Billie Jean King certamente foi uma das maiores atletas do século XX. Ganhou 12 Grand Slams em simples e 27 em duplas (16 nas duplas femininas, 11 nas mistas). Liderou o ranking mundial durante os anos ’60 e é parte do hall da fama do tênis desde 1987. A estadunidense levou um Australian Open e um Roland Garros, seis títulos em Wimbledom e quatro na sua casa – o US Open – no torneio de simples. Contudo, sua grandeza é destacada pela luta por igualdade de gênero e liberdade da comunidade LGBT.

Em 1973 ajudou a criar um circuito de tênis feminino independente dos grandes dirigentes do tênis (não é necessário dizer, todos homens brancos), o que significou um boicote aos torneios – inclusive, e sobretudo, aos de Grand Slam – dada a diferença salarial e da premiação entre mulheres e homens. Fundou a Associação de Tênis Feminino, que tem alcance mundial como entidade. É assumidamente homossexual, e talvez tenha sido a primeira atleta de alto nível a se assumir. Em meio a onda de movimentos feministas dos anos 70, King se tornava uma figura cujo protagonismo político incomodava o status quo sexista.

Bobby Riggs, tenista aposentado acima de 50 anos à época, decide então propor um desafio à King: uma partida de tênis entre os dois. Se ele, Rigss, vencesse, estava provado que, como o próprio dizia, “as mulheres são ótimas… só na cozinha e na cama”. Seria um contramovimento à igualdade uma derrota de King, um argumento pró diferença de salários no tênis (e apagamento do tênis feminino), mas de impactos profundos à sociedade: Riggs se transformou em um símbolo do sexismo, se intitulava “porco chauvinista” e falava coisas que o comprovava o título. Sua vitória simbolizaria a vitória desse discurso? Bom, a questão é que o jogo, que ficou conhecido como “A Batalha dos Sexos” (embora hoje, é bem sabido, deveria ter sido intitulado batalha dos Gêneros), terminou com um passeio da lendária tenista: 6-4/6-3/6-3, vitória simples por 3×0 de Billie Jean King.


Valerie Farris e Jonathan Dayton não são nenhuma novata ou novato. Passaram boa parte da carreira dirigindo videoclips de rock, e se destacam uma série dos que fizeram para bandas como Oasis, Red Hot Chili Peppers – foram eles que dirigiram o clipe de Clifornication -, REM e The Smashing Pumpkins. Seus auges, contudo, foram quando dividiram a direção de Pequena Miss Sunshine (2006). A comédia (bem) indie estadunidense foi indicada ao Oscar de Filme (acabou ganhando Roteiro Original), BAFTA, Globo de Ouro e companhia; venceu a categoria de filme estrangeiro no César, levou prêmios nos festivais de Palm Spring e San Sebastián.

Agora, Farris e Dayton (que à exemplo dos Coen, dos Dardenne ou da dupla Juliana Rojas-Marco Dutra aqui no Brasil costumam trabalhar juntos), contam a história do boicote das tenistas lideradas por King e de sua vitória na batalha dos sexos. A Guerra dos Sexos, como ficou o título nas nossas terras, é um filme bem sessão da tarde – por mais que mantenha sua aparência indie. A fotografia é feita com película – não com digital – o que dá todo o tom vintage e etc. Ela é bonita, traz planos de iluminação soturna com outros mais enérgicos porém com mesma tensão e inquietude.

As cores são meio neon, há uma paleta que quer remeter aos anos 70, aos tempos de rebeldia. Ela brinca entre o contraste de luzes e o neon de um filme neo-noir (talvez Veludo Azul seja um exemplo, mas com menos sublimidade que o filme de Lynch) e a palidez de cores típica de Wes Anderson (tipo Os Excêntricos Tenenbaums) e as comédias dos Irmãos Coen (tipo Um Homem Sério). O visual, ainda, lembra um pouco (mas também sem a mesma sublimidade) Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. A iluminação é importante para narrar a história, com seus contrastes entre um amarelo ocre e um azul marinho dando o tom de embate e confrontamento de ideias e ideais que o filme todo carrega. Aí você diz: “nossa, que filme mais tipicamente estadunidense”. Pois é, este cenário só se “agrava” quando o tom dele se consolida como aquele de discurso de superação pessoal, da romantização da jornada do herói, algo como nos bons filmes de Spielberg ou Robert Zemeckis (Forrest Gump, De Volta Para o Futuro).

O resultado é que Farris e Dalton, felizmente, usam do sentimentalismo romântico da superação pessoal e vitória sobre obstáculos sem parecer entediante, jocoso ou medíocre. Pelo contrário, este está em um tom agradável, sucinto, suficiente e bem dosado. Ele é útil para motivar a torcida do público em prol da luta de King. Para tanto, vale ressaltar o bom trabalho de Emma Stone, consistente no papel. Bom trabalho da atriz, empático e sedutor.

E assim se constitui, dado o gracioso e idealizado caminho que traça para a história, uma simpática narrativa romântica heróica. É fato que, talvez, ele derrape em alguns momentos e force um pouco a barra para idealizar e dar sentimentalismo a momentos em que não deveria. Há alguns “deus ex machinas” na narativa e falas de efeito caricatas que são mal posicionadas para evocar esse sentimentalismo. Mas isso não enfraquece a empatia da história, não a sua graciosidade e nem o tom espirituoso que são prazerosos. Talvez por isso, por esse estilo romântico e essa linguagem mais idealizada em torno dos valores típicos de um imaginário mais hollywoodiano que tenhamos A Guerra dos Sexos na corrida do Oscar.

Contudo, aquilo que seria mais feliz caso ele entrasse nas categorias do Oscar seria, certamente, o fato de se posicionar enquanto filme feminista e não querer outro título mais que esse. São raros os filmes feministas, sintomas óbvias de um mercado com pouquíssimas mulheres em lugar de criação e autoria – como em todos os outros setores de poder da sociedade. Logo, o novo filme de Emma Stone é uma romântica jornada heróica feminista. E bem realizado, assumindo do sentimentalismo hollywoodiano (como o são A Felicidade Não se Compra e tudo o mais).