Crítica | Duas de Mim

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É fato que já falamos muito das comédias brasileiras da contemporaneidade. Duas de Mim tem as mesmas referências de linguagem que as outros: a atmosfera gritante, excitada, carnavalesca, com a fotografia de tons fortes mas enquadramentos bem padronizados no estilo comercial. Contudo, creio que um aspecto interessante dessa onda de chanchadas que se espelham em um padrão Sessão da Tarde e ostentam elencos globais é que algumas de suas temáticas costumam girar em torno de questões sociais pertinentes mas a forma como elas são descritas caem em visões que as reduzem a algo sem nexo com a estrutura social atual, apenas as retratando sob o ponto de vista de uma barata “auto-ajuda em tempos cuja complexidade do problema é muito mais sistemática, estrutural e coletiva do que a mera auto-ajuda” – como eu já havia escrito no texto de Doidas e Santas.

Em Duas de Mim, Suryellen (Thalita Carauta) tem dois trabalhos e ainda é a responsável por cuidar de sua casa. Acordando às 5h e chegando em casa somente à noite todo o dia, ainda tem um filho cujo pai simplesmente saiu de casa e se negou a cuidar da criança. Nesse ritmo insolente e desumano, sendo diariamente assediada por homens no meio da rua, ela não suporta mais e, quando de repente aparece uma senhora vendendo um “bolo dos desejos” no meio rua, acaba por confidenciar toda sua amargura e completa falando: “eu queria que tivessem duas de mim”. E eis que, de repente, ela se depara com um clone seu, com o qual poderia dividir as tarefas de seu dia. O clone, contudo, é o extremo oposto de Suryellen: desbocado, elétrico, desenfreado.

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Em Doidas e Santas eu havia falado sobre o ritmo de vida workaholic e a massificação como temas dos quais o filme se utiliza para, talvez, fazer com que o espectador se identifique com os traumas da protagonista (vivida por Maria Paula). Aqui acontece o mesmo, contudo, com uma mulher periférica que vive em condições inaceitáveis (uma jornada de trabalho de mais de 12 horas por dia!). Mas usa desse pretexto para fazer um “feel good movie” no qual as coisas iriam melhorar caso se trabalhasse para isso. Só bastava que a protagonista se esforçasse para que sua vida melhorasse de situação. Em alguns outros filmes até mesmo o “final feliz”, a exorcização desses problemas cotidianos típicos, se dá com uma trama surreal – mas que afirma que, no fim das contas, “tudo pode dar certo!”. Não creio que essa visão seja a mais apropriada em um contexto no qual esses problemas nascem do modus operanti de nosso tempo, e talvez aí valha um olhar mais crítico sobre essa problematização.

A diretora Cininha de Paula é experiente: dirigiu novelas como Cobras & Lagartos, séries como Toma Lá, Da Cá e peças como A Gaiola das Loucas (2010) e Yentel (1993). Contudo, esta é sua estreia no cinema. A primeira coisa que desponta de sua direção é que conseguiu tirar atuações boas do elenco: Thalita Carauta (S.O.S. Mulheres ao Mar), Alessandra Maestrini (A Cara do Pai), Letícia Lima (Vai Que Cola e Porta dos Fundos) e o estreante cantor Latino conduzem o filme naquilo que tem de bom, que é o fato de seus personagens serem contagiantes e expressivos, ao mesmo tempo que caricatos. Logo, são cômicos e são empáticos, embora se baseiem em estereótipos vulgares da periferia carioca.

Talvez o que debilite o longa seja sua própria narrativa: o roteiro não entra de cara no seu desenlace, a primeira parte do filme é muito mais um estudo sobre personagem principal (e seu clone) do que sobre uma trama que esta vive. Contudo, este “estudo” é um pouco monótono, se baseando em eventos repetitivos e sem sal. É interessante ver a atuação de Carauta, até porque ela alivia um peso muito grande de diálogos truncados, artificiais e cafonas. E já quando entramos no desenlace, ou seja, na trama mesmo da história, esta é tão previsível e tudo usa dos lugares-comuns como uma muleta que acaba por fazer o longa perder muito em questão de personalidade e catarse.

Agora, é interessante o longa usar a relação do clone com a Suryellen original como uma dualidade de personalidades complementares, meio que como as duas faces de um mesmo ego. Suryellen é muito mais controlada e sóbria, sintomas da vida cheia de responsabilidades que têm. Seu clone é livre dessa “domesticação” do cotidiano, é sua face internalizada: elétrica, festeira, desbocada, inconsequente, impulsiva. É a dualidade entre a racionalidade e o ser instintivo, entre o calculismo e a pulsão. Uma jogada clichê do longa que reforça uma caracterização empática e comovente de Suryellen.

É uma pena que Duas de Mim tivesse diálogos tão artificiais e ingênuos, que não transmitissem nada de catártico. Aliás, é tudo tão protocolar que cai em frases de efeitos esdrúxulas – além de um sentimentalismo tão forçado que se torna cafona, esdrúxulo e estapafúrdio. O visual é sem identidade, sem significado, inócuo. Uma pena, pois a ideia original era até mesmo interessante. Mas, mesmo assim, é uma comédia que tem momentos hilários.

Ainda, Cininha de Paula disse que este é um filme sobre o empoderamento da mulher. Não cabe a mim decretar algo taxativamente sobre isto – porque eu sou homem – mas de fato se vê ali um retrato de cenas depreciativas que ocorrem com mulheres mas que, contudo, não ocorrem com homens: assédio na rua, ter o pai de seu filho como um irresponsável que não quer saber de dividir a responsabilidade de cuidar da criança, a jornada de trabalho dupla (já que os trabalhos domésticos recaem sempre sobre os ombros das mulheres)…

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