Crítica | Punhos de Sangue

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O esporte, os azarões e o cinema, uma combinação bastante vista e que muitas vezes ocupa a narrativa de filmes repletos de prêmios, prestígio e público. Um dos mais famosos dentro desse exemplo é Rocky Um Lutador (1979), longa protagonizado e roteirizado por Sylvester Stallone, transformando a figura daquele pobre boxeador numa lenda do cinema. Punhos de Sangue é outro olhar acerca dessa representação do esporte (principalmente do Boxe) no cinema, e principalmente sobre a história marcante de Rocky.

O longa conta a história de Chuck Wepner, interpretado por Liev Schreiber, o pugilista que inspirou a figura de Balboa. Desde o primeiro minuto, o longa se concentra em deixar claro que aquela não será uma obra sobre a ascensão de um azarão, que mesmo na lona ergue-se para ser saudado pelo público. Punhos de Sangue começa com o protagonista dizendo que sua maior habilidade era resistir a socos e sangramentos, por isso foi conhecido por muito tempo por The Bleeder (nome que batiza originalmente a obra), ou seja, um lutador cuja sua maior arma é apanhar.

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Dessa forma, Punhos de Sangue trabalha sempre na lógica de reverter a ideia do azarado, empático em relação ao público, que está fadado a uma vitória monumental, do mais fraco contra o mais forte. O longa se alinha ao melhor do cinema de boxe, aquele que aborda as figuras esportivas através de uma carga humana muito forte, algo encontrado em filmes como Réquiem para um Lutador, de Ralph Nelson (citado no próprio Punhos de Sangue); Cidade das Ilusões, de John Houston e Touro Indomável, de Martin Scorsese. Todavia, o mérito de Punhos de Sangue é ao mesmo tempo se alinhar a esse tipo de obra, mas também apresentar um interessante contraponto a elas.

Se nos três longas citados há uma construção acerca das figuras dos boxeadores e sua volatilidade, mostrando ascensão, o deslumbre com a glória e a queda daqueles homens, sempre de forma bastante trágica. Em Punhos de Sangue há uma constante desilusão em relação ao mundo do boxe, mas oferece sempre uma saída ao seu protagonista, como se aquele homem tivesse como seu destino a lona. Assim, Punhos de Sangue é um filme sobre como aceitar essa queda constante, onde a glória parece sempre escassa, mas próxima de um mundo extremamente comum.

Nesse sentido, o longa de Philippe Falardeau assume um tom quase irônico sobre a vida de seu retratado, não como uma crítica, mas sim como um comentário bem-humorado a respeito daquela trajetória, como toda aquela vida foi desperdiçada pela busca do auge. Assim, nessa constante busca pela aceitação da própria lona, o filme vai jogando seu protagonista numa vida dura, em que a ascensão nunca é possível. Nessa quebra de expectativa constante, de um ser que segue apenas na lama, na lona.

Punhos de Sangue faz com que seu protagonista passe pela aceitação de sua condição como perdedor, a grande glória de Chuck Wepner é aceitação da vida comum. O longa gira em torno dessas tentativas por uma aceitação, de alguém que acredita estar sempre às vésperas de sua vitória grandiosa. O Lucky Man, como o próprio protagonista acredita, vai aos poucos entendendo que essa sua busca incessante pela vitória é a porta de seu próprio fracasso. O tom contido no longa faz com que essa trajetória soe como um erro completo e a torcida, de fato, é que Wepner se concentre na sua vida normal. O pensamento pode ser simplista, porém frente a uma narrativa em que a vitória acaba sempre na derrota, torna-se a única e mais bela saída. Se Rocky é um sucesso, Wepner não é, e essa é a sina do protagonista de Punhos de Sangue.

Esse tom de derrota e ironia é reproduzida na realização visual do longa. Há um trabalho de reconstituição dos anos 1970 e toda sua exuberância, os carros da época, as luzes neon, mas ao mesmo tempo existe a utilização da fotografia referenciando o estilo cinematográfico da época. Onde o aspecto granulado dá ao longa uma veracidade maior e também um certo ruído calculado à narrativa. Ou seja, mesmo que exista o glamour visual da época (romantizada hoje), há a sujeira, há uma decadência iminente.

É bem verdade que a direção de Philippe Falardeau tem uma relação forçada com o cinema dos anos 1970, uma espécie de maneirismo superficial e extremamente emulativo. Em que a mise-en-scène é contagiada por completo por esse tom de homenagem, sem que sobre espaço para um desenvolvimento individual. Punhos de Sangue tem cara de anos 1970, com uma direção segura e que traduz bem as linhas de seu roteiro, mas sem que algo de muito potente surja dentro do longa, nem mesmo em seus momentos mais cômicos – o grande diferencial de Punhos de Sangue.

Se Punhos de Sangue pode não ter as mesmas glórias do que Rocky – algo totalmente condizente com a narrativa vista em tela – há uma relação muito honesta entre o longa e seu retratado. Punhos de Sangue mostra que a lona é um resultado muito mais comum do que as glórias vistas em inúmeros filmes de esporte.

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