Crítica | Churchill

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Filmes biográficos, por muitas vezes, acabam por se tornar uma ingênua e desmedida idealização do seu homenageado. Um tributo sensacionalista, baseado nos chavões românticos de heroísmo. E quando isto acontece, costuma ser um problema. Por que? Churchill bem nos exemplifica: se o retrato biográfico pretende ter um estilo realista, o idealismo quebra com toda essa pretensão; se queria ter um estilo romântico mesmo, o idealismo é tão sensacionalista e piegas que acaba por ser jocoso e grotesco.

Churchill tem seus bons momentos, mas no fim das contas peca por parecer mais uma propaganda que uma peça de arte. De Winston Churchill todos já sabemos: histórico líder do governo britânico durante a Segunda Guerra, filiado ao Partido Conservador Britânico, foi ainda laureado pelo Nobel de Literatura em 1953 – e de fato seus discursos no rádio durante a Guerra impressionavam. Este longa sobre o ex-Primeiro Ministro dos britânicos se passa durante os últimos quatro dias antes do famigerado “Dia D”, no qual as forças Aliadas realizaram a operação que permitiu-lhes a entrada na praia da Normandia e, a partir daí, a tomada da França das forças nazistas.

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Se é para começar pelos bons pontos de Churchill, que o façamos. O diretor australiano Jonathan Teplitzky, o responsável pelo longa sobre o líder conservador, demonstra que não é todo mal intencionado: com o auxílio de David Higgs, o diretor de fotografia, pincela sutis quadros enternecedores, com tons frios e fecundamente iluminados, colocando uma dose de idealismo por detrás das imagens que não soa exagerada, desmedida. Ele instala com simplicidade e discrição retratos heróicos e de exaltação a partir da fotografia, além de dar um ritmo suave e brando ao longa que reproduz bem a angústia de um senhor exausto prestes a realizar sua operação militar mais importante ao mesmo tempo que remete a toda sua pompa sublime. E por esta estratégia de retratos heróicos e de exaltação das figuras grandiosas que protagonizam o filme, fica aqui clara a carga ideológico que tem Churchill: reverencia figuras que representam líderes conservadores, representantes-mor da ordem das burocracias vigentes de poder e da organização social – além de representarem ideais patrióticos. Os generais estadunidense Eisenhower (John Slattery), Montgomery (Julian Wadham), e o rei George VI (James Purefoy) são tão grandiosamente homenageados no longa como é o próprio primeiro-ministro.

Mas o filme, além do convincente romantismo do seu estilo visual, tem o ponto forte que são as suas atuações. O protagonista, Brian Cox, vai muito bem, cria um personagem carismático, espontâneo, cativante. O elenco coadjuavnte se soma a Cox neste mérito, em especial Miranda Richardson com sua forte personagem Clementine Churcill, a esposa do primeiro ministro. O seu papel ativo, crítico e interferente politicamente a torna uma figura que, para o filme, teve um comprometimento com as decisões de ordem política para a Grã Bretanha que desmente completamente o ideal machista de mulher retida aos deveres domésticos. É notório, no filme, que há esta barreira entre mulheres e homens que cerceia as ações políticas de Clementine, mas mesmo assim esta não se intimida e acaba por ter um papel decisivo para os britânicos na vitória aliada da II Guerra. A personagem de Clementine é certamente um reflexo na indústria do cinema das lutas contra o machismo, por mais que ainda possa não ser o ideal necessário.

Mas, passado isto, chegamos pois ao ponto que torna Churchill um longa muito cúmplice ao pedantismo. Até porque Kurosawa já dizia que com um roteiro pouco aproveitável nem mesmo o melhor dos cineastas faria muita coisa. O longa é uma ingênua e, pior ainda, estereotipada, calcada em lugares-comuns do gênero, vulgar e repetitiva romantização sentimentalista – e daquele sentimentalismo monótono, maçudo, cansativo. Ficamos por uma hora e meia ouvindo os personagens falarem frases clichês sobre honra, mérito e outros tópicos piegas do tipo. É de se custar a crer que líderes políticos como tais apenas pensassem em meros sensos comuns (ou que pelos menos nos diálogos de estratégias de guerra apenas os reproduzissem). São diálogos que ressoam o pedantismo mais piegas.

O filme todo tem esse desagradável sensacionalismo que coloca Churchill como um sacrossanto de moral inabalável, e ainda por cima, para representar isto, usa-se de estratégias que não passam da recitação de estereótipos. É desapontador um retrato tão simplório e previsível de Winston S. Churchill, uma figura tão polêmica e divisora de opiniões. É tão piegas que chega a ser caricaturesco por vezes, e de uma presunção “idealizante” vamos para um resultado final jocoso. Um pouco de senso crítico por detrás da figura de Churchill, talvez, ou a menos um olhar mais polêmico e provocador acerca dos eventos e dos significados destes por detrás do Dia D… Ou, pelo menos, alguma originalidade e encanto na hora de simbolizar o idealismo desejado para os personagens – e não usar de chavões exagerados para tanto.

O diretor Teplitzky ainda não tem um grande filme em sua carreira. Os maiores, Uma Longa Viagem (2013) e Burning Man (2011), tiveram morna recepção. Por mais da certa beleza estética e bom carisma dos atores, a insignificância das falas e das caracterizações em Churchill acaba por não torná-lo, ainda, esse grande filme de sua carreira.

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