Doentes de Amor pode ser um título extremamente genérico para o peculiar longa biográfico de Kumail Nanjiani (Silicon Valley), comediante paquistanês que assina o roteiro do longa em conjunto com sua verdadeira esposa, Emily V. Gordon. Além de autor do texto fílmico, Kumail é o protagonista do longa, dando vida a ele mesmo, numa espécie de reencenação daquilo que claramente já ocorreu com ele.

Kumail é um jovem que vive em Chicago tentando ganhar a vida com seu stand up noturno. De dia, o rapaz sustenta-se como um simples motorista de UBER, e sempre que tem tempo está na casa de sua família, toda paquistanesa, vivendo sob as regras da religião muçulmana. Kumail já está no momento de se casar e sua mãe tem como objetivo encontrar uma jovem de mesma origem para se arranjar com seu filho. Cada moça entra para a extensa ficha de mulheres rejeitadas por Kumail, que não tem a coragem de confrontar sua família e, como ele mesmo diz, “o peso de uma tradição de mais de 1400 anos”.

O longa então acompanha os percursos desse jovem, que não consegue assumir seus passos justamente pelo fato de não conseguir se desvencilhar de tradições familiares. As coisas ficam ainda mais complicadas quando o garoto engata um relacionamento sério com Emily, interpretada por Zoe Kazan, sem nunca assumi-la para a família, mas também não contando para garota que tipo de pensamento ocorre dentro de sua casa. Doentes de Amor não gira em torno somente disso, não se tornando uma comédia sobre choques de culturas, sobre essa não aceitação de uma namorada ou algo do gênero, pode ser isso também, mas o longa consegue demonstrar-se realmente preocupado com as emoções daqueles personagens.


Esse fato social não é utilizado apenas como suporte cômico, não funcionando para criar eventos engraçados para o extenso repertório humorístico desses atores. Pelo contrário, a comédia existente em Doentes de Amor funciona numa outra direção, parece haver um humor que surge nos momentos mais dramáticos ou importantes, como se fosse uma piada deslocada, soltada no calor do momento por alguém que não sabe lidar com a situação, traduzindo o comportamento daquele protagonista.

Talvez seja justamente por isso que Doentes de Amor seja tão singular, pois consegue refletir sentimentos e características extremamente íntimas de seu criador/personagem. Há uma sensação de completa honestidade existente no filme, como se houvesse uma sinceridade em relação ao espectador. O longa que é dirigido por Michael Showalter não deseja chamar atenção também para esse processo de auto ficção, apostando num estilo sutil, que não deseja aparecer, que até evidencia a simplicidade do longa, mas principalmente faz com que o espectador se envolva realmente no mundo controverso daquele jovem meio americano e meio paquistanês.

Nessa sensação de honestidade, Doentes de Amor é um filme que consegue rir de si mesmo, ironizar a própria condição de seu auto biógrafo ao abordar seus erros, suas falhas e as situações que ele passa. O amor, a comédia e as convenções são os grandes pontos de Kumail Nanjiani, que aqui relembra as melhores auto-performances de Woody Allen – não duvidaria nada que o comediante passasse a dirigir em seus próximos projetos. Assim, é interessante como o filme consegue construir relações e informações que ao mesmo tempo são dramáticas e cômicas, por exemplo, um momento em que o ator é insultado no meio de seu show de comédia, algo relevante para a narrativa, que evidencia de maneira forte o preconceito e mesmo assim consegue gerar uma comicidade.

É impressionante também como o processo ficcional fica evidente no filme sem chamar atenção para si. Kumail Nanjiani faz espetáculos sobre sua condição quanto paquistanês na américa, almeja fazer monólogos sobre essa mesma condição com aspecto mais intimista e, por fim, o que se vê no longa é justamente esse artista colocando toda essa sua relação com seu próprio ser para fora. Falando dessa maneira, Doentes de Amor até pode parecer um filme um tanto quanto egocêntrico, todavia essa preocupação com o íntimo faz com que todas as relações humanas sejam tratadas com respeito, com uma investigação que tornam aqueles seres complexos e engraçados, um filme sobre realmente o que faz todos serem um pouco doentes.

O longa assume essa postura do amor desajustado em todas as instâncias sociais – o namoro, a família e os amigos -, o que fica em pauta no filme é justamente essa condição desse amor que por um lado gera alegria, mas por outro torna o protagonista incapaz de encarar suas verdadeiras consequências, como abrir mão das convenções que ele já não acredita. À medida que a projeção avança, o que que se vê são situações causadas por esse embate sempre evitado, sendo levadas as mais duras consequências. Doentes de Amor consegue a façanha de ser igualmente dramático quanto é engraçado, provocando no mesmo plano um riso pouco contido e até mesmo algumas lágrimas.

Às vezes o filme até pode parecer ter suas atuações um pouco acima do tom, uma comédia que sempre deseja estar presente, mas o espectador acaba se acostumando com aquele mundo, como se realmente entendesse que está vendo a vida pelos olhos daquele comediante. A sensação no final das contas é como se o filme fosse uma conversa franca com Kumail Nanjiani, e a sensação é que no final das quase duas horas de longa o espectador sai amigo daquela figura, facilmente identificável em suas singularidades, até porque todo mundo tem essa doença.