Crítica | O Sequestro

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Uma mãe tem o filho sequestrado, instintivamente ela pega seu carro e parte numa busca constante pelos sequestradores de seu filho. Essa pequena frase resume o que é O Sequestro, filme de suspense, com nome genérico, contendo uma estrela hollywoodiana que há tempo não está envolvida com um grande projeto, atendendo pelo nome de Halle Berry. Todos elementos caracterizariam um filme que parece não caber em nenhum sentido nas concorridas salas de estreias da semana. E se O Sequestro tem seu ar de filme de suspense transmitido na madrugada da TV aberto, suas qualidades existem justamente por assumir esse seu lado.

O Sequestro é um filme direto, preocupado exclusivamente com aquilo que se vê na tela, sem investigação psicológica, muito menos alguma contextualização, ou leitura social daquele caso visto ali. O longa se constrói em torno de um acontecimento e apenas isso, uma narrativa que nunca é levada para um outro lugar, ou explora suas consequências, muito menos suas causas. O Sequestro deixa evidente que a única coisa que importa realmente naquela narrativa é uma criança raptada e o desejo irrefreável de sua mãe para recuperá-la.

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Além de ser objetiva, essa condição direta da narrativa faz com que atenção do espectador vá apenas para este fato, assim como aquilo é o ponto mais importante na vida de uma mãe. Ou ela recupera seu filho, ou nada, nem causas nem consequências, teriam importância. Com isso o filme ganha contornos de urgência, resumindo-se a ser apenas um filme sobre essa resposta a um fator externo, contrariando os mais bem sucedidos conselhos de roteiros, algo que pauta até os mais comerciais dos blockbusters.

Evidente que vez ou outra o filme se rende a uma dramatização exagerada, implorando por alguma adesão emocional por parte do público. O longa começa com um vídeo de um garotinho, aparentemente feito por um celular, numa tática de conectar o espectador com algum carinho por aquela criança, algo totalmente desnecessário pela força da perda de um filho por parte de uma mãe. Outro momento é através de uma conversa telefônica, em que o espectador toma ciência que o pai do garoto tenta tomar sua guarda. Dois pontos que parecem querer forçar essa adesão emocional, algo que vai contra toda essa concisão objetiva do roteiro.

No mais, O Sequestro é um típico filme de perseguição, não na chave referencial, ou como homenagem aos car chase que figuravam os cinemas americanos nos anos 1970. Esse longa é um exemplar do gênero por si só. Um filme onde todas as opções estéticas giram em torno da perseguição de carro. As ideias visuais do filme, a tensão criada no suspense de O Sequestro surge de uma mulher, uma estrada, e um carro, do qual praticamente não se enxerga seus condutores. Em tempos de blockbusters absolutos, surge um filme tipicamente B, simples, direto e com objetivo de fazer sua catarse única e exclusivamente da sua tensão.

Assim, como a maioria dos filmes Bs, e principalmente dos Car Chase, O Sequestro é um típico filme de artifício. Onde os aparatos cinematográficos são indispensáveis para a construção da narrativa, desse suspense, principalmente a montagem que coloca a todo o momento em confronto o carro da perseguidora com os dos sequestradores. Nesse ponto, O Sequestro imprimi uma tensão digna e eficiente, envolvendo por completo o espectador naquela perseguição. Se nesse ponto o filme é eficiente, há um deleite excessivo do diretor Luis Prieto na sua condição de realizador de artifício. Talvez na tentativa de mostrar variedade estética num filme feito dentro de um carro, o cineasta faz planos desnecessários, mirabolantes que não necessariamente auxiliam a contar sua história, contrariando a objetividade contida em tantos outros aspectos.

O Sequestro torna-se um filme maquínico em todos os sentidos. Na condição do artifício cinematográfico, como também no pensamento tecnicista de seu diretor, mas sobretudo e mais interessante, na relação entre sua protagonista e a máquina. Onde aquela perseguição só é possível pela relação entre carro e motorista. Se a montagem frenética ajuda a construir o suspense, ela é ainda mais eficiente ao fazer máquina e mulher serem um só na busca por seu filho.

Os planos detalhes que focam em partes do automóvel, e no constante ponteiro do velocímetro aumentando com o passar da trama, imagens alternadas com closes em Halle Berry, faz com que ali haja uma sintonia. Aquela mulher passa a ter uma armadura mecânica, como se transformara-se numa heroína movida por seu bom motivo e munida de seu único artifício tecnológico. Aquela perseguição, aquelas situações, aquela possibilidade de desfecho só existe por causa de um carro, esse é o artifício da personagem e o filme é justamente sobre isso.

Pode até ser demodê essa relação entre homem e seu veículo, algo totalmente oposto ao que se encontrava nos anos 1970. Todavia esse pensamento é condizente com tudo aquilo que o filme propõe. O Sequestro é um bem armado artifício cinematográfico, coerente com suas propostas. Às vezes um típico filme B, um mero suspense de final de noite pode dar uma boa arejada no circuito.

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