David Lynch é um diretor cuja obra pode ser explorada de múltiplas formas. É riquíssimo o leque de temas que seus filmes abordam, mas que em geral gira em torno dos símbolos do subconsciente – algo como de inspiração psicanalista. Muitos consideram, por exemplo, Cidade dos Sonhos um dos melhores filmes dos anos 2000. O filme sobre a viciante luta pela fama e repercussão em Hollywood é orientado por esse tom onírico e simbolista. Mas, claro, Eraserhead, Veludo Azul, O Homem Elefante, Coração Selvagem… obras que exploram essa dimensão meio irascível do humano, do medo e da paixão, das crises de identidade e tal.

Inspirações não faltam à David Lynch, desde referências artísticas como o Expressionismo Alemão, o cinema surrealista, as provocações com a psiqué humana de Hitchcock e Bergman, os filmes noirs que também nadavam nessa via psicótica provocativa e erótica… até o estilo dark e sofisticado, meio Robert Krasker.

Enfim, poderíamos ficar horas pensando nesse diretor tão rico de referências e temas. Mas David Lynch: A Vida de um Artista, aparentemente, ignorou completamente isto e se contentou em apenas fazer uma fria, porém estilosa, recapitulação da vida do diretor – da sua infância até o dia em que começou a filmar seu primeiro filme, e parando aí. O escopo é este: a vida de David Lynch até antes desta se dedicar a fazer cinema.


Talvez a intenção não fosse só fazer uma recapitulação pouco ligada à identidade ou a um exame da obra de Lynch – como o próprio título do filme aqui no Brasil acaba por nos enganar. Na verdade, ele funciona mais como uma biografia isolada do que como um diálogo entre a vida de Lynch e as reverberações desta em sua obra. Mas a intenção inicial, ao que parece, era a de fazer o oposto: uma homenagem ao diretor estadunidense que revisasse seu estilo e suas referências a partir da linguagem com a qual, neste documentário, contaria a história de sua vida.

Parece que ele queria dar a impressão de uma encenação na qual Lynch, em meio ao seu ateliê, pintando seus quadros, estaria rememorando sua vida a cada pincelada – denotando, assim, um pouco dessa sua inspiração no subconsciente humano a partir da imagem criada pelo criaria de um homem vasculhando seu subconsciente em meio ao momento de sua criação artística.

Logo, ele interpõe as falas em off do narrador, pausada ao expor os eventos de sua vida em ordem cronológica – o que engloba o preconceito social que teve pela escolha de ser artista (em meio a uma sociedade industrial voltada para a produção mercadológica, a qual a arte é pouco lucrativa), que é talvez a coisa mais interessante das registradas pelo documentário – enquanto que na tela se intercalam fotografias antigas, que ilustram o narrado, e gravações recentes, que mostram o próprio David Lynch pintando seus quadros no seu ateliê – concebendo a sua arte.

Contudo, ao invés de se criar uma sensação de intimidade, de um artista lidando com suas entranhas pessoais, o efeito causado é justamente o oposto: a narração com pouca emotividade, o estilo sôfrego e estagnado do documentário, a linguagem fria e formal de David Lynch: A Vida de um Artista apenas causam uma sensação de seriedade, distância e certa impessoalidade. Nem mesmo o diálogo das imagens com o narrado em off supera, na maioria das cenas, uma mera e simples ilustração, sem nenhum valor figurativo ou metafórico que poderia dar significado autoral e artístico a este documentário (que fora exibido no festival de Veneza do ano passado).

O que resta de David Lynch no filme é apenas o visual sombrio e levemente intimidador, que embora não seja o gótico histérico de Lynch, ao menos não é inócuo e desinteressante. A pompa estilosa da direção de Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm, todos novatos na direção – e quase novatos no cinema, sendo que o destaque vai para Neergaard-Holm que já montou o filme Victoria, de Sebastian Schipper -, é a única coisa envolvente, mas mesmo assim algo que não o sustenta e que não lhe priva de ser uma experiência superficial no quesito emotivo, quase vazio no sentido artístico e pouco surpreendente no quesito documental – os próprios fatos narrados não destoam muito de eventos esperados.

Logo, David Lynch: A Vida de um Artista é um relato interessante, curioso sobre a história pré-cinema de um belíssimo diretor que, por mais que possa ser um filme curioso, ainda é uma experiência fria, formal e séria, e sem muita comoção e relevância para as análises da filmografia de David Lynch.

David Lynch: A Vida de um Artista

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