Uma animação realizada num lugar distante dos grandes centros desse tipo de cinema já nasce com sérios e difíceis desafios a serem superados. O maior deles sem dúvida é a impossível adequação técnica com aqueles grandes blockbusters animados, diante disso resta a esses filmes menores (orçamentariamente falando) criatividade para superar esse abismo.

O longa-metragem animado Bruxarias insere-se nessa lógica, um filme dirigido por uma brasileira, na Espanha, visivelmente sem os grandes investimentos das animações americanas. Com isso, o longa deve romper esses paradigmas para atingir seu público, duas possibilidades para isso é o modo como o filme lida com sua própria precariedade e outro é um alto investimento em seu texto, abordagens inventivas do roteiro. Essas são duas maneiras de superar o quase inalcançável padrões das animações americanas.

No primeiro aspecto o filme de Virginia Curiá se sai muito bem. Em nenhum momento Bruxarias tenta se equiparar aos níveis técnicos daquelas famosas animações. Dessa forma, assumindo sua simplicidade, o longa toma contornos únicos, não gerando pretensas comparações. O mundo de Bruxarias é extremamente próprio e muito disso se deve a esse visual muito bem construído, muito bem pensado, onde uma possível precariedade técnica torna-se matéria para a inventividade.


O longa faz com que seu personagens tenham uma característica bem singular, seus rostos achatados e corpos que parecem blocos de montar não buscam algum realismo, nem mesmo uma caricatura fofa do mundo real. As figuras de Bruxarias parecem bonecos, irreais, mas totalmente afeitos ao público, como se estivessem prontos para uma brincadeira, para uma aventura. Esse é realmente o tom do longa animado, uma aventura com ritmo de brincadeira infantil, despretensiosa e bastante inocente.

Bruxarias narra a história de Malva, uma garota de dez anos que vive com a avó vendendo remédios naturais, uma vez ela descobre que as antigas receitas de sua família podiam contar muitos outros segredos, revelando diversos poderes mágicos. As habilidades daquela senhora chamam a atenção de uma grande empresa de cosméticos, que planeja raptar a avó da garota e descobrir todos aqueles segredos. Malva então terá que salvar sua avó, enquanto descobre as mais diversas magias de sua família.

O filme assume, dessa maneira, um objetivo de possuir uma moral da história. Bruxarias deseja tocar temas como o diálogo entre gerações, o embate entre tecnologia e natureza e até um assunto bastante importante e complexo, a apropriação de produtos naturais pelas grandes empresas, a chamada biopirataria. Fica claro que essa mensagem é destinada a um público infantil, e se essa moral da história é importante e bastante educativa, muitas vezes não surge no filme de forma sólida, ou fluída. Ainda que bastante consciente, às vezes é como se em muitos momentos Bruxarias possuísse um parênteses para explicar esses temas.

Talvez o longa peque realmente por esse texto fílmico, em que a aventura de Malva nunca chega a surpreender ou diferenciar-se das narrativas vistas inúmeras vezes em desenhos animados televisivos. Nesse aspecto, de fato Bruxarias lembra um programa de televisão, onde as resoluções surgem de forma fácil, sem muita preocupação com grandes elaborações narrativas. Se Bruxarias é simplista, o filme não deixa de ser envolvente, principalmente para aquele público cujo suas mensagens principais são direcionadas.

Outro ponto do roteiro do filme é o seu humor, diferentemente de suas morais e de suas mensagens, Bruxarias aposta numa comédia bem rasteira, que supera o simples pastelão e que teoricamente tirariam risos fáceis dos seus espectadores, principalmente os menores. Não é difícil ver o longa fazer piada com características que chegam até a ser bobas, como uma constante alusão aos naturais gases humanos, ou outros aspectos nojentos. Por este lado, nota-se certa subestimação do público por parte de Bruxarias, como se esse ponto fosse conquistar as crianças sem algum esforço.

Bruxarias pode ter alguns pontos frágeis, principalmente em seu roteiro, mas ainda assim é consciente daquela velha, típica e bem-vinda mensagem por trás de um filme visivelmente infantil (e isto de forma alguma é pejorativo). O longa dirigido pela brasileira ganha muitos pontos por conseguir, assumindo seus limites técnicos, construir uma narrativa singular, com um visual único, sem tentar de modo algum equiparar-se às grandes animações americanas.

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