Crítica | Em Ritmo de Fuga

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Edgar Wright em Em Ritmo de Fuga faz um filme no qual presta escancaradamente uma homenagem a uma série de elementos oriundos de séculos da tradição novelesca e folhetinesca de se contar uma história. Não falo somente, claro, das histórias de car chase – perseguição de carros – com heróis marrentos, clima de suspense e cenas de ação, típicas da Hollywood do pós-pós-guerra (anos 60 e 70) – a exemplo de Bullit, ou Mad Max. Na verdade, contemporâneos à Bullit e Mad Max, e anos antes também, eram os faroestes, os filmes de espionagem e etc, nos quais se eternizaram figuras românticas de heróis solitários e enigmáticos, como o Shane de Allan Ladd (Os Brutos Também Amam) e o Rooster Cogburn de John Wayne (Bravura Indômita) e, do faroeste spaghetti, o Blondie/Estranho Sem Nome de Eastwood (Trilogia dos Dólares) e o Harmonica de Charles Bronson (Era Uma Vez no Oeste).

Obviamente que eles seguem uma tradição de histórias épicas da literatura e mitologia peculiares do romantismo europeu – como as histórias históricas dos Três Mosqueteiros e Ivanhoé, escritas por Alexandre Dumas e Walter Scott. Mas, nos Estados Unidos, quando esta tradição foi se disseminando e assim adaptada às lendas do velho oeste, à defesa dos “valores e ideais” estadunidenses nas figuras dos super-heróis e etc, parece ter se encaixado como uma luva para, primeiramente, propagandear os valores de patriotismo norte-americano, de supremacia do “ocidentalismo” e, se olharmos para casos mais recentes, por que não dizer até mesmo de uma mentalidade daquilo que chamamos de “sociedade do medo” – uma vez que o imaginário de um vingador pronto para eliminar aqueles que corrompem a ordem e a moralidade pode propagandear o discurso de vingança, da divisão do mundo entre “cidadãos de bem” e “bandidos” que parte da desumanização desse segundo grupo – e a qual tenta justificar até mesmo sua eliminação física -, típica de sociedades marcadas pela insegurança social e pelo preconceito. Contudo, ao longo da história esta figura meio de “cavaleiro solitário” não se reduziu apenas a tal missão e, algumas vezes, a ironizou até mesmo.

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Em 2012, foi lançado no festival de Cannes o filme Drive, belo trabalho de Nicolas Widing Refn. O filme parecia ser uma declarada homenagem ao arquétipo do “cavaleiro solitário”, enigmático e marrento, trocando apenas um cenário histórico por uma Los Angeles de visual estilosamente dos anos 80 – e a trilha sonora do filme não o negava. Agora, em 2017, Edgar Wright, com todo seu jeitão espalhafatoso, parece ter tido a mesma ideia. Baby Driver (título original de Em Ritmo de Fuga) tem todos os clichês românticos, o personagem é uma espécie de “cavaleiro solitário” e o visual é absurdamente “oitentista”. Contudo, a opção de Wright foi fazer um longa mais leve, de violência mais fantasiosa do que realista e protagonista mais meigo do que sinistro. Há uma opção por um clima mais fruitivo, com várias tiradas cômicas. Logo, é como se fosse uma versão burlesca e cartunesca de um Três Homens em Conflito, de um Blade Runner ou, para ser mais didático, de um Drive.

Baby (Ansel Elgort) é um motorista especializado em fugas da cena do crime. Após o assalto, ele é encarregado de dirigir o carro de fuga dos foras-da-lei, despistar a polícia e salvar a pele de todos – e depois poder ficar com o seu dinheiro. Ele faz isso apenas pois tem uma dívida com Doc (Kavin Spacey), já que os riscos dessa vida não lhe agradam nem um pouco – mesmo que, em seu lugar, seja empregado em algum serviço de remuneração menor. Porém, fugir do mundo do crime, que não lhe é exatamente uma opção, se torna uma obsessão maior quando conhece a garçonete Debbie (Lily James), e por ela se apaixona.

Os filmes de Edgar Wright costumam ter um início um tanto engasgado e redundante, um pouco frenético demais e de muita demora para entrar no enredo. Nesse Em Ritmo de Fuga a coisa não me pareceu diferente. Contudo, é fato que o longa é um tanto engasgado e nem tão envolvente assim até que nos aproximemos de sua metade, quando momentos antes de seu clímax uma série de reviravoltas ocorrem e tornam Baby Driver um filme surpreendente – e Wright consegue usar desse fator para elevar a adrenalina do roteiro até a sua conclusão.

Porém, até que o nó do enredo (parte da história que se estende desde o começo até o fato que inaugura o conflito a ser encarado na narrativa) seja devidamente finalizado, não é somente o roteiro que dificulta uma maior comoção e gera essa impressão de engasgo e certa indisposição. Um dos fatores que colabora para isso é o fato do protagonista, o Baby, não conseguir ser tão empático como deveria. Para que uma narrativa seja cativante, é necessário que as emoções e os impasses vividos pelos personagens fictícios soem verídicas para que nos provoque empatia – e fatores como a atuação um pouco frouxa e indisposta de Algort atrapalham que se alcance esse objetivo.

Para terminar os fatores que, ao meu ver, são negativos, eu diria que a estética do filme, sobretudo a fotografia, poderia ter sido mais eloquente e expressiva. Bill Pope, que fez a fotografia das trilogias de Matrix (irmãs Wachowski) e Homem-Aranha (Sam Raimi), faz algo um tanto chapado e protocolar, podendo ter feito mais usos dos recursos imagéticos para criar um tom mais trágico, mais contagiante – poderia puxar para um “noir”, talvez, até porque a situação pede pelo tom nostálgico. Mas, da forma como é, fica mais inócua e inexpressiva do que deveria – o que deixa o enredo e a atmosfera de Baby Driver mais morna do que o desejado.

Mas Em Ritmo de Fuga não é, de longe, um filme sem seus pontos positivos. Por mais do começo engasgado, o clímax é bem filmado e vigorosamente encenado, sendo o ponto alto da narrativa pelo fato de ser imprevisível. A coreografia da ação é fascinante e provoca apreensão. Wright usa bem do suspense neste momento, e assim vai até o interessante desenlace (quando o nó é resolvido, desfeito; a conclusão) da história. Alguns furos no roteiro podem ser acusados: algumas motivações que ficaram incompreensíveis e fatos fundamentais à narrativa que não foram bem explicados. Mas isso não impede Em Ritmo de Fuga de ter um resultado agradável no fim das contas. O filme de Wright peca sobretudo em ter cometido deslizes que amenizaram a intensidade dramática do longa, e o deixaram mais cálido – exceto, como dito, no clímax. Baby Driver também demora a achar o tom entre o burlesco e o trágico, para que a narrativa seja visceral e amedrontadora sem que, necessariamente, caia no sinistrismo agourento, pessimista e quase macabro (como é o de Drive de 2012) – e, no lugar deste sinistrismo, permanecesse em um tom mais burlesco e auspicioso se comparado a filmes como Alien, Blade Runner ou Os Imperdoáveis.

A segunda metade de Em Ritmo de Fuga usa bem dos clichês românticos, consegue redesenhar provocante e apreciavelmente a trama de ação e suspense e, fazendo uso de uma linguagem excêntrica sem deixar de ser tradicional, eleva a tensão a alturas que redimem os pontos fracos outrora tão incômodos de Baby Driver.

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