O primeiro Kingsman fez muito sucesso com o público, mas agradou em especial sua parcela aficionada por cultura pop. De fato, é interessante notar como a soma de elementos clássicos da Hollywood pós-guerra – trazidos aqui com certo ar caricaturesco – com ultra coreografadas cenas de ação – que parecem orientar muito do cinema blockbuster dos anos atuais – foi sedutora a essa parte do público aficionada pela cultura pop de Hollywood.

Mas algo chama um pouco mais a atenção em Kingsman que meramente sua soma das sequências de ação com o pano de fundo tributário aos filmes policiais de espião (com toda a pompa cartunesca pulp e vintage dos anos 60, como os filmes de 007): a saga me parece dar maior enfoque à narrativa e a tentar desenvolvê-la, assim como tenta desenvolver seus personagens, com maior rebuscamento e personalidade – mas sem perder o quê comercial – que a maioria dos filmes de ação dessa geração.

Nesse segundo filme da franquia, Gary “Eggsy” Unwin (Taron Egerton) e seu time tem de combater Poppy (Julianne Moore), uma poderosa traficante de drogas que, por mais que fosse a empresária de ascensão financeira mais bem sucedida da sua geração, não poderia ser reconhecida pois seus produtos ainda não são legais no mercado. Para tanto, os Kingsman contaram com outro grupo de serviços secretos: os Stateman, que se escondem sob o ramo do álcool – a exemplo do ramo da alfaiataria para o Kingsman – e são todos voltados à temática country estadunidense.


O primeiro KingsmanKingsman: Serviço Secreto – é interessante, mas não significa que o fato da série ter maior personalidade que a média das franquias cinematográficas, e focar mais em criar uma narrativa de fato funcional, tenha rendido um longa inesquecível. E nesta continuação, Kingsman: O Círculo Dourado, acaba por cometer erros similares àqueles do primeiro filme: trunca a trama e cria solavancos à fluidez da narrativa pela demasiada atenção que dá a núcleos secundários do filme, sem chegar logo ao ponto do percurso narrativo principal; reduz muito o drama do longa às tiradas cômicas e situações excêntricas, sem criar uma carga afetiva realmente intensa que possa conduzir o percurso épica a níveis mais catárticos e dilacerantes de impacto emocional; faz excessos nas causalidades do filme, tornando a sucessão de eventos um pouco mal-embaçada; e, também, não sendo muito prolífico na construção de uma trama detetivesca – fazendo muito pouco uso do potencial suspense da busca por provas e jogo de adivinhações.

Não significa, obviamente, que o filme é de todo ruim. Talvez a sua melhor coisa seja, de fato, os personagens carismáticos – que o são por reverberarem a excentricidade caricaturesca do estilo do filme. São caricaturas a James Bond e outros filmes de espião que usavam de heróis idealizados e mundos fantásticos para, dentre outras coisas, influência propagandista durante a Guerra Fria – mas ao mesmo tempo Kingsman se vale de outras referências, como por exemplo a já citada literatura pulp da qual Indiana Jones e Tarantino já se valeram. Voltando aos personagens, suas personalidades contagiantes são o ponto principal dos dois filmes, embora o roteiro acabe por quase desperdiçá-las em prol de exagerados e deslocados alívios cômicos sempre constantes nas cenas de ação e nos diálogos (pois acabam por reduzir a verossimilhança desses personagens). Indiana Jones, por exemplo, usava de muitas piadas, mas maneirava o tom cômico com o tom impactante do qual um filme épico tem de se valer. Além do mais, em cenas de maior carga dramática, as falas, com certa recorrência, eram de uma obviedade um tanto incômoda – expressavam com didatismo o que os personagens sentiam, e não o fazia deixando o que sentiam implícito em diálogos mais naturais, orgânicos e espontâneos. Este último fato é crucial, até porque também faz com se perca verossimilhança, não se consegue identificar um veracidade por detrás dos panos emocionais do personagem. Não se aprofunda nos ímpetos passionais, estes ficam mais rasos do que deveriam – o que faz com que o épico impacte e assombre menos o espectador.

