É notável certa boa vontade da Pixar em relação a sua franquia Carros. Após o bom primeiro filme sobre o carro de corrida Relâmpago McQueen, a série teve spin offs do mesmo universo e até uma sequência que até hoje ninguém entendeu muito bem porque foi realizada. Fato é, que depois de onze anos, Carros volta com uma sequência digna, talvez para fechar com louros sua série.

Praticamente esquecendo-se de Carros 2, esse filme foca mais uma vez em McQueen mas dessa vez percebendo que o tempo chega até para o pop star das corridas. Carros 3 começa mostrando como foram os últimos anos de Relâmpago, queridos por todos, vencendo praticamente tudo, tendo uma legião de fãs e todo respaldo de seus patrocinadores. Um verdadeiro astro daquele mundo. O longa trata justamente da ruptura dessa zona confortável, após anos de hegemonia uma nova geração de carros surge e o espaço de Relâmpago está ameaçado.

Carros 3 deixa as megalomanias de lado para centrar sua história numa narrativa simples muito de acordo com os padrões dos dramas esportivos, tratando dessa percepção em relação aos efeitos do tempo para os atletas, onde o principal desafiante de McQueen é ele mesmo e sua idade. Mesmo assim, a jornada vista na tela é de McQueen tentando superar essas dificuldades e mostrar que ainda tem seu valor no mundo que conquistou.


Assim, é interessante reparar como o longa repete um padrão existente no primeiro título da série. Se naquele primeiro filme era McQueen o garoto sensação que não compreendia a situação de seus antecessores, agora o protagonista tem que lidar justamente com a situação oposta. Nessas circunstâncias as figuras de corredores como Rei e principalmente Doc Hudson voltam à tona, com o herói percebendo agora estar na posição destes, que agora são consideradas lendas esportivas. Dessa forma, a trajetória de McQueen é justamente de tentar escrever uma diferente daquele fim melancólico de seu companheiro mais velho, que hoje já nem mais está ao lado daqueles carros.

Se a jornada do herói é um termo recorrente em críticas e análises cinematográficas, pode-se dizer que Carros 3 é uma espécie de jornada do mentor, e a trajetória de Relâmpago é justamente essa, a compreensão de ter que deixar seu lado vencedor para agora tornar-se um guia para alguém mais novo e com sonhos como os seus. Isso faz com que o longa subverta o típico clichê da vitória contra tudo e contra todos que marcam o gênero esportivo. Relâmpago McQueen em Carros 3 poderia ser uma espécie de Rocky em Rocky Balboa (2006), mas o que acontece é um reconhecimento de que agora ele pode ocupar uma outra posição naqueles autódromos.

Com isso, a animação abre espaço para uma interessante personagem, Cruz Ramirez, uma treinadora com táticas modernas que com o decorrer do filme vai se mostrando muito mais do que uma simples coadjuvante, cujo papel deveria ser o de auxiliar Relâmpago em seus objetivos. Cruz vai mostrando sua identificação com o protagonista, assim como o oposto também ocorre, aos poucos a personagem feminina vai ganhando protagonismo e o filme ganha com isso.

Além dessa importância narrativa Ramires é responsável por levar o filme a seus grandes momentos cômico, principalmente no sistema de treino que oferece à Relâmpago McQueen. Nesses momentos, o protagonista tenta praticar da mesma maneira que os novos praticantes, o personagem demonstra toda aversão e despreparo aos novos métodos, gerando boas gags, como a de McQueen no simulador de corrida. Com isso, Carros 3 alterna entre momentos genuinamente bons e outros que surgem como piadas forçadas, até mesmo as participações de Mater surgem como algo um pouco desmedido e destoante. Todavia, vale ressaltar o cuidadoso trabalho de dublagem e adaptação da versão brasileira, colocando comentaristas esportivos e narradores nas corridas do filme, as participações de Silvio Luiz geram bons momentos principalmente no público adulto. Tem até Rômulo Mendonça chamando Doc Hudson de “Macho Alfa”, repetindo seu famoso bordão das transmissões esportivas da ESPN.

Embora essa seja um artifício extra-filme, que coloca algo de fora da narrativa e de suas concepções para agradar o espectador, isso mostra um cuidado em relação ao público daqui. Por outro lado o mesmo cuidado não é sentido no tratamento da narrativa, há alguns momentos que deixam a desejar, principalmente em alguns pontos previsíveis em seu clímax. Carros 3 também demonstra subestimar sua própria audiência, quando emprega uma série de flashbacks mostrando cenas do próprio filme para explicar uma reação de algum personagem.

Se Carros 3 pode não ter o melhor roteiro, ou nem mesmo ser o filme mais divertido da Pixar, o longa pega justamente por seu lado afetivo. Essa jornada de McQueen e sua conexão ao passado conseguem ser mais do que uma tentativa de emocionar o espectador. O jovem corredor, que agora não é tão mais jovem assim, consegue conectar-se, tornar-se e aceitar-se como uma lenda daquele esporte, como um mentor, assim como Doc foi para ele. Carros 3 pega de fato pelo coração, realizando a sequência que deveria ter sido feita há muito tempo atrás.