Crítica | Muito Romântico

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Alguns filmes oferecem poucas (ou quase nenhuma) chaves para sua leitura, nem se quer uma narrativa que possa guiar o espectador entre os planos, cenas e sequências. Essas são obras que requerem um certo cuidado quando o espectador está diante delas, a primeira reação, muitas vezes, é recusa total, ver todos paradigmas de um cinema narrativo hegemônico ruir não é fácil e isso causa uma certa ojeriza. Todavia, se abrir para novas experimentações às vezes é uma forma de encontrar novas sensações causadas por uma obra audiovisual, como se alguns cineastas e filmes conseguissem construir uma outra relação entre imagens em movimento e seu público. Uma relação em que o sentimento atinge diretamente o espectador sem que seja necessário o meio narrativo.

Dois brasileiros residentes na Alemanha aderem a essa forma de cinema em Muito Romântico, o projeto é produzido, escrito, dirigido e atuado pela dupla Melissa Dlilius e Gustavo Jahn, este último protagonista de O Som ao Redor (2012). No filme, eles representam um casal vivendo em Berlim e encontram diversas maneiras para falar de amor e do próprio relacionamento vivido por eles. Como dito, Muito Romântico foge da hegemonia do cinema narrativo e por isso seria infeliz a tentativa de resumir aquilo que está contido no longa em algumas frases, numa espécie de sinopse.

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A obra é afeita a experimentação estética no significado mais estreito do termo. Experiência não só no sentido de romper com as formas cinematográficas e propor abordagens diferentes, mas também de proporcionar uma experiência ao seu espectador, fazer com que ele experiencie. O fluxo de imagens produzidas por Melissa e Gustavo faz com que o espectador imerja em sensações e em sentimentos profundos, causados por reflexões propostas por aquilo que se vê. Muito Romântico através de sua expressão artística faz com que se viva as situações e sentimentos passados por aqueles dois personagens reais. Mais do que experimentar, o verbo que dita a relação entre obra e audiência é o experienciar.

Muito Romântico é, acima de tudo, um filme sobre a expressão, sobre dois artistas buscando a melhor forma de transmitir aquilo que sentem. As câmeras dos cineastas registram os atores/autores buscando as formas artísticas que melhores completam suas demandas. Eles pintam, eles cantam, eles performartizam e eles filmam – há uma espécie de filme dentro do filme. Assim, a cada tentativa de expressão existe um auto comentário muito forte, muito presente e muito potente, uma impossibilidade de falar daquele amor e daquela relação, e ao mesmo tempo em que essa tarefa expressiva parece impossível, a todo instante elas conferem informações importantes acerca daquelas duas figuras. O filme planta essas diversas situações para transmitir as sensações daqueles dois e nas suas tentativas de expressarem aquilo que sentem, esse processo acaba ecoando na plateia.

A partir disso, Muito Romântico é uma incessante jornada estética, em que cada tentativa do casal torna-se uma experiência formal, uma abordagem cinematográfica distinta. O longa começa com os dois num navio, nos primeiros minutos, já relacionando a viagem com a relação de um casal num outro país. Há ali a busca por um esgotamento estético daquela locação, com a filmagem feita na película 16 milímetros e o uso de fotografias em filme de 35 milímetros, cada espaço daquele navio, cada luz, cada janela abre possibilidade para uma performance nova, por uma tentativas de construir imagens que fujam de tudo aquilo que se vê atualmente no audiovisual, para, assim, se conectar estreitamente com o universo daqueles dois personagens.

Nessas busca por expressões artísticas e estéticas vai se construindo pontos cruciais dentro da narrativa visual de Muito Romântico. Há, por exemplo, a constante divisão, secção entre Gustavo e Melissa como se cada um tivesse seu mundo particular e aquele pequeno cômodo em Berlim fosse uma zona de conflito entre dois universos – que mesmo se amando, divergem, disputam e conflitam. O plano de um é totalmente simétrico, ao mesmo tempo em que é o oposto e complementar ao do outro. Como quando ele está em frente a sua cortina azul, enquanto ela está na mesma posição, virada em outro sentido, na frente de uma cortina vermelha. Mundos opostos, que disputam o mesmo espaço, mas que estão ali para se conectar, para se encaixar.

A encenação de ambos atores é de uma constante declamação, como se eles sempre estivessem conscientes de seu trabalho de atuação, de suas propostas fílmicas e de sua constante auto ficção. Gustavo e Melissa podem estar repetindo papéis vividos em suas realidades, mas em momento algum almejam transparecer espontaneidade, como se tivessem lembrando a si e ao espectador o conteúdo racional e extremamente calculado daquela obra. Se Muito Romântico transmite os sentimentos presentes numa relação amorosa isso se dá de forma intelectual, conceitual, num filme que pede a sua audiência a reflexão sobre aquilo que está sendo dito. A vivência estética daquele casal é transmitida, é expressada através da racionalização e da consciência da realização de um filme, sem nenhuma armadilha ou armação para que o espectador seja cooptado por uma narrativa emocional.

Dessa forma, Muito Romântico é um filme que está pensando a todo o momento, em que suas imagens surgem para propor uma relação intelectual com o espectador. A obra parte da sua constante racionalização para demonstrar sua sensibilidade, falar de amor não é fácil e Melissas Dlilius e Gustavo Jahn optam pelo caminho mais ousado, difícil e interessante de abordá-lo. Muito Romântico é um obra superlativa em muitos aspectos, principalmente da forma como desafia seu público a entrar nesse espiral de imagens intelectuais, pouco narrativas e extremamente sensíveis. Há muita experimentação, muita ousadia e principalmente muito cinema em Muito Romântico.

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