Palavras, o autor rege um trabalho um tanto quanto cerebral, que não respeita as convenções de um cinema clássico sedento por uma adesão emocional. O filme chega a ter uma estrutura episódica, onde o que se vê na tela não necessariamente tem uma causa ou consequência na cena anterior, o que se vê ali são momentos da vida da protagonista que buscam expor todos os seus pensamentos e sentimentos diante do mundo em que vive. A cada sequência que se inicia o espectador tem a certeza que as ideias de Dickinson serão levadas ao paroxismo.

Davies concebe um filme totalmente conectado às palavras, ao que deve ser dito, a substância da obra reside na força do falar e como as palavras são utilizadas para escancarar uma visão muito particular de mundo. Aqui isso não toma forma apenas em diálogos expositivos, muito pelo contrário, isso vira uma opção estética dentro do longa. O trabalho dos atores está totalmente conectado a essa escolha, o elenco parece sempre estar declamando uma poesia, algo que foge do naturalismo habitual. Não é como se o filme buscasse propor uma espontaneidade baseado no modo como se falava no século retrasado, mas sim evidenciar que cada frase dita foi refletida para ser pronunciada daquela forma, como se, de fato, houvesse um poeta pensando em rimas, aliterações e significados para escrever o roteiro de Além das Palavras, e isso materializa-se com uma força abissal na interpretação de Cynthia Nixon.

O longa não se apega a sua narrativa. A história já está dada, já é sabida, o que se tem interesse é a possibilidade ficcional de dialogar com uma artista que só foi descoberta muito tempo após sua morte. Nesse sentido, o filme constrói uma série de momentos que, de repente, tornam-se divagações sobre os mais variados temas e como eles eram abordados na parte sul dos EUA nos anos 1800. Um simples encontro entre o Dickinson e um pastor transforma-se num aprofundado debate a respeito de literatura e poesia, confrontando os motivos pelos quais aquela mulher escreve daquela forma. “Ter um reconhecimento póstumo é ter a certeza que sua vida não foi digna de nota”, é isso que ela diz ao final dessa sequência, esclarecendo que este não é um filme sobre Emily Dickinson, mas que tenta pensar como a poetisa. Talvez se ela soubesse de seu sucesso futuro, a escritora reagiria dessa forma e aí que reside a inteligência do longa.

Nessas eternas divagações dentro de Além das Palavras, a obra toca temas como a questão da família, o feminino e suas representações, religião, fidelidade e outros assuntos, a cada sequência um novo tema é debatido de forma poética pelos personagens. Em uma dessas divagações, há a explosão da guerra de secção e é como se Davies interrompesse seu filme para fazer uma espécie de mini-documentário sobre o assunto, há uma justaposição de imagens da guerra civil, com letreiros informativos a respeito do número de mortos e feridos nos conflitos e uma narração da protagonista questionando os valores da guerra. O filme abre um parênteses e constrói uma espécie de documentário ensaísticos, onde a autora é a própria Emily Dickinson na voz de Cynthia Nixon.

Seria injusto dizer que Além das Palavras é um filme fundamentado exclusivamente em suas palavras, Terence Davies reforça suas propostas a cada plano que concebe. O diretor faz uma espécie de quadro vivo do momento que representa, não no sentido da câmera compondo uma pintura em movimento em que os personagens se movem enquanto a lente permanece parada. Aqui, há justamente o contrário, alguns personagens num só ambiente, constituindo uma cena pictórica em que todos mantém sua posição, assim, o diretor vai guiando o olhar do espectador, indicando onde ele deve olhar no momento, cortes que isolam os rostos de cada personagem, numa edição que não deixa que o espectador se envolva emocionalmente, porque o objetivo do filme é a compreensão das ideias ditas ali. No fim, um a um vai saindo daqueles ambientes, restando apenas uma pessoa isolada nos cômodos da casa, sempre Emily, alguém que afastou seus íntimos pela potência de suas ideias e de suas palavras, ouvidas e compreendidas pelo público que agora as assiste.

Há outros dois momentos em que esse isolamento da protagonista fica bem claro, o cineasta coloca sua figura principal no centro de um desses ambientes e faz uma panorâmica, em que a câmera realiza uma volta completa em torno de seu próprio eixo. Enquanto o movimento se dá, o espectador é convidado a enxergar a situação de cada ser inserido naquela sociedade (a mulher a tricotar, a tia sob penitência divina, o irmão casado a cortejar e etc), e quando a câmera volta para o rosto de Emily o público é obrigado a confrontar o vazio da protagonista, incapaz de se adequar com a conjuntura que acabamos de ver, situação que a coloca numa solidão muito pior do que física, mas intelectual e emocional, o fardo de uma mulher a frente do seu tempo.

Além das Palavras é acima de tudo um exercício para o intelecto, um filme não sobre um tempo histórico, muito menos um romance de costume e longe de uma simples explanação acerca da vida de alguém. A obra de Terence Davies é convite para se pensar com a cabeça de sua protagonista, num filme que honra as ideias, os sentimentos e principalmente as palavras de Emily Dickinson.

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