O universo animado de Lego surgiu com muita personalidade. O mundo de peças desmontáveis foi levada às telas com uma dose de humor ácido, auto ironia e narrativa despretensiosa que sempre parecia mais preocupada com o sarcasmo do que realmente com a construção de alguma edificante edificante ou ambiciosa. Foi dessa forma que Uma Aventura Lego e Lego Batman: O Filme conquistaram público e surpreenderam positivamente, parecendo um respiro importante nas animações.

Lego Ninjago: O Filme vai na contramão de tudo aquilo que havia dado certo nos dois longas anteriores, algo que de início pode parecer interessante, significando uma independência entre os títulos do universo. Todavia o que se vê na verdade é um grande passo para trás daquilo que havia sido conquistado com os dois sucessos anteriores. Para começar Ninjago é o primeiro longa da franquia que realmente surge como uma adaptação de uma linha de brinquedos da Lego, algo que também já chegou a outras mídias, como a televisão. Isso faz com que o filme tenha certo pé na realidade em diversos sentidos, mas principalmente uma devoção em relação à história que conta.

O longa assume certa seriedade ao construir sua narrativa, não no sentido de Ninjago abandonar seu lado cômico, mas o despojamento e auto ironia vista nos outros filmes. O que se vê aqui é um longa extremamente preocupado em criar um mundo coerente, autossuficiente, sem realizar uma ponte entre aquilo que é real e passa a ser incorporado pela trama – como as diversas piadas sobre as tantas outras adaptações do Homem Morcego em Lego Batman. Aqui se vê uma preocupação com a construção dos personagens, da cidade de Ninjago, com o estabelecimento da jornada do herói e seu autoconhecimento. Patamares bem conhecidos e que são assumidos pela nova aventura Lego.


O mais curioso de tudo isso é que o retorno a um patamar pré-estabelecido por tantas outras narrativas audiovisuais, principalmente por animações, faz com que o longa tome todos os caminhos mais fáceis. A comparação é inevitável, se os filmes anteriores brincavam justamente com os clichês, aqui eles são assumidos como verdades incontestáveis. Entre a ironia e a constituição de uma narrativa um tanto quanto grandiosa, o filme esquece da primeira parte e transmite tudo aquilo como se fosse uma verdade inovadora.

O longa acompanha um garoto, um dos ninjas que defendem a cidade, sendo ele o único sem uma característica específica que remeta a um elemento natural (terra, fogo, ar, água, gelo e raio). Além de tudo isso, ele é filho do grande vilão de Ninjago, que sempre deseja destruir a cidade, fazendo com que aquele garoto, sem seus trajes de guardião seja odiado e importunado por todos. Nessa curta sinopse nota-se uma constituição extrema de clichês, o garoto no ensino médio tornando-se adulto, a relação conturbada entre pai e filho e um descobrir de suas habilidades.

Lego Ninjago: O Filme apoia-se nessas muletas narrativas de fácil reconhecimento e os roteiristas do longa – uma equipe formada por seis nomes – nunca conseguem romper essa barreira do óbvio. Nessas condições há uma espécie de falsa responsabilidade, ligado com esse pé no chão existente no filme. Lego Ninjago pretende construir uma moral da história, passar uma lição com a narrativa daquele garoto que protege uma cidade de peças desmontáveis. A grande questão é que nesse apoio de fatos, ações e personagens óbvias esses ensinamentos são no mínimo demagógicos e já vistos em tantas outras produções, não atingindo nem o mais ingênuo espectador (seja ele de qualquer faixa etária). A responsabilidade existente no filme torna-se apenas um malabarismo para encobrir seus tantos defeitos.

Esse lado sério fica bem explícito no começo do filme, com uma longa cena em live action, atuada por Jackie Chan que passa a contar a história que será vista em cena logo mais. O ator dialoga com um menino com ar de seriedade, como se fosse contar algo edificante que realmente afetaria efetivamente a vida daquele garoto. Quando no final das contas a mistura colocada numa caixinha de fast fodd asiático tem o mesmo sabor de tantas outras coisas, sem nenhum tempero a mais, sem nenhuma importância de fato. Assim, o que se vê é um ruído entre a importância que o longa quer ter e que realmente possui.

Esse mistura mal sucedida fica bem clara na concepção visual de Lego Nijago, algo que continua semelhante aos outros longas da franquia, uma explosão de estímulos visuais. A impressão é que visualmente o longa dirigido por Charlie Bean, Paul Fisher e Bob Logan passa o recado despojado, que incorpora uma linguagem da internet com uma série de intervenções visuais e sonoras na tela, remetendo à cultura do meme, enquanto o texto do filme quer ser extremamente sério e edificante. Há, mais uma vez, uma dissonância total que leva a crer que nem mesmo os realizadores sabiam o que desejavam com este longa.

Fato é que Lego Nijago: O Filme é sem pensar o pior filme dessa sequência dentro do universo lego, se às vezes renovação significa frescor, aqui o longa demonstra justamente o oposto. Ninjago torna-se apenas uma busca por manter o nome Lego em evidência quando na verdade é apenas um filme que repete os mais sérios clichês do cinema e da animação, sem a mínima originalidade presente no universo Lego.