Crítica | A Múmia

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A nova fórmula de sucesso em Hollywood é muito mais do que criar uma franquia, a palavra da moda na indústria americana é o chamado universo expandido, algo bastante aliado aos filmes de super-herói, mas que outros gêneros e narrativas tentam encontrar o seu. A Múmia marca essa pretensão, sendo a pedra fundamental do chamado Dark Universe, um mundo que conectaria as reinvenções dos clássicos monstros da Universal que marcaram o cinema de terror nos anos 1930 – como o Drácula com Bela Lugosi, ou o Frankenstein com Boris Karloff.

Por algum motivo obscuro, A Múmia foi escolhido para abrir essa nova narrativa, com já previsão de alguns outros filmes e outros atores confirmados para ampliarem fatores que estão nesse longa inaugural. Talvez pelo fato da última versão sobre o monstro egípcio ter tido algum apelo popular há poucos anos atrás, essa foi a escolha de abertura. Assim, este A Múmia tenta reimaginar uma narrativa ainda fresca na memória de alguns espectadores, fazer uma espécie de homenagens àqueles clássicos percursores do cinema de terror americano e fundamentalmente estabelecer bases para uma nova franquia.

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Nesse último objetivo, e aparentemente o maior deles, A Múmia tem um pensamento bastante claro: agradar um grande público e ter sua fidelidade é tentar encontrar um caminho que possa oferecer diversão a todos os públicos, mesmo que isso surja de maneira nada espontânea, numa espécie de check list. Em linhas gerais, A Múmia assume que a generalização é o caminho para uma aceitação popular, como se colasse uma série de fatores que deram certo em outros filmes e outras franquias.

A história basicamente é fácil de imaginar, um agente de reconhecimento junto com uma exploradora descobrem um túmulo egípcio em meio ao Iraque, lá está o corpo de uma antiga princesa renegada por assassinar seu pai e irmão, para, num ritual, dar corpo ao deus da morte. Muitos anos depois, a múmia quer cumprir seu ritual e os dois heróis e a vilã estão em Londres para que isso seja ou não realizado. O filme tem ação, aventura, comédia e terror, mas tudo isso surge de maneira truncada e bastante forçada.

Pode-se dizer que os momentos mais interessantes do longa ocorrem justamente quando surge em A Múmia alguma espontaneidade, alguma propriedade única. Esse fator é um tom trash que o longa possui em alguns momentos, deixando um terror escancarado, que não necessariamente amedronta, mas diverte, numa espécie de humor involuntariamente calculado. Humanos sendo transformados em mortos-vivos pela múmia, membros sendo despedaçados, animais asquerosos em ataque. Um tom completamente exagerado que lembra os filmes B americanos e os horrores jocosos da Inglaterra dos anos 1960. Algo que destoa dos blockbusters e do restante de A Múmia.

Se essa diversão quase que involuntária é espontânea e única dentro do longa, há uma tentativa desesperada de fazer o humor sempre presente no filme. Como se a todo o momento fosse necessário tirar alguma risadinha de sua plateia. Assim, A Múmia obriga Tom Cruise a soltar várias tiradas cômicas ao longo da projeção, dessa forma fica ainda mais perceptível a incapacidade do astro nesse quesito. Parece que Cruise começou a gostar dessa persona de herói imbatível com um quê cômico, no entanto há pouca eficácia do ator nessa condição, completamente sem timing, como se aquilo soasse completamente forçado. A figura de Tom Cruise não combina com esse joguete cômico (algo tentado desde o quarto Missão Impossível), mas principalmente o personagem não oferece essas possibilidades.

Muito disso se deve ao fraco desenho dos personagens oferecidos pelo roteiro de A Múmia. Apenas parece que os protagonistas são jogados nesse mundo de maldições, como se isso fosse uma simples obra do acaso, sem entender qual a real motivação daqueles seres naquele universo, ou o que os conecta verdadeiramente. O filme sofre com o fato de ser o início de uma franquia pelo fato de, a todo o momento, ter que oferecer uma série de informações que no futuro poderá ser interessante.

É o caso de toda a explicação acerca da organização criada por Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe), um dos personagens mais interessantes do longa. Todavia, justamente por este ser o homem a conectar o Dark Universe, A Múmia tem a necessidade de falar o tempo todo sobre ele, de oferecer diversas explicações, sem que isso fosse necessário, podendo deixar com que a trama fosse aos poucos apresentando essa figura que estará em outros títulos. A Múmia constantemente fala sobre um mundo em que o mal convive sempre com o bem, e as sombras esperam uma brecha para aparecerem, e é Dr. Jekyll que possui essas características. Se há um personagem que traduz as ideias do longa é exatamente ele e por isso é mais interessante que os próprios protagonistas.

Assim, em sua reinvenção A Múmia parece sempre dispersa, preocupada com futuros filmes sem que este longa pareça completo. Se o deslocamento da ambientação do Egito para Londres, algo minimamente diferente, o longa acaba enquadrando-se num simples esquema das grandes produções, há a necessidade de haver uma ameaça grandiosa que pode destruir uma grande metrópole, resultando numa batalha final épica que utiliza ao máximo a computação gráfica.

Muito disso pode ser associado à figura do diretor Alex Kurtzman (apenas em seu segundo longa) conhecido pelo seu trabalho como produtor de blockbuster, entre eles a nova série cinematográfica de Star Trek, Truque de Mestre e O Espetacular Homem-Aranha 2. Talvez observando por muito tempo essas fórmulas de sucesso, Kurtzman tentou colocar todos elementos em seu longa, resultando numa colagem de generalizações. Seria fácil dizer que A Múmia parece muito mais um Frankenstein do que qualquer outro monstro, mas a piadinha seria batida. Fato é que o diretor se contenta com a câmera na mão frenética seguindo a linha dos atuais filmes de ação, uma atmosfera sombria com uma escuridão em cena nada criativa como nos mais genéricos longas de terror e o uso excessivo do CGI prática dos menos inventivos blockbusters.

A Múmia é um filme fadado a mesmice, que compreende a chave para a cooptação de um público como uma simples colagem daquilo que já deu certo em outras obras. O início de um universo compartilhado não é algo fácil, ainda mais quando se baseia num sucesso bem antigo. Todavia, antes de uma franquia deve haver um filme, e nesse sentido A Múmia tem defeitos inquestionáveis.

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