Crítica | Mãe!

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Nota do autor: Essa crítica entrará o mínimo possível em detalhes da trama para não estragar a experiência de assistir ao filme.

O ícone surrealista Salvador Dalí fez uma vez a seguinte declaração sobre sua obra: “Nunca Dalí entende uma pintura de Dalí, porque Dalí apenas cria enigmas.”

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Exibido durante o Festival de Veneza de 2017, Mãe!, novo filme do aclamado diretor Darren Aronofsky (Cisne Negro), desde sua exibição na Itália teve uma recepção bastante polarizada, sendo aplaudido e vaiado no festival e, depois de seus encerramento, continuando a ter uma recepção mista por parte da crítica especializada e do público.

No filme, Jennifer Lawrence e Javier Bardem vivem um casal que mora em uma grande residência aparentemente afastada e que tem seu relacionamento abalado com repentinas e constantes visitas de estranhos.

Desde a primeira cena, o filme nos encaminha para algo mais místico e, logo em seguida, somos jogados em um ambiente enorme e aparentemente pacato, porém contrastado pelo uso excessivo de closes com que Aronofsky filma a personagem de Jennifer Lawrence, conferindo uma atmosfera sombria e claustrofóbica.

Completamente centrado na personagem de Lawrence, as representações e alegorias em Mãe! são quase ilimitadas. Com referências que vão de O Bebê de Rosemary – filme dirigido por Roman Polanski com Mia Farrow – a Viridiana (1961), de Luis Buñuel, e tendo metáforas que se utilizam tanto de símbolos religiosos como dos elementos da natureza para serem construídas (e até encarnadas pelas personagens) enquanto encontramos uma variedade de tons que vão de uma atmosfera que tangencia o horror a um sombrio clima de uma comédia quase absurda, o novo filme de Aronofsky está definitivamente entre as obras mais complexas e intrigantes desse século.

A maestria com que Aronofsky conduz esses tons mostra que seu apuro técnico nunca foi melhor. De dramas intimistas, embates dialéticos, construção de visuais sombrios e ritualísticos até um assalto visual com inúmeros elementos que emulam verdadeiramente uma guerra, parece realmente não haver nada que Darren Aronofsky não possa trazer como elemento para tornar ainda mais labiríntica essa trama.

Apresentando mais uma vez um complexo trabalho sonoro que, por mais que soe minimalista se comparado a alguns de seus filmes anteriores como O Lutador, não por isso apresenta um resultado inferior, nesse caso específico, o som do longa pode acabar tanto por desnortear como pode apontar plurais caminhos para o espectador em determinados momentos da história.

Dividindo tanto a crítica quanto o público, Mãe! é realmente um filme desafiador que, por mais que possa ser encarado como pretensioso por alguns, está entre os mais ousados lançamentos dessa década e é praticamente impossível dizer que ao final da sessão o filme não deixará essa história, esses símbolos e essas personagens (ou seriam arquétipos?) habitando nossos pensamentos por um bom tempo.

Sendo o melhor filme da carreira de Darren Aronofsky e a melhor performance da carreira de Jennifer Lawrence, Mãe! é realmente intricado demais para agradar todos os públicos e um filme que provavelmente será debatido por anos e anos, além de uma obra que presumivelmente será lembrada ao menos entre os grandes filmes dessa segunda década do século XXI – senão do século como um todo.

Ao sair da sessão, lembre-se da supracitada fala de Salvador Dalí e de que Mãe! se dispõe a criar uma vasta variedade de enigmas para que nos debrucemos sobre eles e tentemos encontrar seus infinitos significados.

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