Crítica | Logan Noir

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Estando numa espécie de apogeu, em termos quantitativos, do cinema de super-heróis, o gênero favorito da indústria já vem demonstrando certo cansaço, ou pelo menos um desgaste numa fórmula vista na tela incansavelmente. É nesse cenário que surgiu no início desse ano um filme como Logan, um título que se propunha ir além daquilo que vinha sendo visto no cinema de herói. Com sua visceralidade, crueza e principalmente um mergulho psicológico em seu personagem título, Logan ganhou visibilidade e contornos de uma obra ousada dentro de suas possibilidades industriais, propondo minimamente uma reformulação nos códigos e clichês do cinema de super-herói.

Evidente que num momento em que toda semana parece sair o melhor filme do mundo, é necessário tomar cuidado com exaltação de Logan, um filme que necessita passar pelo teste do tempo para mostrar sua verdadeira importância. Fato é que os realizadores do filme gostaram dessa associação de Logan com uma aura mais cult e menos comercializável. Diante disso, foi proposto essa nova versão do longa, em tons preto e branco, na dessaturação total do mundo do protagonista, parecendo assumir completamente esse tom diferenciado do restante dos títulos de super-heróis. Logan Noir já surge de uma pretensão de assumir, mais ainda, seu caráter autoral na seara dos filmes Marvel, DC e etc.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Nessa situação cabe entender esse Noir de Logan como uma melhor maneira de explorar os conceitos vistos no filme, ou apenas como uma espécie de fantasia para vestir a projeção com esse cárter mais cult. E talvez esse seja um dos testes que Logan deve passar e sua versão Noir consegue dar conta disso, levar as escolhas de seu realizador ao extremo, sem que isso seja apenas uma gourmetização dos processos técnicos e estéticos da obra.

Assim, é necessário entender constantemente essa não utilização da cor em Logan, algo que aprofunda ainda mais o espectador nos sentimentos desse protagonista. Essa psicologização presente no filme fica ainda mais marcada com o uso do preto e branco, no alto contraste entre o claro e o escuro ficam aparentes os fantasmas que vivem dentro de Wolverine. Em muitos momentos esse contraste é tão alto que o longa parece uma gravura, um desenho em que o preto se sobressai ao branco, em que as figuras são mergulhadas em sombras.

Evidentemente, o desgaste daquele protagonista está na sua vida sem cor, mas é interessante como essa matriz cromática faz com que figura e fundo não tenha diferenciação, como se tudo fosse chapado ou sem profundidade, como se o universo visto em cena não propusesse aprofundamentos, sendo a sobrevivência a única possibilidade. Altamente granulado e pouco iluminado, Logan Noir representa esse mundo futurista, mas sobretudo, o universo desse personagem, de forma nua e crua, sem alguma possibilidade de heroísmo ou de vida.

Logan por si só é uma obra caracterizada por ser um estudo de personagem, logo esse exercício de forma proposto em sua versão noir é uma forma de tentar a todo instante representar o interior desse personagem. Tudo é colocado como se fosse um espelho interno, como se o projetor estivesse intimamente ligado com a alma e a história de Wolverine. O próprio fato de esta versão possuir o nome de Noir revela muito sobre essa tradução visual da alma de Logan.

O estilo cinematográfico do film Noir compreendeu muito bem o espírito de seu tempo, refletindo uma desconfiança, uma incerteza e principalmente um antimaniqueísmo em relação ao mundo, um mundo dúbio marcado apenas pela luz e pela sombra, em que esta é muito mais constante que a outra. Logan é uma constante sintonia com esse pensamento, talvez essa seja o filme do universo X-Men que mais surjam ameaças de uma ordem realista, de um mundo muito mais próximo àquele fora da tela. A insegurança, a ameaça e o sentimento de finitude vividos por Logan são compartilhados com o público. E esse visual marcado, dessaturado e totalmente contrastado diz, de forma implícita, muito sobre o mundo não ficcional que Logan baseia-se.

É essa aridez que faz com que momentos muito pequenos ganhem um forte contorno poético, uma beleza dramática essencial para tornar Logan um filme totalmente diferente dos demais. Há um momento em que Logan carrega Charles por uma escada e Laura observa a cena, a cada degrau que a garota sobe, as sombras vão descobrindo seu rosto, como se aquele ato humano de um homem marcado pela violência iluminasse a vida de alguém que, mesmo traumatizada, ainda tem toda uma vida para reverter o seu destino.

Logan Noir é muito mais do que apenas uma vaidade para encobrir o longa por uma aura ainda mais autoral. Assim como a sua primeira versão, esta comprova que Logan é carregado principalmente de uma consciência em relação às ideias que carrega, aos clichês que refuta e ao lugar que pretende estar daqui a alguns anos. A versão Noir de Logan comprava o porquê este não é apenas mais um filme de super-herói.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio