Crítica | Esta É a Sua Morte: O Show

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A sinopse de Esta É a Sua Morte: O Show já é de deixar nauseado por si própria. Após uma mulher se suicidar publicamente, em rede nacional, ao ter perdido a disputa de um reality show, o apresentador de TV Adam Rogers se sente desolado. A situação fastienta que se encontra, que o leva a repensar na cena do suicídio por diversas vezes em seu dia, faz com que o engodo e a agonia o levem a beira da loucura. Mas eis que a chefona do canal de Rogers, Ilana Katz (Famke Janssen), vendo os altos índices de audiência devido à repercussão do suicídio ao vivo, propõe um reality no qual, em troca de alguma recompensa em dinheiro para uma causa ou devido à problemas emocionais que passassem, os participantes deveriam se suicidar ao vivo. Rogers e Katz chegam a esse formato pois criam que, assim, despertariam a condolência do público pelas histórias trágicas ou “românticas” por trás de cada suicídio – a história da entrega de uma vida. O nome do programa seria “Esta É a Sua Morte”. Contudo, Rogers tem uma irmã mais nova, Karina (Sarah Wayne Callies), que se rebela ao ver que seu irmão está ganhando dinheiro e influência explorando o sofrimento alheio – sendo que ela própria encara a depressão.

Mas o filme ainda acompanha uma segunda história, a de Mason Washington (Giancarlo Esposito). Mason tem dois filhos e trabalha em dois empregos para conseguir sustentar a casa. Com sua origem pobre e formação profissional menos especializada como a da classe média, Mason recebe baixos salários e, sem a menor seguridade social – atingido pela flexibilização da proteção ao trabalhador e das leis trabalhistas, medidas de austeridade pública, escassa distribuição de renda, além de afogado em dívidas com bancos -, se humilha diariamente. Contudo, por não ceder a orientações inconcebíveis e injustas de suas empresas, vê sua situação profissional ameaçada – e assim também a vida dos filhos, que dele e de sua esposa dependem. O filme dirigido por Giancarlo Esposito, como se vê, abrange e conjulga diversos discursos sócio-políticos críticos, conseguindo inclusive conectar cada um deles e apresentá-los como indissociáveis cada um de cada outro. Contudo, é possível categorizá-los em dois grupos: a crítica às medidas político-econômicas dominantes na atualidade (talvez possamos pensar aqui nas ideias do neoliberalismo, e creio que o filme tem essa veia mesmo) e à ação da indústria cultural e da grande mídia, dos grandes grupos de comunicação, vistas como alienantes, irresponsáveis e desumanizadoras. Contudo, o roteiro de Noah Pink e Kenny Yekkel tem algumas debilidades, o que empobrece o filme e o aproxima de um texto precário e genérico. Mas antes, vamos falar dos seus pontos positivos. Esposito teve papeis em The Usual Suspects e na recente adaptação em “live action” de Mogli: O Menino Lobo, mas é mais conhecido pelo personagem de Gus Fring, em Breaking Bad. Agora retorna à direção de um longa após nove anos da sua estreia (havia dirigido a película chamada Gospel Hill).

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Esta É a Sua Morte: O Show tem um protagonista muito bom. Adam Rogers, vivido por Adam Duhammel, não é só o estereótipo de um apresentador de reality show. Ele é quase que o rostinho do “american way of life”, com sua beleza genérica. Ao mesmo tempo, os filmes de blockbusters que Duhamel estrelou parece fazer de seu personagem uma espécie de ironia, dada a intenção da obra de ser uma antítese à cultura “enlatada” como mercadoria, alienante e etc. E ele se sai bem no papel, assim como boa parte do elenco que parece parodiar os rostos tão genéricos que permeiam a TV americana e seus shows de entretenimento apelativos: tanto Caitlin FitzGerald como Famke Janssem se saem bem nos papeis de diretora e produtora dos espetáculos televisivos, respectivamente. Karina, a personagem de Sarah Wayne Callies, parece ser o símbolo da queda do “american way of life”, da família “ideal” americana: o seu rosto de beleza “padrão” se contrapõe ao estado de insegurança e melancolia que se encontra, além da sua solidão. E se Karina é o símbolo da queda, Mason Washington (seu sobrenome foi uma escolha acidamente irônica) é o contraposto. A origem negra, a segregação social histórica da comunidade afro, a vida proletária e os impactos das mazelas sociais. Mason Washington representa o contraste social do qual se privilegiam aquelas pessoas brancas, mimadas e endinheiradas – patricinhas e mauricinhos – dos backstages da televisão, aquela “fábrica de alienação e entretenimento apelativo”.

