Crítica | Animal Político

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Inusitado é a palavra que pode muito bem ser associada ao filme Animal Político. Uma vaca com crise existencial é o que resume o primeiro longa-metragem de Tião, responsáveis pelos interessantes curtas Muro (2008) e Sem Coração (2014). Ali nas ruas de uma típica metrópole brasileira a vaca tem uma vida de classe média, abastada na medida certa, mas que acaba se dando conta que nada daquilo significa muita coisa.

É nessa conjuntura que se configura esse caráter inusitado de Animal Político. A antropomorfização completa daquele quadrúpede que habita o meio urbano, que possui uma família humana, que possui um trabalho, que possui quase todos os bens materiais que deseja, e assim por diante. O animal é evidentemente alegoria de todos os homens políticos, animais por essência, políticos por sociologia.

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Não é inusitado o material alegórico, prática que marca os momentos mais interessantes do cinema nacional, Glauber, por exemplo, é um dos autores que mais se utilizava de tal ferramenta. O que se torna surpreendente é o deslocamento desse protagonista, em primeiro lugar realizado numa chave extremamente cômica. Uma vaca vivendo como um humano gera desconforto, gera graça, coloca até a dúvida se os atos de uma sociedade não são tão pífios que sem um fator humano são completamente ridículos. A vaca faz yoga, fica presa num vagão de metrô e faz compras, qual o sentido de tudo isso? Os primeiros minutos de Animal Político são de questionamentos, surpresas e humor, algo agradável sem ser bestial, todavia essa relação obra e audiência dura poucos minutos.

Logo a condição da vaca não gera mais surpresa, o espectador se acostuma com aquela conjuntura ficcional. Talvez Tião ainda produza num formato mais próximo de curta-metragem, onde uma boa ideia pode segurar uma narrativa por alguns minutos. O longa então entra numa segunda fase, há a jornada da vaca por um deserto nordestino, acompanhado pelo incessante pensamento da protagonista. Ali são feitas observações a cerca do mundo, da existência e do vazio moderno, todavia as considerações feitas por aquela narração são bastante evidentes, não conseguindo romper em momento algum os limites do senso comum. As lamúrias da vida contemporânea nunca ganham um aspecto diferenciado daquilo que é ouvido constantemente na televisão, internet, ou em livros poucos profundos. Qual o sentido da vida, uma vez que esta gira em torno do consumo, das normas e das convenções sociais? Animal Político não consegue ir além dessa simples pergunta.

É nesse segundo momento que Animal Político assume um tom no mínimo perigoso. Se os primeiros minutos do longa possuíam uma ironia inteligente, depois do esgotamento de sua premissa há um tom jocoso em relação a sua própria plateia. Como se realizador e obra assumissem estar num lugar mais alto que seu espectador, como se houvesse uma ridicularização para com quem vive um processo parecido como o da vaca. Animal Político constitui uma crítica com o queixo em pé, olhando de cima para baixo, como se não fosse sujado pelos temas que o filme toca. Não é como se a obra adentrasse no mundo que aborda, deixasse que os problemas sociais afetassem o próprio filme, para assim construir sua problemática. Há um tom de constante julgamento, há uma ridicularização com o próprio objeto de Animal Político.

Dessa forma, são evocadas ao longo da narrativa, imagens que dizem muito pouco, que são bastante óbvias e que parecem apenas oferecer um senso de ridículo ao longa. A família tipicamente de classe média que vai visitar a vaca iluminada – com uma filha que não para de reclamar, o pai que só quer assistir televisão e a esposa que só cumpre os afazeres domésticos; ou o estilo da vaca após chegar à iluminação, tornando-se alguém fantasiado por uma proposital fantasia mal feita; ou também a grande chave da existência representada aqui pelo livro da Associação Brasileira de Normas e Regras, sim, todos os livros que oferecem pretensas respostas sobre a vida são códigos morais por excelência. Esse misto de obviedade com um pensamento pretensioso e jocoso faz com que Animal Político seja um filme sem força para sustentar seus 86 minutos.

Esse cansaço fica evidente no meio do longa, quando a trajetória da vaca é interrompida para construir um pequeno segmento sobre “a pequena caucasiana”, mais uma vez a estrutura de curta-metragem surge com força. Ali uma estrangeira, completamente nua, faz uma série de alegorias sobre a presença externa em terras tupiniquins. Filmado em película, esse momento do longa tem um aspecto totalmente diferente do extremamente visual digital da história da vaca, mas as analogias são parecidas, as reflexões são no mínimo irmãs. Talvez mais curta a trajetória da vaca funcionaria, talvez separada a alegoria da mulher caucasiana seria interessante, todavia no conjunto da obra Animal Político não tem um corpo substancioso, potente e forte para desenvolver plenamente suas ideias interessantes.

Se as três obras de Tião são extremamente diferentes entre si, o formalismo radical de o Muro, a investigação sensorial em Sem Coração, aqui ele ruma a um caminho bem surpreendente, mas que em seu primeiro longa-metragem parece não ter alcançado a excelência. Animal Político pode ter boas ideias, assim como uma premissa interessante, mas isso não é bastante para um longa-metragem.

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