Crítica | Death Note: Iluminando um Novo Mundo

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Atenção: este texto não se refere ao anunciado longa da Netflix, mas à continuação da trilogia japonesa de filmes adaptados da série. Iluminando um Novo Mundo terá sessão exclusiva na Rede Cinemark no dia 2 de Agosto, às 20h30.

“Digamos que os alunos discutissem se pessoas más merecem morrer. Pode apostar que todo mundo daria a resposta politicamente correta. ‘É errado matar pessoas’. É o que elas devem dizer. Claro que essa é a resposta correta a dar. Os humanos estão sempre tentando manter as aparências em público. Muitos têm medo de me apoiar porque se preocupam com o que os outros vão pensar. Mas na internet, onde você pode se manter no anonimato, o apoio a Kira está crescendo.” Esta frase certamente atinge um ponto muito repercutido em debates acerca dos acontecimentos sociais recentes. Contudo, foi escrita há 10 anos atrás, no anime inspirado no mangá homônimo: Death Note.

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A história original narrava a perseguição de Light (posteriormente chamado de Kira; logo, foi este que decretou a frase que inicia essa crítica), um estudante da classe média japonesa com ideias de um estado repressivo, policialesco e exterminador; perseguição essa feita pelo detetive L – um sujeito que defende os direitos de todos e não crê que a violência estatal, e muito menos o linchamento da “justiça com as próprias mãos”, é um meio eficiente e justo para combater a criminalidade. L persegue Light pois este recebeu um caderno provindo dos deuses da morte, no qual todo o nome lá escrito seria quase que instantaneamente morto. Logo após Light descobrir isto, pratica uma incrível série de assassinatos, uma chacina a nível mundial, contra pessoas que, para ele, deveriam morrer para que o mundo se “purificasse” – a maioria pessoas que já praticaram crimes.

Light e L se consideram a justiça. E nesse confronto de pontos de vista acerca da criminalidade e de políticas públicas de segurança que nunca deixaram de ser, e agora não seria nada diferente com os discursos de ódio cada vez mais expostos, algo cuja urgência do debate é irrefutável. O discurso do “bandido bom é bandido morto” foi amplamente estudado, e suas origens no Brasil de acordo com o cientista político Victor Martins Pimenta, em texto escrito para o site Justificando, vem de uma “construção social de base material, simbólica e cultural, profundamente arraigada no capitalismo excludente”. “…As contradições da atuação hegemônica da justiça criminal e das instituições penais como um todo são argumentos poderosos, sobretudo por escancararem como, na lógica da punição e repressão, a dor e a aflição se perpetuam em um ciclo sem fim que só nos afunda mais na barbárie”, completa.

É um modo de entender a questão de segurança social como uma divisão entre “cidadãos de bem” e “bandidos” que, como Pimenta afirma, desumaniza este segundo grupo (o que já levaria a uma análise equivocada das questões envolvendo a criminalidade). É um discurso que não entende as questões estruturais da violência – como a influência da desigualdade social nesta – e acaba por adotar um gosto higienista, de eliminação e exterminação que, para Pimenta, nos faz correr “o risco de construir nossa própria estrada rumo ao totalitarismo”. A proposta do cientista político é a de que, quanto às alternativas penais a um modelo repressivo e de encarceramento em massas – ou ainda de morte -, elas devem estar orientadas pelo paradigma restaurativo, ao invés do punitivo, privilegiando a autonomia, a responsabilização e a liberdade dos sujeitos criminalizados.

Fiz esta introdução ao tema, trazendo à luz as ideias de Victor Martins Pimenta – cuja tese é bem cúmplice a de Death Note – pois não há maneira melhor de se encarar, além da série original, este novo filme da trilogia cinematográfica japonesa baseada no mangá escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata. “A distância entre ricos e pobres está aumentando. Precisamos de políticas que matem os pobres caso comecem a praticar seus crimes”, diz uma mulher aliada à mídia, mídia esta que tanto fomenta o medo e a insegurança social a partir de programas policialescos – medo do qual decorre este discurso de extermínio, o que feriria direitos humanos -, sendo que o próprio Pimenta já alertava que o discurso em questão “é um instrumento poderoso de manutenção das desigualdades e reforço de exclusões sociais”.

