Crítica | Polícia Federal: A Lei É para Todos

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Polícia Federal: A Lei É para Todos é um daqueles filmes para colocar um nó na cabeça de quem o analisa, ou propõem uma leitura crítica frente à obra. Não por sua engenharia narrativa, muito menos por alguma experimentação estética que foge dos padrões já conhecidos, mas sim por ser construído em torno de um fato que há mais de um ano ajuda a polarizar o debate político no país: a operação Lava Jato. Diante disso, parece que não se posicionar, ou aparentar isenção seria um meio para abordar qualquer assunto relacionado ao turbulento momento histórico que se passa. Todavia, qualquer discurso é indissociável de sua ideologia, esse texto mesmo é munido de todo repertório ideológico de quem vos fala. A imparcialidade é praticamente impossível em tempos de polarização.

Diante disso, Polícia Federal: A Lei É para Todos não está livre de um discurso, de uma ideologia, de colocar sua visão sobre o tema que aborda. A aparente isenção que surge para evitar um debate acalorado em torno do filme vai ruindo diante da construção discursiva do longa, e todo filme é um discurso. Nesse fator indissociável entre temática, política e produto audiovisual, o longa usa de maneira perigosa sua aparência (frágil, acima de tudo) de isenção, onde o longa se apoia na sua técnica, no seu ritmo e no seu gênero para construir e levantar considerações sobre o momento político.

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Como todos sabem o longa é uma dramatização dos bastidores da Operação Lava Jato, desde seu início até a condução coercitiva do ex-presidente Lula. Polícia Federal: A Lei É para Todos foca no trabalho de delegados e procuradores da PF durante esse caso, assumindo completamente o tom e atmosfera de um Thriller político. A ação da polícia federal ganha contornos de grandes perseguições e tramas com alto grau de emaranhados investigativos. A empolgação em relação à operação se materializa na forma de um filme de gênero.

Talvez, de fato, esse seja o maior trunfo do longa-metragem. Em comparação a filmes como Federal (2010), Operações Especiais (2015), entre outros é o que se sai melhor na feitura de um gênero consagrado pelo cinema americano. Uma emulação de códigos bem específicos, sendo estes utilizados ao em torno de uma notícia brasileira, fazendo com que a operação Lava Jato se encaixe nos rígidos clichês do gênero. Ainda assim, Polícia Federal: A Lei É para Todos se sai bem na feitura de seu gênero, não precisando exagerar na sua ação, não colocando situações surreais, mas fazendo a empolgação surgir da sua aproximação com a realidade, a utilização de locação reais onde os fatos realmente aconteceram, a utilização de documentos e imagens de arquivo. A empolgação do ritmo colocado pela montagem com a noção da aproximação do real faz com que o longa envolva o espectador.

Essa narrativa emocionante pautada pelo hiper-realismo é acrescida de um trabalho técnico invejável. Polícia Federal: A Lei É para Todos demonstra todo seu valor de produção, grandes planos, grandes movimentos de câmera e cenários que aparentam essa realidade. Como se o filme entrasse numa certa condição de padrão de qualidade, como se seu revestimento técnico validasse tudo que está na projeção durante seus 107 minutos. Essa tríade constituída pela encenação do gênero empolgante já consolidado, pela perfeição técnica e pelo realismo faz com que todo o discurso esteja abaixo dessas três camadas, aquilo que se fala toma outros contornos, escondendo até certo ponto aquilo que o filme verdadeiramente pensa.

Assim, não é difícil encontrar momentos que o longa escapa em seu maniqueísmo, ou até mesmo nas suas posições, como se seu real tom estivesse numa segunda ou até mesmo num terceiro nível, mas ainda assim presente. Como num momento em que um delegado diz que o importante é pegar quem colocou o jabuti em cima da árvore, e não o animal, a cena é cortada para um panfleto da também ex-presidente Dilma. Discurso que diz pouco, mas mostra muito da consciência do filme. Protegido por uma fala que a interpretação é aberta aos olhos do público, porém as leituras são feitas a partir de sentenças colocadas em cena.

O mesmo ocorre, por exemplo, com seu núcleo de protagonistas, homens movidos apenas por boas intenções, sempre no lado bem intencionado de suas ações, como se nada desequilibrassem aquela conduta, como se a dúvida não fosse pauta daquela corporação. Se isso faz com que o filme coloque seus personagens principais no lado bom da história – algo muito perigoso para um processo que ainda não acabou – há também uma falta de profundidade naqueles seres, fazendo deles homens pouco desenhados, movidos apenas por boas intenções. O único que foge parcialmente disso é Julio Cesar (Bruce Gomlevsky), que se demonstra violento e impaciente em muitos momentos, mas um núcleo paralelo desse protagonista com um pai crítico da operação e uma mãe doente faz com que esse desenho seja jogado de novo na unilateralidade, utilizando uma espécie de chantagem emocional no âmbito familiar. Julio Cesar, assim como os outros, é um homem que sempre age da maneira correta, em casa ou no trabalho.

Sim, poderá ser dito que há num momento final um diálogo sobre a dúvida em relação à Lava Jato e quem ela colocará no poder. Todavia, isso se torna uma vírgula, após um longo e duradouro discurso cheio dessa pré-estabelecida verdade fílmica. A dúvida nunca chega a ser um ponto central do filme, mas uma espécie de mea-culpa, como se assinasse um habeas corpus contra qualquer acusação de parcialidade. Fato é que Polícia Federal: A Lei É para Todos reapresenta os famosos fatos como se aquilo fosse a versão definitiva dos ocorridos, não afirmando que aquela é a sua visão.

A grande questão é justamente essa, não a visão que o filme defende, para ficarmos na política basta notar a celebração que um diretor como Clint Eastwood recebe dos críticos de esquerda, e obras de cineastas esquerdistas como Gillo Pontecorvo são rechaçados por seu próprio quadrante político. O fato é tentar negar a todo o momento que o discurso é imparcial, que a isenção está em evidência, quando o seletivo está ali em todos os planos. Assim, Policia Federal: A Lei É para Todos se acovarda ao não assumir aquilo que acredita, ao tentar transmitir a isenção quando isso é praticamente impossível. Aquilo que é cinematográfico é indissociável do político, em qualquer hipótese.

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