Crítica | Ninguém Entra, Ninguém Sai

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Comédia não é um gênero fácil, muito pelo contrário, uma série de fatos precisam muito bem ser calculados, muito bem planejados para que o filme tenha timing, seja engraçado e possa surpreender. No Brasil, sem nenhum tipo de preconceitos ou juízo de valores, a comédia é o gênero mais popular do país, muito além de gosto, ou mal gosto, essa é uma questão cultural, desde as primeiras tentativas comerciais do cinema nacional esse é o gênero que sempre atraiu os maiores públicos, conseguindo conquistar a classe mais abundante no país.

As chanchadas inauguraram essa conjuntura em meados dos anos 1950, durante as décadas de 1970 e 1980 foi a vez do humor se juntar ao sexo e a pornochanchada ganhar as telas do país. Na época da retomada foi o humor que reconquistou o público e, desde os anos 2000, as comédias globo filmes são hegemônicas no cinema comercial brasileiro. Bem verdade que estas têm um pé na antiga fórmula das antigas chanchadas, a figura do suburbano, o humor rasteiro e a utilização de atores famosos provindos de novelas televisivas. Basta olhar os números para notar que tal modelo já vem perdendo força no cenário, as novas chanchadas vêm caindo em desuso e a renovação é iminente.

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Diante desse cenário a comédia segue sendo hegemônica, mas as mudanças necessárias são visíveis. Até mesmo o programa Zorra Total, exemplo de humor demodê busca uma atualização acertada, no cinema não seria diferente. Os filmes com youtubers e afins são uma maneira da indústria encontrar um novo humor de aceitação popular. Quase num sofismo, se retomar padrões da chanchada cinquentista foi a chave do sucesso, bastaria olhar para linha sucessória contida na linha do tempo da comédia brasileira para encontrar na pornochanchada uma nova fórmula de sucesso. Ninguém Entra, Ninguém Sai pode muito bem, timidamente, significar esse rumo ao humor sexual.

O filme dirigido pelo estreante Hsu Chien narra a história de alguns casais que ficam presos num motel no Rio de Janeiro por conta de uma quarentena causada por uma suspeita de um vírus extremamente perigoso. O longa, então, concentra-se em mostrar o dia a dia do confinamento naquele ambiente propício ao sexo e como a relação entre eles vai se alterando ao longo do tempo. Quer queira quer não, o componente sexual é o centro de todo o filme, o que prende os personagens e o público é a insinuação sensual trabalhada em cima de tabus e estereótipos para retirar seu humor.

Nesse sentido, até mesmo os filmes da pornochanchada eram mais a frente do que Ninguém Entra, Ninguém Sai. O filme é como se tivesse medo do seu próprio conteúdo proto-erótico, uma ideia por muitas vezes moralizante que habita o mesmo mundo de closes em lingeries de atrizes famosas. O sexo como simples e pura objetificação de corpos, sem entender o que o desejo carnal realmente implica – nem que isso ocorresse numa chave cômica. O que ocorre em Ninguém Entra, Ninguém Sai é a utilização do senso comum para fazer piada, não de maneira questionadora, utilizando esses preconceitos de maneira jocosa, o filme, pelo contrário compra o discurso raso sobre aptidão sexual para fazer humor, sem perceber o quanto isso é ultrapassado.

Isso faz com que o longa seja um compilado de estereótipos, todos reunidos em um mesmo ambiente, falando sobre o mesmo tema e fazendo piadas frágeis sobre o assunto. Dessa forma, os casais presos no quarto de motel são baseadas em figuras bastante caricatas que poderia ser pensadas por qualquer um, já que são tão enraizada no senso comum. Danielle Winits encarna uma juíza bastante autoritária, evidentemente que na cama ela será uma dominatrix para botar medo em qualquer homem. Letícia Lima a clássica “periguete” porém entre as quatro paredes do motel joga seu companheiro na parede e pede para casar, afinal esse é o sonho de qualquer mulher. Mariana Santos faz a virgem de quarenta anos, louca por sexo, mas que segue usando seu óculos e sua calcinha bege. Ninguém Entra, Ninguém Sai é uma repetição incessante de clichês sexuais.

O anacronismo está em todos os lugares no longa, desde seu tema, textos até chegar a seu visual. Os cenários do filme prezam pelo artificialismo, de maneira bem proposital, afirmando o tom farsesco do longa. A decupagem do diretor estreante preza pelos planos próximos, sem grandes movimentos, ou algo do tipo, fazendo uma mera ilustração textual, que aposta (na inexistente) força de suas piadas. O longa assume a estrutura de uma comédia maluca, construindo uma situação que ao longo do tempo só vai ficando mais absurda. Todavia, fazer uma comédia já é difícil, fazer o cômico dentro do âmbito do inacreditável é ainda mais complicado.

Essa estrutura, ou atém mesmo esse subgênero cômico, é extremamente interessante e válido, mas só é funcional com dois fatores, uma rica construção narrativa, que vai aos poucos apresentando absurdos para o espectador, preparando a audiência para que as coisas fiquem extraordinárias. Além disso, esse tipo de obra necessita de um centro cômico quase perfeito, um humorista que chama toda a comicidade para si, como se fosse ele que chamasse os absurdos e sua postura dentro da cena continua inquestionável, Peter Sellers era um gênio nesse sentido. Fato é que em Ninguém Entra, Ninguém Sai não se encontra nada disso. A comédia de absurdos aqui vira só uma desculpa para resolver situações que o roteiro nunca daria conta, não há o que explicar, não há o que acreditar, não há o que rir. A premissa do filme nunca fica crível ou compreensível, e aquela quarentena parece apenas jogada, assim como sua resolução.

No fim, a única coisa que amarra o longa como um todo é apenas o sexo. Assim como na pornochanchada é o componente erótico que preenche o filme, um sexo moralizante, recheado de tabus e que se utiliza dos clichê e preconceitos acerca do assunto. Diante de uma renovação iminente da comédia brasileira, Ninguém Entra, Ninguém Sai é exemplo de anacronismo.

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