Às vezes os filmes podem dar simples prazeres, talvez esses não sejam as grandes obras do cinema e alguns nomes muito habilidosos conseguem aliar uma simplicidade dos pequenos prazeres a obras extremamente autorias. No mais, esses filmes estão sempre associados ao consumo rápido do espectador médio, seja lá o que isso signifique, todavia o que se pode saber é que de fato, longas como De Volta para Casa são sempre realizados com fortes amarras de um cinema comercial, sempre palatável e muitas vezes recorrendo aos mais precários clichês.

De Volta para Casa é um típico filme desse estilo, algo que poderia muito bem animar uma tarde na televisão, ou um passeio mais despretensioso ao cinema, categorizando-o como esse simples divertimento. Todavia, seria injusto com o próprio filme classificá-lo apenas dessa forma, sendo um longa que parte da simplicidade para construir momentos que visam alguma distância das comédias românticas para o grande público.

De Volta para Casa conta a história de Alice Kinney (Reese Whiterspoon), que após um divórcio aos 40 volta para Los Angeles, a fim de se reestruturar na casa que cresceu com seu pai, um famoso cineasta dos anos 1960/1970. Com as duas filhas, ela tenta livrar-se de uma vida anterior e tomar um novo rumo, próximo a um aconchego familiar.


O longa segue pelos caminhos dessa narrativa de reencontro consigo mesmo, uma espécie de comming of age tardio, um reencontro consigo mesma após uma certa idade. De Volta para Casa começa com um perigoso momento em que parece levar o filme ao constrangedor besteirol fora de época, com homens ou mulheres revivendo noites de bebedeiras e sexo a rodo, como se realmente regredissem em suas idades mentais. Se há uma sequência em que a protagonista sai e se embebeda isso não incomoda o espectador, a cena passa rápido, ela desperta o interesse de um rapaz mais novo e a festa acaba terminando em sua antiga nova casa.

Se nesse primeiro encontro que coloca o filme em trilhos perigosos realmente há grandes problemas de ritmo e até mesmo de como as ações são desenvolvidas. Há até um momento em que De Volta para Casa relembra uma novela, onde fatos estão acontecendo e a velocidade da imagem está acelerada e propositalmente não se ouvem a conversa do grupo de amigas com um grupo de homens bem mais jovens que ela. Num recurso pobre, De Volta para Casa faz uma elipse tentando mostrar o quão envolvente foi aquela noite.

Logo de início o filme toma essas decisões perigosas, que colocam uma dúvida se aquele longa se entregará a todos os clichês realmente. Mas é logo depois do descrito que De Volta para Casa começa a tomar um rumo bastante interessante, leve e divertido. Os garotos do bar acabam dormindo na casa de Alice, os meninos são pretensos cineastas como o longa mostra desde o início, e encontram na casa o recanto de um famoso cineastas, eles vêem seu grande sonho ali, como se estivessem num ambiente propício para se transformarem naquilo que desejam. O filme interessante existente em De Volta para Casa começa a ser construído quando aqueles garotos começam a dividir a casa de Alice.

Nesse sentido o filme começa a ganhar sentido, e a narrativa ganha muito ao compartilhar a pretensa construção de uma carreira pelos garotos e uma reconstrução da vida particular de Alice. Essa semelhança de jornada alimenta a empatia entre todos esses personagens. Os garotos fazem com que Alice perceba o quanto aquele lugar é realmente um lar, propício realmente para um crescimento pessoal. O mais divertido em De Volta para Casa é o fato do longa não desejar se envolver em uma trama de romances, focando justamente num relacionamento familiar que surge entre aqueles grupos.

Escrito e dirigido por Hallie Meyers-Shyer, filha da veterana de Nancy Meyers (Alguém Tem que Ceder; O Amor Não Tira Férias), o longa coloca uma questão interessante sobre essa personagem feminina, uma compreensão maior por parte do longa em relação às demais comédias românticas. O filme não faz com que os três garotos se apaixonem por ela, nem que ela seja uma quarentona sedenta por algum tipo de relação sexual ou emocional, ou ainda que ela se torne uma grande mãe de todos que vivem naquela casa, os garotos e suas duas filhas. O que é colocado no filme é justamente um sentimento de cumplicidade, de uma pessoa que em busca de se reencontrar, acaba encontrando amigos que compartilham sonhos, responsabilidades e um sentimento mútuo de interesse pelo outro, que faz com que todos torçam pelos outros.

Se o filme muitas vezes mostra seus problemas de ritmo e até uma simplismo no modo como a diretora filma, uma típica característica de alguém que faz seu primeiro longa. De Volta para Casa entrega um excelente timing cômico, em situações que realmente divertem, como o momento que o ex-marido de Alice faz uma visita e a diretora ridiculariza um sentimento masculino entre os garotos e aquele homem de desejarem mostrar quem manda na casa. Vale ressaltar também o afinado trabalho de atuação, que quase sempre soa no tom certo, sem exageros, mas longe de tentar ser dramática ou algo assim. O trio de garotos fazem humor com muito pouco, numa atuação que gera certo encantamento por aquelas figuras, engraçados, sem exageros, e sobretudo garotos interessantes. Nat Wolf, Pico Alexander e Jon Rudnitsky são uma grata surpresa em De Volta para Casa.

O longa realmente inspira essa simpatia, um filme que traduz esses prazeres simples, uma narrativa divertida e que realmente pode apenas divertir. O que chama atenção em De Volta para Casa é realmente esse desejo por fazer algo simples, que não necessariamente tenha que se abrir a todos os clichês, mas contar sua história com leveza e certa inocência. Um filme para se entregar e poder se divertir.