Death Note: Iluminando um Novo Mundo se passa 10 anos após os eventos da saga original. Yugi Shion (Masaki Suda) tem o caderno, o death note, que outrora foi de Light (ou Kira). Ele pretende organizar uma seita em torno daqueles que seguiam Kira, para continuar com seu plano de purificação e higienização da Terra – discurso com quê nazista? – e acabar com todos os criminosos do planeta. Uma equipe de detetives liderada por Ryuzaki (Sosuke Ikematsu), contudo, vai atrás desse seguidor e de todos os envolvidos para acabar com o plano.

O filme talvez não seja perfeito. O roteiro pode ter seus pontos fracos, bem como a direção de Shinsuke Sato – que, aliás, não dirigiu os dois primeiros filmes da franquia. Contudo, ao final da sessão o filme não fica em uma dimensão frustrante. Aliás, pelo contrário: inclusive surpreende por saber conduzir, de forma geral, uma trama policial com suspense e empatia. Além do debate sobre segurança público, já deveras falado e o qual foi inteligentemente suscitado no longa dada a pertinência em relação a assuntos que borbulharam devido aos recentes debates políticos no mundo todo – e, apenas remarcando, estão historicamente presentes na sociedade -, o outro bom tópico que pode ser colocado é o fato do protagonista Ryuzaki, sobretudo ele, ser forte a ponto de embalar a torcida em torno de seu objetivo com intensidade suficiente para empolgar. É um daqueles heróis marrentos, irônicos, sagazes, desbocados e escorregadios. É alguém com sarcasmo, egocentrismo e excentricidade, como diversos heróis da cultura pop. Contudo, os personagens, de um forma geral, embalam bastante a trama de forma positiva.

O visual de Death Note: Iluminando um Mundo Novo sabe usar dos planos para embalar a atmosfera do longa. Para gerar um ritmo frenético de ação, cortes rápidos e diálogos cortantes. Para criar o suspense gótico, a iluminação cheia de contrastes entre claro e escuro, com sombras fortes e duras sob rostos enigmáticos e macabros. E para entoar um quê sensacionalista sinistro e noir, os pontos de vista exagerados da câmera – contra-plongées e coisas assim – e a trilha sonora retumbante. Sato mostra que sabe colocar a linguagem cinematográfica em um nível além da inexpressividade, conseguindo narrar a história de Death Note: Iluminando um Mundo Novo com identidade e algum capricho.

Contudo, deve-se ressaltar que Death Note: Iluminando um Mundo Novo, consegue evitar um lugar de inexpressividade e ineficácia sem colocá-lo em um patamar digno de Psicose ou O Silêncio dos Inocentes – usando como referência o cinema de Hollywood, do qual este Death Note certamente se inspira – ou dos melhores de Takashi Kitao e Chan-Wook Park – para citar diretores que se enquadram nesse âmbito de gênero de suspense e ação. Talvez sua dignidade estético, jogo de mistério e, sobretudo, desenvolvimento provocativo e comovente da subjetividade dos personagens principais não o façam uma obra prima do cinema de “thriller” – e talvez falte ousadia e “know how” para isso -, mas não decepcionam e chegam a um resultado realmente interessante.

Talvez um dos maiores pontos fracos seja a repetida tentativa de criar reviravoltas e “plot twists” que, de tão apelativas e reincidentes, quebram um tanto com a verossimilhança do longa e o engasgam no final dada a confusão que torna a história. Mas ele tem um bom fio condutor de suspense que não prejudica o longa até seu clímax – no qual as infinitas reviravoltas destoam e vão fazem a narrativa soar arrastada e forçada.

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