É complicado falar algo sobre Transformers, uma franquia que chega ao quinto filme da saga sem demonstrar nenhuma perda de fôlego diante de seu público. Os números de renda e de público parecem legitimar tudo que está na tela, como se não houvesse responsabilidade com as imagens que cria, uma vez que seu sucesso é praticamente garantido. Nessas circunstâncias, um texto crítico é uma luta quase inglória, pois o que se passa na cabeça é realmente a contradição de um filme tão mal planejado na mesma medida que contém uma fórmula de sucesso inevitável.

De fato, é muito fácil falar mal de Transformers: O Último Cavaleiro sendo um longa que dá inúmeros motivos para justificarem as baixíssimas notas encontradas nas publicações sobre cinema, como esta. O filme de Michael Bay é um poço de argumentos contrários ao seu próprio filme, desde o roteiro até a sua confusa concepção visual, e assim a pergunta mais difícil realmente é tentar entender o que Transformers ainda possui para levar tanta gente aos cinemas e garantir os próximos títulos.

É claro que um fator implica no outro, como se essa má qualidade, se é que podemos chamar assim, está totalmente ligado com a garantia de um enorme público. O que pode definir Transformers: O Último Cavaleiro é realmente uma falta de responsabilidade em relação à criação do filme, como se tudo fosse colocado em tela na pura certeza da satisfação do espectador sem a mínima reflexão. O longa parece um amontoado de informações e de imagens que vez ou outra conseguem associar-se para criar realmente uma narrativa, ou uma sequência cinematograficamente digna. Às vezes é como se Michael Bay tivesse feito uma sopa de letras, que em uma ou outra colherada é possível formar alguma palavra.


De fato, esse descuido que cerca todo o filme é marcante quase por uma falta de sintaxe cinematográfica, como se Transformers: O Último Cavaleiro tivesse dificuldade em dar significado e unidade àquilo que se vê. É curioso, por exemplo, como aquela quantidade absurda de cortes por minutos muitas vezes juntam planos que não necessariamente fazem o filme fluir. É perceptível uma série de quebras de eixo, ou seja, quando a câmera está em posições opostas de um plano para outro, o que geram uma descontinuidade absurda entre um momento e outro, parecendo que eles não estão no mesmo lugar, ou no mesmo tempo. Transformers é um filme que inconscientemente desfaz qualquer sensação de construção de tempo e espaço únicos dentro da obra, algo extremamente básico para a experiência do cinema.

Um exemplo dessa irresponsabilidade fílmica está na utilização de câmeras diferentes sem nenhum significado específico. Também de um plano para outro, nota-se uma diferença gritante entre qualidade das imagens, alterando até o aspecto da tela, que alterna rapidamente entre o anamórfico, com a forte presença das bordas e outra que parece estar em tela cheia. Transformers: O Último Cavaleiro é uma confusa profusão de imagens, que passa rápido pelos olhos do espectador, torcendo para que este não esteja necessariamente tão atento.

Essa confusão está presente na narrativa de Transformers: O Último Cavaleiro também. Não é anormal ver Michael Bay declarar que seus roteiristas estão lidando com dez ou quatorze ideias para os próximos longas, pois parece que nesse filme nenhuma ideia foi descartada e tudo foi colocado no mesmo projeto. Como já sugere o título, o longa aponta uma influência dos Transformers na antiga história do Rei Arthur, da távola redonda e do antigo mago Merlim, onde o cajado daquele antigo bruxo é a arma para evitar uma ameaça interplanetária no presente.

Se essa premissa já tem sua maior parte enraizada no pastiche, Transformers: O Último Cavaleiro ainda coloca uma série de investidas narrativas que só não podem ser devidamente desenvolvidas. Há a situação dos autobots colocados na ilegalidade no mundo inteiro – exceto em Cuba; a história da garota que vê os Transformers como sua única família; Cade (Mark Whalberg) escolhido para completar a grande missão sem esquecer que é um dos homens mais perseguidos do mundo e até a trajetória de uma professora universitária de história descobrindo ser herdeira de Merlim.

Com isso, não é difícil o filme se esquecer de alguns personagens, que somem em uma hora e voltam tempo depois sem explicação alguma. Transformers vive de situações que beiram o surreal, como uma sequência de caça ao tesouro no pior estilo Dan Brown, numa busca cheia de pistas e diálogos forçados sobre o paradeiro do cajado do mago e a relação entre história e Transformers. O longa faz, através dessas diversas multinarrativas, com que o tempo seja sentido, que as duas horas e 30 minutos pareçam muito. Nem a velha desculpa da ação frenética justifica todo esse tempo de tala. Fato é que se há um emaranhado de cortes por segundo, como um todo Transformers: O Último Caveleiro é um filme sem filtro, onde todas as informações seguem na tela de forma desalinhada e sem concisão alguma.

Todavia, a pergunta chave de Transformers continua em pé, e entender o que deixa a franquia tão rentável não é tão simples diante de tantas falhas. A sequência inicial é bem explicativa de como os criadores do filme entendem a sua relação com a audiência. Cinco garotos pulam a cerca de um lugar habitado apenas por Transformers, a cena parece ter saído de Stranger Things e realmente é esse o pensamento do longa, como se a todo instante tivesse rastreando tendências audiovisuais que se comuniquem, ou no mínimo agradem o público jovem.

Transformers: O Último Cavaleiro segue nesse pensamento de massagear realmente os confortáveis cérebros de seus espectadores, como se entregasse aquilo com que a audiência está habituada, e através disso, narrativa e direção podem não ser tão boas assim. O longa opera numa espécie de hipnose, uma proposital distração de seu espectador. A ação frenética, os cortes frenéticos, ou até mesmo os diálogos banais que necessitam de um movimento de câmera espalhafatoso, ou de um enquadramento diferente apenas mantém um sistema de estímulos visuais na tela, sem nenhum significado aparente.

Assim Transformers: O Último Cavaleiro chama atenção, não pelo que é como filme, mas porque faz de tudo para que esses olhos estejam perdidos naquela confusão de imagens que se vê em tela, alguma delas bastante estimulantes, como explosões, músculos, carros voando. Nessa centena de imagens por minutos, a mente ou os olhos são levados num fluxo em que o filme pouco importa, restam apenas estímulos. Transformers é como uma injeção de adrenalina, em que o corpo assimila de forma rápida algo totalmente sintético sem que passe pela consciência cerebral.

Se por via das dúvidas, algum olhar sair do transe de imagens estimulantes, o filme ainda abre margens para a distração via um humor fácil baseada em tiradas cômicas, ou até mesmo a sensualização de sua personagem feminina encarnando a intelectual sexy. De fato é difícil compreender porque Transformers ainda faz tanto sucesso, é melhor acreditar que, de fato, é hipnose.