A adaptação de Death Note da Netflix sempre foi cercada de muita desconfiança. Desde as primeiras informações e trailers o projeto parecia não agradar aos fãs. O longa, antes de seu lançamento, ainda possuiu uma polêmica sobre o whitewashing presente no filme, deixando praticamente toda sua origem asiática fora desse projeto, onde todos os protagonistas seriam ocidentais. Polêmicas e desconfianças a parte, Death Note chega às telas com aquele ar de projeto que parece ter nascido equivocado.

O longa parte justamente da adaptação de seu material original para o mundo e a narrativa ocidental. Os primeiros minutos marcam muito bem essa nova associação da narrativa. Uma sequência de planos em câmera lenta mapeia um típico mundo do high school americano, líderes de torcida, valentões e os garotos marginais. Em pouquíssimo tempo, o longa ambienta sua história e sem muito dizer apresenta seus personagens principais, utilizando todo um sistema de representação desse cinema juvenil para saber quem são aqueles seres.

Light Turner faz parte daquele terceiro grupo, um outsider dentro das convenções estudantis, que acabara de perder sua mãe e se incomoda com algumas injustiças cometidas por garotos da escola. Do céu surge um livro acompanhado de uma criatura, explicando o poder que o jovem pode deter. Basta Light colocar um nome naquele caderno que uma pessoa morrerá. Death Note é direto, e apenas com dez minutos de projeção o conflito central já está colocado, a partir daí tudo gira em torno da relação entre o garoto, o caderno e as mortes que ele pode causar. Deve ser ressaltado que Death Note da Netflix não é uma produção para fãs, mas sim uma obra que tenta apresentar essa narrativa para novos olhares, como se pegasse seu material original e remontasse para um novo público.


Nessas condições, nota-se no longa dois fatores, o primeiro uma concisão narrativa, um filme bem direto, não pretende criar algo muito maior que seu próprio fio narrativo, concentrando-se apenas nas relações já mencionadas aqui. Por outro lado, o longa parte do principio que aquele universo é novo, mas também cheio de regras, o que acarreta numa obra que a todo momento está se auto explicando, num didatismo constante, que ora lê as regras daquele livro, ora faz com que haja no filme flashbacks de informações que acabaram de ser transmitidas. Este, com certeza, é o aspecto mais incômodo do longa, que parece nunca acreditar no potencial do público de entender sua trama, fazendo com que muitas vezes o projeto pareça acreditar ser muito mais complexo do que realmente é.

Por outro lado, a concisão narrativa do longa é seu ponto alto. Esse formato enxuto que Death Note contém faz com que os realizadores tomem o material para si, construindo um mundo próprio, um Death Note que só existe nessa produção da Netflix. O filme pode incomodar os fãs, mas o cineasta Adam Wingard refuta todas as referências orientais e faz de Death Note um filme de terror tipicamente americano, fazendo alusão aos cânones dessa tradição fílmica. Se isso também pode ser considerado um whitewashing, há uma espécie apropriação, no bom sentido, daquele material. De forma ousada os realizadores fazem de Death Note um material deles, sujeito a uma espécie autoria em cima de uma obra bastante conhecida.

Wingard pega esse mundo High School aliado ao universo fantástico e sombrio de seu material original e transforma o longa num horror que mescla os anos 1980 e 1990, remetendo, por exemplo, ao grande A Hora do Pesadelo, do mestre Wes Craven. Cheio de inventividade o cineasta faz interessantes e sutis movimentos de câmera, planos iluminados de forma ousada, revelando um mundo em constante deformidade. Além de filmar as mortes provocadas pelo caderno com brutalidade, com uma violência gráfica extrema, mostrando o horror nos assassinatos que teoricamente partiriam das boas intenções daquele garoto.

O filme nunca deixa de ser ousado, ainda que isso passe num nível quase inconsciente, mas Wingard muitas vezes utiliza sua trilha musical, embalada por um pop melódico antigo, de forma antagônica a sua imagem. Em momentos dramáticos ou de terror, começa a tocar músicas apaixonadas, dançantes, fazendo com que a cena ganhe um tom irônico e crítico, evidenciando que talvez, todo mundo, goste das mortes que estejam vendo na tela.

É a partir dessas opções estéticas, que Death Note consegue realizar indagações dentro de sua obra. A principal delas a relativização daqueles atos realizados por Light Turner, ou como uma atitude boa não pode estar ligado a ações tão brutais. Nesse sistema de tentar fazer o bem através da morte, a grande questão é que talvez o garoto gostasse mais do fim daqueles seres repugnantes do que sua ação em si. Nesses seus atos, Light, junto com sua namorada, desejava passar um recado, e todo recado deve ser assinado, fazendo com que todas as mortes entoem seu pseudônimo, Kira. É isso que faz com que policiais de todo o mundo fiquem na cola do garoto, revelando a dubiedade daqueles atos.

Talvez o grande problema dessa adaptação pode ser interpretado por essa busca por uma assinatura. Se realizadores fizeram de tudo para criar algo próprio com Death Note é exatamente isso que pode afastar os fãs da série. Se Kira é ao mesmo tempo a ruína e a benção do protagonista Light, a autoria neste longa trabalha da mesma maneira.

De fato Death Note possui seus altos e baixos, passando pela dificuldade de seu elenco – principalmente pela performance pouco inspirada do protagonista Nat Wolf -, mas com opções bastante arrojadas, tão ousadas que podem muito bem desagradar, Death Note ganha um caráter diferente dos grandes filmes que se vê. A recepção até pode ser ruim, mas há qualidades no filme que distanciam o longa de um projeto que sempre pareceu equivocado.

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