“O que quer que se possa fazer a respeito da segurança é (…) espetacular, visível, “televisível”. (…) O combate ao crime (…) dá um excelente e excitante espetáculo, eminentemente assistível. Os produtores e redatores dos meios de comunicação de massa estão bem conscientes disso. Se julgarmos o estado da sociedade por suas representações dramatizadas, (…) toda a vida humana pareceria navegar numa estreita garganta entre a ameaça de assalto físico e o combate aos possíveis assaltantes. (…) O efeito geral é a autopropulsão do medo.” O trecho escrito por Zygmunt Bauman em seu livro “Globalização” é interessante para analisar Esta É a Sua Morte. A televisão dramatiza eventos reais e os torna espetáculos. Tudo é absorvido pelo público como se fosse uma novela. Em realities shows, coberturas policiais… A indústria expõe e explora a intimidade de pessoas, além de espetacularizá-las. E o público acompanha sua vida como se fossem, de fato, uma grande exibição. Perde-se a empatia humana nesse percurso, e objetifica-se a intimidade de qualquer um em busca de entretenimento. O sociólogo Jean Baudrillard, que inspirou a trilogia Matrix (embora ele não tenha muito gostado da forma como as imãs Wachowski adaptaram sua obra na ficção), dizia que hoje estamos repletos de simulacros feitos pelos meios de comunicação e pela mídia, que manipulam realidade ou reinventam os signos desta procurando vendê-la como vida real – e nesse processo fazem valer seus interesses. Esta É a Sua Morte, com as histórias românticas de entrega da vida por uma causa, apenas leva este processo às últimas consequências humanas.

Ao mesmo tempo, Esta É a Sua Morte: O Show discorre sobre as tendências políticas dos Estados Unidos pós-Reagan de forma específica, mas em última instância expõe a lógica da exploração do trabalho e da luta de classes. A falta de seguridade social, decorrente de medidas de austeridade do governo, além da especulação financeira e acumulação de dívidas bancárias que, para o filme, diminuíram a qualidade de vida da população em geral, mas em específica a da base. “Estar livre de sindicatos e de negociações coletivas significa liberdade para diminuir salários. Estar livre de regulamentação significa liberdade para poluir rios, colocar em perigo os trabalhadores, impor lucros abusivos e fazer engenharia financeira. Estar livre de impostos significa estar livre da distribuição de riqueza que tira as pessoas da pobreza”, na descrição do jornalista britânico George Monbiot. De fato o longa de Esposito tem uma visão crítico ao status quo vigente. E aqui talvez a crítica ao sistema e aos meios de comunicação se juntam, pois, como o sociólogo Noam Chomsky diz, “o propósito da mídia não é de informar o que acontece, mas sim de moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder corporativo”.

E de fato o tom agourento, sinistro e, sobretudo, macabro impacta o espectador dada o realismo das ações – e empolga esta narrativa que tem altos e baixos, sendo majoritários os “altos” porém com “baixos” muito determinantes. Suas atuações interessantes reforçam esse realismo, além de conseguir provocar o público com a trama trágica de cada personagem. O uso da estética no filme é aceitável, funcional. Não é inexpressivo, encaixa com os momentos de tensão e os traduz com eficácia. Contudo, não há nada muito de especial ou desenvolvido, artisticamente, fora do padrão genérico ou óbvio.

O grande problema do longa, contudo, se dá mais no roteiro. Por vezes as falas são muito publicitárias e pouco naturais – artificiais de tanto idealismo. Algumas cenas abusam das investidas de idealismo, romantismo, heroísmo para tornar sentimentalista e épico episódios cuja verossimilhança não permite. Soa anti-natural, um protótipo desengonçado de melodrama. Além do mais, algumas jogadas do roteiro são incoerentes, como o fato de Adam Rogers concordar em fazer o novo reality show mesmo após o trauma que viveu. Ou em outros casos nos quais abusa-se tanto de representações e metáforas para que elas fiquem mais contundentes que acaba por colocá-las em um nível forçado e artificialmente hiperbólico – caindo, talvez, em situações parodiosas.

As estratégias trágicas clichês e vulgares acabam por trair o realismo pretendido por Esta É a Sua Morte: O Show em algumas cenas, colocando-as em um nível caricato ou genérico em momentos cruciais da trama. O que, contudo, não desmente o tom sinistro e macabro que envolve bem a narrativa e gradualmente eleva o suspense para o seu desenlace. Talvez pensando mais em saídas verossímeis e representações menos clichês de um sentimentalismo jocoso e genérico no roteiro, e saindo da média na estética, o material original do longa seria melhor usado. Contudo, isto não desfaz dos méritos de Esta É a Sua Morte.

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