Crítica | Z: A Cidade Perdida

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Alguns cineastas parecem ter uma visão panorâmica do cinema, um olhar quase totalizante desse ofício, uma compreensão não só das estruturas narrativas e das composições em movimento, mas sim um conhecimento da arte de fazer filmes como um todo, que passa pela visão estética, pelo entendimento de seu lugar numa história do cinema e das temáticas abordas ao longo de seu trabalho. O americano James Gray, trabalho após trabalho, demonstra que é um dos nomes que podem ser inseridos nessa categoria, que na construção de suas obras demonstra uma coerência muito grande com sua maneira de pensar e, principalmente, de olhar o cinema.

James Gray em seu sexto longa-metragem realiza seu trabalho mais ambicioso, um filme com um grande elenco, um épico ambientado em boa parte na Amazônia, com uma grande duração. Gigantesco em vários os sentidos, até mesmo em cinema. Z: A Cidade Perdida parece ter saído de uma outra época, parece ter sido realizado com a classe primordial dos grandes épicos hollywoodianos dos anos 1940. No filme e na concepção do cineasta reside uma consciência enorme dessa raiz historiográfica do cinema, não sendo um realizador que apenas se utiliza de imagens cristalizadas por um imaginário cinéfilo, mas sim que investiga a fundo os símbolos essenciais do cinema americano. O cinema policial em seus três primeiros filmes (Fuga para Odessa, Caminho Sem Volta e Os Donos da Noite), o melodrama em sua obra subsequente (Amantes, ainda o melhor de Gray), uma obra de transição entre melodrama e o romance histórico (Era Uma Vez em Nova York) e agora a utilização essencial do cinema épico e de sua grandiosidade.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Dessa forma, Gray não pretende modernizar essa forma de cinema através de seus procedimentos técnicos e estéticos, pelo contrário, o cineasta filma da forma que David Lean, ou Michael Powell e Emeric Pressburger, ou King Vidor filmavam seus épicos. Há um cuidado enorme com a composição do quadro, com os acertados movimentos de câmera, com maravilhamento do cenário – principalmente nas tomadas externas, na grandiosidade do plano e na forte representação da natureza. James Gray utiliza-se um padrão visual muito forte, uma estética que remete a outro tempo e por seu deslocamento histórico surge ainda mais bela, sem que isso seja apenas um embrulho de uma caixa vazia. Se em sua aparência Z: A Cidade Perdida retoma uma tradição de um outro tempo, em sua abordagem temática e no aprofundamento de seus personagens o longa segue com uma cabeça extremamente contemporânea, sagaz e inteligente.

O longa conta a história de Percy Fawcett (Charlie Hunnam), um sargento do exército britânico, levado no início do século XX para uma expedição até a Amazônia, entre o Brasil e a Bolívia, com finalidades topográficas e principalmente geopolítica, a fim de manter as fronteiras daqueles países. Lá, acompanhado de seu escudeiro, Henry Costin (Robert Pattinson), Fawcett fica fascinado pelos indícios de uma possível civilização no meio da floresta, algo próximo às antigas lendas de Eldorado e afins, todavia o interesse do protagonista é pela matéria humana e arqueológica presente ali e não pela possível riqueza daquela cidade.

Se existe o típico exotismo presente num filme épico sobre as florestas tropicais, há também uma desconstrução constante desse olhar, como se Gray reconstituísse uma visão da época e aos poucos fosse mostrando um valor humano totalmente diferenciado naquele mundo ainda não mapeado. Essa é a grande jornada do protagonista, revelar um mundo tão civilizado quanto o seu, mostrar uma floresta tão maravilhosa quanto às metrópoles modernas. Z: A Cidade Perdida é muito menos sobre essa exploração em si, mas como Fawcett encara isso como seu destino, como seu objetivo, como sua predestinação.

