Crítica | A Luta de Steve

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Poderíamos começar esta crítica de A Luta de Steve levantando questões éticas e morais sobre uma abertura tão absurda da intimidade e da pessoalidade da vida daquelas pessoas que ali são enquadradas pelo filme. Isto torna esta avaliação do documentário uma tarefa mais árdua, obviamente, e não será nem sobre ela que este texto tomará qualquer conclusão. Mas é chocante como momentos tão íntimos são expostos e revelados na tela de cinema.

Contudo, uma questão talvez proveniente justamente deste contexto de intimidade “violada” – destaque às aspas, uma vez que, é nítido, o filme foi feito com a autorização de Gleason e sua família – seja exatamente se ele não pretende ser ultra apelativo para que, com isso, se torne mais emocionante ou até mesmo comercial – hipótese esta última, a de se tornar mais comercial, que, provavelmente, será mais difícil de ser defendida ao final do longa. Mas, antes, é necessário explicar do que se trata este documentário: Steve Gleason, ex-jogador de futebol americano da NFL (New Orleans Saints foi o time pelo qual jogou por 9 anos), se tornou herói de Nova Orleans após fazer uma jogada icônica no primeiro jogo do time após a cidade ser devastada pelo furacão Katrina – este que deixou muitos sem casa e higiene pessoal – a qual originou o primeiro touchdown da partida. Meses após a aposentadoria, descobriu que tinha Esclerose Lateral Amiotrófica – doença esta na qual se vai perdendo, aos poucos, a capacidade do cérebro de se comunicar com os músculos e, assim, perde-se por fim os movimentos do corpo. Stephen Hawking também foi diagnosticado com esta mesma esclerose.

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Semanas após o diagnóstico de Gleason, Michel Varisco, sua esposa, descobre que está esperando um bebê. O ex-jogador decide, após esta descoberta, fazer um vídeo diário como registro ao filho que nasceria pois, dentre outros motivos, temia que não pudesse compartilhar muito tempo de sua vida com a criança (a expectativa de vida para a ELA – sigla da doença – não é de muitos anos). O conteúdo desses vídeos, que acaba por ser também um diário do avanço dos efeitos da doença no corpo de Gleason e da forma como sua família reagiu e o auxiliou na luta contra a ELA, rendeu este filme de cerca de 2 horas, que é quase composto, em sua totalidade, pelas cenas destes vídeos caseiros gravados durante 3 anos. Logo, um ponto necessário a questão ética a qual comecei este texto tem de ser sucitada: quase todas as imagens foram gravadas pela família de Gleason.

É óbvio que os objetivos centrais do filme são, além de comover e enternecer o público pelo drama humano, com o certo tom romântico de uma história de superação e recomeço – além dos esforços da família em amor e piedade a Gleason, e deste ao filho que viria -, o de levantar a causa da luta contra a ELA e, por consequência, de todas as causas que se relacionem a doenças que possam prejudicar a qualidade de vida e cujo tratamento é inacessível a muitas pessoas. E talvez por isso seja difícil dizer que o filme tenha um puro filão comercial: está por trás dele uma propaganda à fundação “Team Gleason”, que visa auxiliar com ajudas emocionais e financeiras a pessoas diagnosticadas com a esclerose. O tom bem-intencionado do filme é muito mais verídico, nesse sentido, do que em “Lion” – no qual a campanha por auxílio a instituições de caridade acaba por ser menos presente do que a forçada campanha por indicações ao Oscar e uma impressão de propagando ao Google.

A Luta de Steve tem uma montagem que opta pela simplicidade, o que é muito útil ao documentário uma vez que as cenas das filmagens caseiras já carregam consigo a dramaticidade necessária para enternecer a plateia. O fato delas serem reais, com comprovação disto pelas imagens tipicamente amadoras, trazem tal realismo e honestidade que todo o drama é sentido com veemência e abalo.

Ele é um documentário que, contudo, se estrutura quase que como uma narrativa clássica de ficção. Há um protagonista e sua jornada centrada em torno de uma trama. Mais que isso, como mais de 80% das cenas foram gravadas para registrar o dia a dia da família reagindo às necessidade de ajuda a Gleason enquanto esperam a chegada de seu filho, parece que há uma encenação de cenas que, contudo, não são encenações – e isso é um tanto chocante.

Logo, foi suficiente e bem sucedido que a montagem tenha escolhido a simplicidade de orquestrar uma sobreposição dessas cenas, apenas dando o ritmo fluido e orgânico à sucessão delas, e não ter tentando amplificar o melodrama com recursos – como a trilha sonora, que neste caso opta pela simplicidade também – que visassem sobrecarregar o tom trágico romântico. Isto, aparentemente, tornaria A Luta de Steve forçado e destoante em seu sentimentalismo, caindo em uma direção patética e caricata.

E embora o documentário tenha mesmo este tom trágico romântico, e por vezes use de canções ao longo do filme que tornam alguns poucos momentos piegas e clichês até demais, não acho que tenha sido o caso de uma estética grotesca e cafona.

Porém, não me surpreenderia se alguém achasse, retomando a discussão pela qual esta crítica se inicia, A Luta de Steve apelativo. Afirmo isto pois as próprias situações que são colocadas no longa – e, mais que isso, o fato delas serem reais e estarmos observado as reais e, ainda assim, impressionantes reações daqueles indivíduos – já podem ser evidências de um apelo emocional: a espera de um filho contraposta a expectativa de vida que não ultrapassaria a 4 anos mais para o ex-jogador, a dificuldade em aceitar as consequências da ELA… e, não só sobre Gleason, mas o medo de seu pai em perder um filho, as discussões sobre fé em meio a um momento tão complexo e, creio eu que este seja o principal gesto impressionante, a determinação de Michel para cuidar do marido e do filho recém-nascido… Pode soar grosseiro que aqueles dramas pessoais todos fossem não só tornados públicos como espetacularizados. Desta discussão, contudo, não tomarei nenhuma conclusão.

O documentário contém lá seus problemas. A certa repetitividade ao tocar em questões como a paternidade e, talvez o mais problemático, por algumas tantas vezes ficar estagnado em um uso da linguagem cinematográfica que soe um pouco mecânico e sistemático – sem um olhar original ou artisticamente marcante acerca da sua estética. Contudo, ainda assim A Luta de Steve não cai em um cinema cafona e grotesco, é impressionante pelo realismo e, mais ainda, consegue superar uma camada superficial de debate acerca da ELA. Não significa que nele não conste uma boa camada de melodrama, mas acontece apenas que esta não soa grosseiramente.

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