Crítica | Cães Selvagens

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De longe Cães Selvagens pode parecer uma obra bastante genérica, vide seu título, sinopse, cartaz e até mesmo elenco – Nicolas Cage confere isso a qualquer filme que esteja envolvido. Todavia, o longa é o mais novo projeto Paul Schrader, um nome não tão conhecido do cinema autoral americano, mas com uma grande parcela de importância para esta cinematografia. Evidentemente que a presença de Shcrader não valida Cães Selvagens, mas faz compreender porque há tantas diferenças entre esse filme e um longa de ação comum.

Paul Schrader foi uma das pedras fundamentais do movimento que reinventou o cinema americano, a chamada Nova Hollywood, o autor escreveu obras seminais para aquele momento como A Outra Face da Violência, de John Flynn (1978); Trágica Obsessão, de Brian de Palma (1976); e o clássico Táxi Driver, de Scorsese (1976). Schrader também esteve envolvido na direção de impactantes longas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, como Hardcore – No Submundo do Sexo (1979) e Mishima: Uma Vida em Quatro Tempos (1985).

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Como muitos de sua geração, Schrader foi engolido pela renovação dos estúdios e seu tipo de cinema tornou-se incompatível com a nova lógica dos produtores. Diferente de Scorsese, Spielberg, Coppola e George Lucas, que conseguiram se adequar, cada um a sua maneira, aos novos padrões hollywoodiano, o cineasta, assim como muitos, teve que fazer seus filmes numa lógica muito menor – muitas vezes sobre forte controle de produtores -, ou assumindo uma descaracterização quase total de sua autoria. Com a popularização do digital, Schrader viu, nesses últimos anos, a possibilidade de fazer obras mais arriscadas e mais alternativas, mesmo que vez ou outra ainda esteja nas mãos de produtores que almejavam apenas mais um filme de gênero – basta notar a polêmica por trás de Vingança ao Anoitecer, penúltimo filme do cineasta.

Cães Selvagens insere-se nessa lógica, uma busca pela radicalização e experimentação de temas e formas já encontradas em outras obras de Schrader. Após anos de experiência é como se o cineasta não tivesse que dialogar ou negociar o tipo de longa que faz para agradar algum produtor ou estúdio. Schrader filma como se estivesse realizando seu primeiro filme, como se ainda estivesse fazendo filmes de estudante, parafraseando Coppola que definiu seus últimos longas dessa forma.

Essa pungência presente num filme juvenil atesta dois fatores, uma busca por frescor, mas também uma inconstância criativa, fazendo com que Cães Selvagens possua grandes irregularidades, momentos de pura inventividade aliados a momentos de pouco interesse ou de iniciativas mal sucedidas. O filme tem uma sinopse um tanto comum, acompanhando a vida de três ex-presidiários, Troy (Cage), Diesel (Christopher Matthew Cook) e o mais inconstante dos três Mad Dog (Willem Dafoe), homens que, após uma tentativa de ressocialização, devem voltar à vida bandida para conquistarem algo.

Cães Selvagens, dessa maneira, é um filme que tenta se utilizar do genérico para ir adiante, não se contentando apenas com sequências de ação ou alguns momento de tensão. O longa de Schrader tenta encontrar formas imaginativas para transmitir o interior dos personagens que representa. A sequência inicial da película coloca Mad Dog numa sala de estar completamente violeta, um ambiente que muitas vezes parece infantilizado. O personagem se droga e começa a ter surtos violentos até sua namorada chegar e ele finalmente ter seu acesso de raiva concluído com um assassinato ultra-violento. Em seus primeiros minutos, Cães Selvagens consegue traduzir visualmente sua temática, ou seja, seres incompatíveis com um mundo externo aparentemente agradável, que necessitam voltar com urgência a um submundo marcado pela liberdade de seus instintos – parecidíssimo com a relação entre Schrader, cinema e indústria.
Pensando dessa maneira, é curioso notar a participação do próprio cineasta no filme. Schrader atua como El Greco, uma espécie de chefão do crime que repassa atos ilícitos para os três protagonistas, como se ele fosse, de fato, um regente desse mundo marginal, como se compreendesse completamente a lógica dos seres que retrata e de suas marginalidades. Assim, Cães Selvagens se propõe a ser uma jornada pela natureza desses seres, algo que ocorre literalmente no segundo ato do longa em que os três homens tomam as estradas americanas e aquela viagem com paradas em motéis torna-se uma eterna reflexão acerca daqueles personagens.

O filme é muito menos sobre criminosos e seus atos violentos, do que seres humanos e suas personalidades que acabam transbordando em impulsividade e violência. Cães Selvagens tenta transmitir isso através de todos os recurso cinematográficos, principalmente pela fotografia assinada pelo pouco conhecido Alexander Dynan, buscando a secura de seus personagens no uso do preto e branco em algumas sequências, ou da imersão total na sua violência interna, como em um momento esteticamente interessante em que o personagem de Cage está perdido numa neblina vermelha enquanto aguarda os tiros de um policial.

O problema é que Cães Selvagens tem uma grande parcela de Mad Dog, o filme tropeça por caminhos de sua própria impulsividade, resultando numa inconstância total que diminui os momentos exemplificados anteriormente. Há até mesmo um problema na representação da violência fílmica, o grafismo exagerado faz com que as agressões vistas na tela não incomode, atuando quase numa chave cômica – à lá Tarantino, todavia, seu conteúdo segue sendo abjeto, segue sendo abusivo. É como se as imagens pedissem para que o público não sentisse o peso da violência, mas o texto não coincide com essa questão, tornando tudo extremamente questionável, a indiferença com aquela violência é simplesmente impossível.

A sequência inicial é tão forte, nesse sentido, aliando uma violência gráfica exagerada com uma sequência de assassinato extremamente forte e repulsiva – a morte à queima-roupa de uma mulher e sua filha, que mesmo o filme sendo um intenso percurso adentro da natureza de seus personagens, a sensação é totalmente abjeta, tornando incapaz qualquer empatia ou qualquer crença numa mínima virtude daqueles personagens.

Se Schrader, com a popularização do digital, ganha liberdade para filmar e realizar filmes com um frescor estudantil, essa renovação fílmica também revela uma grande inconstância, como se Cães Selvagens merecesse uma atenção maior de um professor orientador. Um filme que a todo momento parece não estar pronto em seu conteúdo e representações, cheio de fervura estética e uma segura direção aliado com ideias que surgem de forma atabalhoada. Se Cães Selvagens é mais do que um filme de ação, o longa também está longe de ser uma grande obra.

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