Os filmes de Gray sempre colocam em sua frontalidade seres com essa predestinação, que lutam para que isso se concretize ou que tentam fugir de seu destino. Como o filho de policial de Os Donos da Noite que se vê obrigado a seguir os passos do pai, ou como o protagonista de Amantes fadado à desilusão amorosa e aceitação de uma vida comum. Um fator extremamente presente na filmografia de Gray, aqui surge como essa obsessão por encontrar algo que desmistifique todo o curso de uma história, como se cada passo do protagonista o levasse de volta àquele local. Fawcett, como dito nos primeiros minutos do longa, não é um homem com origens e apenas descobrindo uma lenda como Z poderia escrever seu nome na história. Fawcett é ao mesmo tempo obcecado por encontrar o impossível, da mesma forma que estaria fadado ao esquecimento e o infortúnio. A glória e o sacrifício caminham lado a lado, longe de uma Inglaterra em que seu destino não tem origens. É esse pensamento que torna aquela Amazônia tão fascinante e tão assustadora, tornando-se, na mesma medida, inferno e paraíso. É esse pensamento que transforma o protagonista num ser tão profundo.

A consciência temática de Z: A Cidade Perdida é tão grande que isso concebe mais duas articulações impecáveis do cinema: o roteiro e a atuação. É prazeroso como o filme vai tecendo a trajetória de Fawcett, não fazendo dali uma jornada única, do inferno a glória ou vice-versa, mas sim a jornada de um homem que está sempre voltando para esse seu destino final. Assim, o longa desprende-se de narrativas pré-concebidas como se deixasse aquela história seguir seu ritmo natural, como se a cada idas e vindas fossem encontradas novos conflitos e novas resoluções, como o impacto da primeira viagem, a falsa glória da segunda jornada, a desilusão com a guerra humana frente à maravilha da natureza no seu terceiro retorno para casa e a última viagem partilhando seu destino, sua glória e predestinação com seu filho – num dos mais belos momentos do cinema nesse ano.

Nessa jornada, de mais de duas horas com esse protagonista, o longa vai construindo muito bem seu personagem. Charlie Hunnam vai demonstrando cada vez mais sua simbiose com aquele ser, o ator reproduz em seus olhares, em seus gestos e principalmente no vigor como dá suas falas essaa obsessão de Fawcett por aquele paraíso perdido. É responsabilidade de Hunnam que essa predestinação tão necessária para o protagonista seja tão sentida pelo espectador, por um público que partilha das ambições daquele ser, daquele ator e porque não daquele filme.

É na sua concepção total de cinema que James Gray compreende perfeitamente uma de suas características mais essenciais, a relação entre luz e sombra, algo presente antes mesmo do cinema ser cinema nos antigos teatros de sombra. Fato é que em todo filme de James Gray há uma consciência na utilização da luz, algo que vai além do trabalho do diretor de fotografia (no caso Darius Khondji), mas que banha a obra como um todo, enriquecendo-a. Aqui, em Londres as poucas fontes de luzes fazem com que Fawcett viva num mundo endurecido, embrutecido – como a vida numa sociedade moderna, a pouca luz, as constantes sombras mais uma vez dizem que o herói não tem um lugar a sentar-se à mesa. Mesmo nas cenas externas, o sol é acompanhado de um crepúsculo melancólico, que clama pela busca de um destino outro. É na floresta amazônica que essa luz torna-se grandiosa, que essa fonte demonstra-se gigantesca, iluminando cada ato do personagem, como se tudo feito ali fosse banhado por uma exuberância natural, como se tudo fosse fadado à glória.

Mais do que uma compreensão histórica, mais do que a elaboração narrativa, ou a composição do plano, James Gray compreende que a essência de cada filme deve estar impressa em cada mínimo detalhe. A visão ampla de Gray emprega em cada escolha de Z: A Cidade Perdida os mais profundos sentimentos de seu protagonista. Do trabalho de atuação até a iluminação natural do sol, tudo converge para um cinema grandioso, não só em tamanho, pretensão ou duração, mas sim em sua concepção.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio