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Crítica | O Jantar

Publicado por Giovanni Rizzo

05/09/2017 09:57

Relevância, talvez essa palavra prevaleça na cabeça de roteiristas, produtores e diretores na hora de tocar um projeto. É claro que todos desejam que sua obra converse com o público e tenha certa importância. Isso ganha ainda mais peso caso a relevância venha munido de uma crítica controversa, ou seja, tenha uma temática que fuja do senso comum. Assim, o que se passa é uma possível ditadura temática, onde obras prevaleçam-se por aquilo que falam e não o modo como isso é colocado na tela.

O Jantar é um típico caso desses, uma obra que deseja falar polemicamente, ou demonstrar sua visão sobre os mais variados temas em pauta na sociedade, sem ao menos definir um olhar cinematográfico para aquilo que narra. O longa fala sobre hipocrisia política, sobre racismo, sobre uma impossibilidade de uma geração passar seu conceito de ética e moral para outra; tocando ou tangenciando esses temas tentando fugir do senso comum.

O filme parte do pensamento de que teoricamente possui um personagem alinhado com aquilo que vem sendo celebrado no cinema e na Tv. O famoso homem mal, diferente do restante da sociedade, homens com posição totalmente avessa aquela que a moral e bons costumes pediria, mas que de certa forma é o que o espectador gostaria de realizar. No caso de O Jantar, ele assume o papel Paul Lohman (Steve Coogan), um intelectual professor de história, com ideias que não combinam muito bem com seu tempo presente. Esse homem tem um irmão, político bem sucedido que almeja um novo cargo. Um não suporta as características do outro, mas nesse dia específico necessitam conviver para um jantar que os colocará frente a frente.

Talvez esse personagem principal reflita o filme, esse pedantismo irônico, munido de uma falsa inteligência colocada em seus diálogos. O longa começa com uma narração do protagonista fazendo uma comparação entre o declínio americano e outros períodos históricos desde a Roma antiga. A primeira parte do longa pode ser resumida em um homem reclamando de ter a necessidade de participar daquele jantar. Como se acha superior, como aquele mundo não é o seu, como ele não pode participar daquele culto de tamanha convenção social e assim por diante.

O longa, após longos minutos, chega ao jantar presente no título, e se tudo dá a entender que o filme é um daqueles exemplares de obras que se constituem através das interações de personagens em apenas um ambiente em torno de uma situação, vulgarmente conhecidos como teatro filmados. Aqui ocorre exatamente o oposto. O Jantar é um filme que não consegue centrar em apenas um fato, em fazer com que sua narrativa gire em torno de algo ou alguém. O Jantar vai parecendo maçante e dá indícios que o espectador vê aquela refeição enquanto o filme parece desejar estar em outro lugar.

Assim que o diálogo começa entre os dois irmão e suas respectivas esposas eles dão a entender que algo aconteceu, um fato nunca colocado na mesa, aos poucos a chave vem sendo dada, problemas com os filhos, algo grave que pode mudar rumo das duas famílias. Esse jogo realmente poderia ser interessante, se de fato as revelações ocorressem juntamente com os pratos que chegam àquela mesa. O filme faz com que o evento que nomeia o longa seja praticamente um martírio. Naquele momento protagonista segue fazendo suas considerações desnecessárias, fazendo digressões que pouco conectam-se com que o longa quer dizer, enquanto o outro demonstra-se muito ocupado, afastando daquilo que deseja conversar.

Durante o jantar quase nada é de fato trocado, como se ali não houvesse o motor do filme, mas uma ocasião que os personagens apenas se encontraram e seguem suas vidas, de maneira nada dramática e isso nem ao menos é uma opção de experiência estética. Como se fugisse daquele jantar em família também, o longa mostra todos os acontecimentos que motivaram aquele encontro através de flashbacks, evidenciando sua impossibilidade de apenas centrar sua narrativa em um simples fato, em simples diálogos. O Jantar parece um filme que abre parênteses dentro de parênteses, memórias que partem para outro flahsback, que colocam mais uma informação para um personagem, no final das contas há um excesso de conhecimento, onde tudo está embaralhado, mas nada é de fato o centro do filme.

Há ali ingredientes, mas com certeza não há receita. O longa ainda toma caminhos estéticos que beiram o brega, como um letreiro de gosto duvidoso que separa a entrada, do prato principal e da sobremesa, assim como a óbvia utilização de cores frias para demonstrar a aspereza daquele universo e de seus personagens. Há também pouca inspiração para construir aquela narrativa emaranhada de informação na sua forma visual.

O longa, ainda segue por uma vertente de certa ironia crítica com o passar do tempo, algo que não surge de uma resposta de seu protagonista, o homem difícil daquela narrativa, muito menos do resumo do que foi aquele jantar, a impressão é que poderíamos passar sem ele. No final das contas a jornada que se vê em cena é extremamente duvidosa, não por deixar o espectador questionado sobre aquilo que viu, mas por não entender por que tantas voltas e tanta informação despejada ali. O Jantar sofre com uma pretensão que não deixa o filme enxergar o quão óbvio e pouco inspirado é sua narrativa.

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