Crítica | O Círculo

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O Círculo enquadra-se na urgência de fazer a tecnologia como tema central de narrativas com forte apelo popular. Não é para menos, há de fato a necessidade de explorar o assunto que tanto permeia a vida contemporânea. Assim, esse tipo de produção faz com que seu estilo visual também seja afetado por essa presença tecnológica, evidenciando um mundo afetado por inteiro pela tecnologia.

De fato, a série Black Mirror é o melhor exemplar do descrito acima, relacionando sua narrativa ficcional com problemáticas do mundo atual e suas diversas tecnologias. A cada reviravolta no roteiro daqueles episódios fazem com que o espectador tenha uma reflexão sobre seu mundo, seus desejos e suas ferramentas. A função de séries como essa está justamente na assimilação de sua mensagem, da compreensão de sua crítica, e por ser um produto televisivo isso funciona ainda melhor, ganhando certo contorno de produto inteligente. O tema, sua crítica e a sua compreensão fazem com que essas obras pareçam acima da média.

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O Círculo mesmo estando no cinema encarna os mesmos processos, evidenciando a importância de seu tema, mais do que sua construção narrativa, mais do que sua exploração visual. O filme baseado no livro de Dave Eggers narra a história de uma garota que passa a trabalhar numa grande empresa de tecnologia. Lá, ela descobre tudo que cerca os novos inventos do ramo, algo que vai além de inovações, mas podem esconder grandes e perigosas motivações. Entre o deslumbre e a preocupação, a garota vai descobrindo os grandes perigos desse mundo tecnológico.

O Círculo é um filme que necessita, dessa maneira, conectar-se a todo o instante com a realidade, para assim valer sua crítica/mensagem. A empresa do longa é uma espécie de mistura entre Google, Facebook e Apple, um lugar que possui sua rede social, faz uma série de invenções que aliam tecnologia e sociedade e assim por diante. O Círculo tem como objetivo evidenciar os aparatos de controles dessas instituições de tecnologia, ou como deixar todos conectados também é uma maneira de vigiá-los. O filme explica tudo isso através das demonstrações das novas tecnologias, tudo colocado como uma grande palestra dada pelo presidente da empresa, a verborragia em forma de simulação daquelas famosas apresentações de Steve Jobs.

O longa encontra algumas formas para traduzir em ações práticas o que são essas tecnologias e as formas que enquadram o mundo. Talvez, esse seja o grande ponto alto do filme, conseguindo traduzir sua temática em algo concreto. O roteiro de Dave Eggers e James Ponsoldt faz com que a empresa e o seu lugar de trabalho sejam uma síntese da sociedade em redes, um espaço que deve estar 24 horas por dia ligado, onde todos necessitam estar ativos, felizes e entusiasmados, em que todos devem estar engajados mesmo que isso canse fisicamente e emocionalmente, e o mais importante, estar fora do círculo é sinônimo de invisibilidade. As estruturas baseadas em códigos tornam-se palpáveis na mais interessante metáfora de O Círculo.

Dessa maneira, o filme vai inserindo sua protagonista, Mae (Emma Watson) nas mais profundas articulações desse mundo. Enquanto mais a personagem descobre os perigosos caminhos daquela empresa, ela vai recebendo mais prestígio e mais importância naquele mundo – fazendo até mesmo uma espécie de reality show conectada por 24 horas com as novas câmeras da empresa. O Círculo infelizmente parece compactuar com a dúvida de sua protagonista, como se não soubesse até que ponto pode criticar os arranjos sociais que aborda. Se as questões abordadas pelo filme são complexas, a falta de um posicionamento chega a ser um tanto quanto problemática. A exaltação e a visão da tecnologia como saída para as demandas da sociedade são afetadas por situações que questionam esse pensamento, assim como a crítica é prejudicada por uma inocência frente ao tema. Se realmente não existe certo ou errado nessa lógica, essa não é a conclusão do filme, O Círculo não consegue compreender os dois lados da moeda e apenas surge como uma indecisão.

Esse não posicionamento faz com que todas as personagens principais do longa possuem certa indefinição, não no bom sentido de deixa-los sempre de forma dúbia, mas de nunca ficar claro as reais motivações destes. Essa relação prejudica e muito a atuação do famoso elenco do filme, Emma Watson é a que mais sofre com isso, não aparentando o incômodo ou deleite com aquele mundo, parecendo um simples corpo em movimento sem demonstrar alterações íntimas em seu comportamento. Tom Hanks idem, não ficando claro se o longa enxerga-o como gênio, ou como um grande oportunista. E ainda pior na figura representada por John Boyega, um antigo fundador da empresa, aparentemente ambíguo e consciente do processo tecnológico, mas que surge no filme apenas para explicitar em diálogos essas situações.

Essa indecisão toma conta de todo o filme, principalmente do diretor Ponsoldt e sua concepção visual, possuindo uma direção que se resume a ilustrar essa narrativa e mostrar a afetação dos meios digitais nesse longa. Assim, O Círculo é um filme cheio de planos com drones, com câmeras que imitam conversas em vídeos e layouts que adornam as imagens do filme para ter uma cara de internet. Essa representação da tecnologia faz apenas uma simples cópia daquilo que é visto nos mais diversos computadores, mas de fato dizem muito pouco sobre o mundo que o longa aborda.

O Círculo é um filme para compreender que nem sempre o tema pode ser o centro de uma obra. Mesmo que seja importante colocar uma mensagem atual em uma obra audiovisual, é necessário que isso seja bem planejado, extremamente conceitualizado, para que isso atinja a audiência. A simples conexão com o mundo real não é suficiente para falar sobre a realidade.

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