Mas pelo fato de personagens contagiantes serem um forte dessa franquia de espiões, não é à toa que Colin Firth (O Discurso do Rei, Direito de Amar), por meio de uma gambiarra na narrativa, voltou para esse segundo filme mesmo tendo morrido no primeiro: o britânico é o melhor dos personagens da saga, e sua atuação nesse filme continua muito fundamental para que Kingsman: O Círculo Dourado empolgue o público. Mark Strong (O Espião Que Sabia Demais), o Merlin, também está de volta envolvendo a plateia e a seduzindo à narrativa pela boa atuação em seu papel. Taron Egerton (Voando Alto), o protagonista Gary “Eggsy” Unwin, poderia estar menos atravancado na atuação – em cena ele é um pouco não-natural e assim alcança com menos força o público. Quanto a nova vilã da série, vivida por Julianne Moore, ela está muito bem com o seu cinismo noir, mas a forma truncada com a qual o roteiro lida com narrativa e a pouca recorrência das decisões da vilã nos acontecimentos da trama fazem com que sua personagem, Poppy, seja sub-aproveitada.

Embora se tente desenvolver a narrativa, esta não empolga pelos motivos já citados: demora a focalizar a busca do herói em torno do objetivo de salvar o mundo como centro do filme, truncando a narrativa, e quando o faz acaba por tornar a sucessão dos fatos mal-embasada e pouco envolvente – além de ser superficial ao estado passional dos personagens em relação a sua missão. Eles podem ser carismáticos, mas os diálogos são didáticos e protocolares a tal ponto que seus estados passionais soam postiços. A saga de Kingsman poderia expressar maior estado emocional em seus personagens que só usá-los como fetiche de soberba e empáfia.

O que sobra, uma vez que jogo de adivinhações e mistérios é fraco, são justamente as cenas de ação. Muito bem filmadas, é aqui que o diretor Matthew Vaughn se sai bem. Tendo dirigido o primeiro Kingsman, além de outros bem sucedidos blockbusters de aventura e ação – Kick Ass 1 e 2, X-Men: Primeira Classe -, ele sabe usar bem do visual para narrar a história. Sempre ao lado de Jane Goldman no roteiro, e não poderia ser diferente nesse Kingsman: O Círculo Dourado, eles usam muito bem dos elementos “vintages” para tornar o filme divertido e, sobretudo, simpático. Pecam por não irem mais afundo na história num sentido passional e por não conseguirem revesar de forma justa a narrativa principal e as narrativas secundárias – como o reencontro de Harry, as tensões dentro do covil de Poppy e por aí vai… Além de que às vezes, sim, o roteiro apela a falas e situações que se apoiam, precariamente, em clichês e lugares-comuns do gênero.

Sobre os debates sociais que o filme encarna, é interessante notar que se no primeiro havia uma defesa contra as falácias higienistas ou malthusianas acerca dos problemas ambientais e sociais sofridos pela humanidade (em meio a um cenário de desigualdade social recorde e conflitos étnicos, decidem adotar medidas repressivas e exterminantes à base da sociedade mundial e apenas poupar aqueles mais poderosos e endinheirados do planeta, solucionando problemas sociais sem terem de abrir mão de seus privilégios), aqui ele colocam um interessante e responsável olhar sobre o discurso da “guerra as drogas”. Revelam o cinismo do pensamento daqueles que vêem em métodos de exterminação em massa a resolução dos problemas com o tráfico e comércios ilegais.

Por fim, temos diversos momentos no filme em que projeções misóginas podem ser denunciadas, passando até mesmo por algumas cenas das quais custei a crer que entraram no tratamento final do roteiro, com um material muito afrontoso e insolente na forma como algumas personagens femininas entram em cena.

Kingsman: O Círculo Dourado

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