Crítica | Colossal

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Após o boom do cinema independente americano nos anos 1980, 1990 e 2000, houve uma fato curioso, um achatamento entre esse cinema considerado indie e as obras com claro apelo comercial, de forma que o segundo absorveu o primeiro, colocando-o numa espécie de padrão, de fórmula. Ainda com menos dinheiro, é verdade, os filmes indie tornaram-se uma espécie de gênero, um tipo de fazer cinema que segue certas convenções para atender um segmento de mercado, o cinema independente americano tornou-se um case de mercado.

Como tudo que contém fórmulas, esse tipo de filme vem demonstrando certa previsibilidade, e um ou outro consegue sobressair nesse modelo. A câmera trepidante, o despojamento estético, as personagens comuns, a comédia dramática e a pincelada sociopolítica parecem apenas uma série de convenções, e não uma expressão única buscada por aqueles filmes. Compreender essa situação do cinema independente é necessário para uma renovação urgente, que possa mais uma vez subverter aquilo que já foi assimilado pela indústria cinematográfica. Colossal encontra-se justamente nesse lugar, de construir a sua narrativa em cima desses preceitos que cercam o dito cinema independente americano. Um longa realizado nos mesmos padrões de produção desses longas que se utiliza de suas características para se desgrudar dessa cena indie que se demonstra bastante amortizada.

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O filme utiliza todos os clichês que poderiam perpassar um filme como esse. Colossal começa com Gloria (Anne Hathaway) sendo mandada embora de sua casa pelo namorado após mais uma noite de bebedeira. Desempregada e com sérios problemas de alcoolismo, a protagonista deve voltar a sua cidade natal no interior, para a típica jornada de autoconhecimento. Lá ela reencontra um conhecido de infância, Oscar (Jason Sudeikis), que lhe oferece um trabalho em seu bar. Gloria parece ter encontrado seu lugar, ajudando a reconstruir um local que frequentava na sua infância, da mesma maneira que reestrutura sua vida. A única questão é que o alcoolismo não para.

Colossal é inteligente ao demandar muito tempo para construir esse primeiro momento do filme, como se deixasse uma base sólida, fundamentada nos conceitos dos indies, para, tempo depois, ir desconstruindo o mundo que o espectador acabara de acreditar. Aquilo que parecia ser um típico filme independente seguindo todos os padrões possíveis, acaba entrando numa onda de estranhamento, irônica, engraçada e um tanto quanto surpreendente. Após uma ressaca, Glória descobre que um monstro gigante invadiu Seul, o problema é que a criatura tem uma ligação mental com a personagem e toda vez que ela está num parquinho da cidade aquele monstro surge do outro lado do mundo.

Com essa característica Glória fica na mão principalmente de Oscar, que acha um jeito de se aproveitar da moça, principalmente quando ele descobre ter uma conexão com outro monstro, dessa vez um robô gigante. Colossal funciona muito bem nessa quebra de expectativa, colocando um elemento extraordinário com muito força dentro daquele universo comum. Como no realismo fantástico, gênero muito associado a literatura com alguns exemplos cinematográficos, esse elemento externo, fantasioso surge para resolver problemas cotidianos. É extremamente poderosa a descoberta, numa jornada de autoconhecimento, que um monstro reside dentro da personagem, um figura que pode causar medo e destruição, mas também pode se tornar um herói. É justamente essa a grande curva do filme, essa força interior, amedrontadora, que pode ser a chave para o seu grande feito.

Mesmo que essa alteração no íntimo da protagonista ocorra, esse realismo fantástico presente em Colossal funciona muito numa chave cômica, algo extremamente interessante para o filme. Isso ocorre, pois a direção do espanhol Nacho Vigalondo mantém o despojamento típico de filme indie até mesmo com o surgimento desse monstro. Quando a criatura surge não há uma busca por grandes sequências realistas, pelo contrário, o filme segue na simplicidade, mostrando raramente o monstro como um todo, muitas vezes apenas através de vídeos na internet ou televisão, utilizando a baixa definição para esconder detalhes daquela figura, causando sempre um estranhamento cômico. E mesmo quando ele de fato aparece em sua totalidade, o realizador faz questão de mostrar que o CGI não é perfeito, evidenciando essa precariedade numa chave do distanciamento, para que a audiência não acredite cegamente naquilo que vê, gerando mais uma vez o humor.

Evidentemente que esse estranhamento causado pelo monstro não dura o filme todo, e essa é característica mais interessante de Colossal. De resto, o longa tem uma dificuldade enorme de passar de seu humor para uma seriedade ao discutir pontos importantes de sua narrativa. Até mesmo essa metáfora bastante clara entre o monstro e a protagonista torna-se um tanto quanto rasteira, sendo um filme que tem dificuldade de alcançar a humanidade de seus personagens, e isso deveria ocorrer independente de sua chave cômica. Colossal é um filme que convive com certa superficialidade.

Nesse sentido, o longa de Vigalondo não consegue romper com uma das mais irritantes características dessa cinema indie, que é, justamente, a tentativa de abordar temas complexos de forma simplista, rasa, parecendo um mero fator para validar a relevância da obra. Em Colossal isso surge num discurso brevemente alinhado com as causas feminina. Todavia, isso parece uma mera firula temática para conceder alguma importância ao filme, não se valendo por suas únicas propostas. A protagonista, a todo momento, é cercada por homens que tentam controlá-la, desde Oscar até seu ex-namorado, mas isso nunca é suficiente para mexer de fato com o universo da personagem, nunca se escancara a relação abusiva entre os homens e aquela mulher. Como se esse fosse um tema apenas presente, que chama a atenção (e talvez esse seja o único motivo para estar ali), mas nunca faz parte do corpo essencial do longa.

Colossal, dessa maneira, é um filme com uma certa ambiguidade na sua relação com o cinema independente da qual faz parte. Por um lado propondo rupturas, que jogam com as fórmula dos indies, surpreendendo um espectador despreparado. Por outro utilizando-se os mesmos e velhos artifícios para cooptar e conceder importância a sua obra. O longa, então, freia sua veia questionadora, realizando um filme inquestionavelmente surpreendente, curioso e interessante, mas que segue nos padrões do cinema indie americano.

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