Não é novo que os Estados Unidos usam das comunicações de massa para propaganda política, nem que para isso se tenha de apelar para o racismo, manipulação de informações ou alucinoses. Noam Chomsky já afirmara que esses meios “…Eram capazes de conduzir uma população relutante para a guerra por meio do terror e da indução a um fanatismo xenófobo. (…) A propaganda política patrocinada pelo Estado, (…) quando não existe espaço para contestá-la, pode ter consequências importantes”.

O Assassino: O Primeiro Alvo chega a parecer uma paródia quando tocamos nesse tópico de propaganda política em Hollywood. E apenas a sinopse denota os motivos para tanto: um ataque terrorista (de fundamentalistas religiosos, vejam só, islâmicos) acaba por matar a namorada de Mitch Rapp justamente no dia em que ele a pedira em casamento. Movido por vingança, ele entra no serviço secreto dos Estados Unidos para combater novas atrocidades como tais – sobretudo se a ameaça vier de um sujeito com fenótipos do Oriente Médio. Na sua primeira missão, é auxiliado pelo veterano Stan Hurley (Michael Keaton) e pela agente Anikka (Shiva Negar). Essa consiste em investigar as origens de testes radioativos que indicam para uma bomba atômica. O principal suspeito é o serviço secreto iraniano, embora o país tenha recentemente assinado um tratado sobre a questão com os Estados Unidos no qual interromperia seus testes atômicos. Contudo, Rapp precisa aprender a ter sobriedade e calculismo nas missões, não deixar as coisas irem para o lado pessoal – pois isso o levaria à hesitação.

O filme é, obviamente, feito para uma parcela da população islamofóbica, xenófoba ou simpatizante de políticas autoritárias. O cenário político nos Estados Unidos, com grupos de um nacionalismo radical dando as caras com gritos xenófobos e racistas, parecem nortear a escolha do público-alvo desse longa. Chomsky continua dizendo, em seu livro Mídia: Propaganda Política e Manipulação, que, em momentos de instabilidade política e econômica, de alta do desemprego e crises como tais, é preciso desviar a atenção da população para mantê-la resignada e a favor do status quo. E para tanto “é preciso incutir no cidadão o medo dos inimigos. Na década de 1930, Hitler incutiu na população o medo dos judeus e dos ciganos. [Nos Estados Unidos] nós também temos os nossos métodos. Ao longo da última década, a cada um ou dois anos criou-se um monstro ameaçador do qual temos de nos defender. Houve um tempo em que a opção preferencial à mão eram os russos. (…) Então foi a vez dos terroristas internacionais, dos narcotraficantes e dos árabes enlouquecidos, e ainda de Saddam Hussein, o novo Hitler que ia dominar o mundo. (…) Você assusta e aterroriza a população, intimidando-a a tal ponto que ela fica com medo de viajar e se encolhe apavorada. Em seguida, você conquista uma magnífica vitória sobre Granada, Panamá ou algum outro exército indefeso do Terceiro Mundo que se pode triturar num piscar de olhos. Isso dá um alívio. Fomos salvos no último minuto”.


Mas, veja, O Assassino: O Primeiro Alvo tem problemas facilmente numeráveis. Até porque, é raro se fazer um filme bom quando se tem um roteiro cheio de deficiências. A previsibilidade da ação soa insultante, e as falas de tão clichê e prototípicas soam jocosamente artificiais. O sentimentalismo do longa é forçado por atos aleatórios, mal justificados e desnecessários. Tenta-se dar uma dimensão faraônica ao clímax do longa que chega a ser cômico tamanha apelação descabida do roteiro. A sucessão de eventos narrativos, fundamental a uma história épica como esta, é apática, sem empolgação, bizarramente apelativa e, mais do que isso, recorrente em lugares comuns. É absurdo como o longa usa de tudo do mais genérico possível como uma grande muleta para a construção da história. A consequência disto é que ela não empolga, torna-se apática, desinteressante – por mais da grandiosidade dos atos, que, se mal contados, sempre vão ser pedantes.

Na verdade, O Assassino: O Primeiro Alvo, força o desagrado na narrativa. Ela é repetitiva, redundante, as cenas de diálogo são quase desimportantes. Tudo parece uma desculpa para se criar cenas de ação que, essas sim, perdurarão por boa parte do longa. O Assassino: O Primeiro Alvo não pensa muito em tornar sua narrativa de jornada épica empática, instigar com a busca do herói pela seu objetivo – até porque nesse sentido a história é bem truncada, confusa, mal explicada. Ele dá pouco espaço para essa construção passional, desse sentimento de entusiasmo e desespero provocado em empatia à busca do herói. Esta dimensão sensível é estabelecida da forma mais genérica possível, com frases patrióticas cafonas, protocolares e vazias que nada mais são do que lugares-comuns, chavões insignificantes e inexpressivos.

Se O Assassino: O Primeiro Alvo tenta nos entusiasmar, é pelas cenas de ação repletas do suspense mais barato e apelativo. É óbvio que ele nos causa apreensão. Contudo, não é uma apreensão catártica: ela é deslocada da narrativa, não tem valor simbólico nenhum e nem se quer ajuda a tornar o personagem mais marcante ou empático. É uma apreensão momentânea, meramente fria e que se esgota assim que a cena termina. E, por fim, os personagens são nada mais nada menos que apáticos de tão genéricos, como o resto do filme. Não há muito do que dizer: eles não incitam a piedade, o afeto, a empatia… nada. São frios de tão emocionalmente superficiais que são. Não nos convencem de seu idealismo, pois este é todo formulado em torno de um patriotismo que beira o caricato, a paródia. Aliás, eles além de não serem personagens cuja luta pelos seus valores nos invoca a piedade são, na verdade, quase que uma caricatura desses. Até Michael Keaton (Birdman) se sai jocoso e parvo de tão caricato que é o seu personagem, com falas cafonas e vulgares.

O direção de Michael Cuesta, que assinou já o elogiado Sem Saída (2001), até que não é um desastre estético. O filme é bem filmado e coreografado, embora protocolar e sem nenhum pingo de originalidade. A fotografia apenas reproduz, da forma mais automática e didática possível, a atmosfera requerida pelo longa. A consequência é que esta, a atmosfera, acaba por se tornar também estereotipada e, assim, genérica. No fim das contas, O Assassino: O Primeiro Alvo, não parece ser muito além de uma propaganda que justifica o imperialismo estadunidense a partir da “demonização” e representação da comunidade islâmica como a pura encarnação do mal – e os países de maioria islâmica como o grande covil do mal deles, que irá atacar a pureza da dignidade dos valores estadunidenses. Assim, se cria “o medo pelo inimigo”, e o anseio bélico de combatê-lo.

O Assassino: O Primeiro Alvo

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