Crítica | Mulher-Maravilha

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Havia certa divisão de humores em relação ao lançamento de Mulher-Maravilha, uma expectativa enorme pelo fato de se estar à frente do primeiro longa de uma famosa heroína, mas também uma certa suspeita em relação ao seu resultado final, vide a incompatibilidade entre as obras do universo DC e a recepção do público. Mulher-Maravilha, dessa forma, configura-se como uma espécie de prova final antes do grande encontro da DC, o longa da Liga da Justiça. É sentida essa necessidade de refazer o pacto entre o mundo daqueles heróis e a sua audiência.

Essa divisão de humores é perceptível ao longo da projeção, como se o longa carregasse certa pressão para embalar o público em sua narrativa, mantendo as características fundamentais do universo DC, como em Batman Vs Superman, mas sem desperdiçar todo um filme na tentativa de agradar seu público, como no desastroso Esquadrão Suicida. A Mulher-Maravilha tem, então, missões extremamente complexas para sua primeira aventura, como se cada ideia proposta pelo filme fosse pensada e repensada mil vezes, como se tudo que está ali tivesse que agradar gregos e troianos, mantendo sua fidelidade com um projeto muito maior.

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O filme pode muito bem ser dividido em três partes, a primeira na ilha das amazonas, a segunda na chegada do novo mundo – a Inglaterra em meio a Primeira Guerra Mundial, e o último o campo de batalha e a grande provação da Mulher-Maravilha, todos esses pontos são construídos nessa consciência entre a agradabilidade e a fidelidade. O primeiro ponto segue nitidamente uma narrativa de origem, colocando informações para o público conhecer a mitologia por trás daquela heroína, estabelecendo os paradigmas e bases para compreender quem é verdadeiramente aquela personagem. Há ali o treinamento, a explicação das armas utilizadas pela Mulher Maravilha, mas, sobretudo o prenúncio de uma missão a ser cumprida até os últimos minutos de filme. A Mulher Maravilha ainda não conhece seus poderes, mas só os descobrirá quando entender sua missão. Essa será a jornada da heroína.

Nesse primeiro momento há a construção também desse mundo fantasioso, totalmente diferente da realidade vista no mundo dos homens. Algo marcado pelo uso das cores e da fotografia totalmente saturada no ambiente de origem de Diana. Todavia, a grande diferenciação daquela ilha para o restante do mundo é que ali impera a paz, não há interferência do homem (tanto quanto raça, como quanto gênero) para desestabilizar aquela realidade paralela. Ali, onde Diana nasce, há uma outra lógica, um outro movimento que rege o mundo e sua missão está do lado de fora de lá.

Como uma boa narrativa da jornada de herói – o famoso esquema de roteiro para a construção de um protagonista – algo força Diana a sair dali, a presença de um piloto que acaba caindo na ilha. A figura de um intruso que revela a guerra que o restante do mundo passa, sendo esta a grande missão da heroína. Além de fornecer uma base de informação para os espectadores ávidos por conhecerem mais da história de Diana, o longa oferece um primeiro ato de um grande apelo empático, que conecta eficientemente, ainda que inserido numa conhecidíssima fórmula narrativa, a audiência e a jornada daquela protagonista.

Depois desse primeiro momento e dessa construção de uma forte relação emocional entre personagem e espectador, o longa embarca num segundo momento, ainda mais agradável. Diana e Steve Trevor (Chris Pine) chegam à Londres e lá a protagonista começa a compreender as novas configurações sociais e políticas do início do século passado. Pine encarna uma espécie de contraponto cômico a Gal Gadot, como se o homem forçasse a protagonista a entrar nos arranjos sociais daquele tempo. Um interessante cenário social para um filme de super-herói.

Fato é que esse segundo momento de Mulher-Maravilha está completamente ligado a esse sentimento de agradar o público. O longa investe longos minutos para construir a leveza que tanto pediam aos filmes da DC, algo muito mais orgânico que em Esquadrão Suicida, mas extremamente palatável e formulaico. Mulher-Maravilha, de uma hora para outra, torna-se uma comédia de costumes, em que diversas situações são construídas para tirar humor da incompatibilidade do pensamento de Diana com o da época que passa a ser obrigada a viver. Se a leveza existe, se algumas piadas funcionam, também é sentido essa distinção entre esse momento central do longa e o restante da obra, principalmente sua terceira e mais dramática parte. Visto como um todo, esse segundo instante de Mulher-Maravilha parece apenas um afago ao espectador acostumado por este constante alívio cômico, agradável, mas dispensável.

O longa segue para seu terceiro e mais interessante momento, inserindo muito bem Mulher-Maravilha no restante do universo DC. Diana finalmente conhece a guerra dos homens, muito mais complexa do que algo induzido por um deus grego. Diana finalmente torna-se Mulher-Maravilha e descobre que seu lugar é estar nesse mundo, não porque o homem mereça, mas sim porque é sua missão. Mulher-Maravilha compreende que, diferentemente de seu mundo, a paz não é algo tão maniqueísta, não sendo apenas um visível conflito entre o bem e o mal, mas sim um combate acinzentado constante no interior de cada homem. Essa dubiedade é sentida por Diana, pelo fato de estar vivenciando um mundo tão diferente do seu. É essa dubiedade acinzentada que povoa os longas da DC desde O Homem de Aço (2013) e Mulher-Maravilha explica-o de forma bastante didática.

De fato o mais interessante em Mulher Maravilha são os temas que o filme toca, muito dessa complexidade da violência humana, mas também da condição de uma mulher como o grande super-herói de um filme solo. Diana é a verdadeira protagonista daquela narrativa, com tudo girando em torno de sua figura quanto mulher fadada a salvar um mundo dominado por homens. Assim como a própria diretora, Patty Jenkins inserida num gênero comandado por diretores, assim também como Gal Gadot protagonista de um universo totalmente masculinizado.

Se Gadot pode não ser a melhor atriz do mundo, e quando o longa exige uma entrega emocional maior ela não vai tão bem assim, a israelense encarna muito bem esse perfil forte, essa mulher protagonista que tem a força como sua grande habilidade. A performance aqui é bastante física, sendo necessário mostrar que a Mulher-Maravilha não perderia para nenhum super-herói homem. E se Jenkins faz um trabalho totalmente competente, é interessante como mantém uma unidade com o estilo visual da DC, apostando em cenas de ação com aquele aspecto visual típico de um vídeo game sem que isso seja exagerado ou forçado, mas totalmente natural.

Mulher-Maravilha, por fim, é um longa que restabelece parâmetros a fim de convencer o público que os próximos filmes desse universo podem ser interessantes e agradáveis. Um pouco menos pretensioso, mais palatável e em alguns momentos rendido a uma série de fórmulas, o primeiro filme protagonizado por uma heroína mantém uma série de pontos interessantes, um longa que acima de tudo cumpre com seus objetivos.

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