Em Visages, Villages, outro importante filme presente na Mostra Internacional de São Paulo, Agnès Varda parece indagar em sua obra qual será a imagem que deixará após seu fim, ou pensar o que ela fez contra seu esquecimento. Claramente um olhar de uma artista em relação àquilo que deixa como sua herança. Em 24 Frames, o que ocorre é uma situação posterior ao pensamento de Varda, aqui o projeto póstumo de Abbas Kiarostami resume muito bem a imagem deixada pelo cineasta, aquilo que sempre será considerado como muito particular de seu cinema.

Falecido no ano passado, Abbas é um nome que marcou profundamente história do cinema contemporâneo, criando modos bastante particulares para realizar suas narrativas, onde suas imagens pediam para o público completar seus próprios sentidos. Um cinema da incompletude, baseado em cenas que buscavam a expressão máxima na simplicidade das coisas, buscando a contemplação de pequenos momentos, gerando uma filosofia em relação a essas imagens.

Isso é a essência de 24 Frames, numa explicação quase didática do que era o pensamento cinematográfico de Abbas Kiarostami. O longa se dá a partir de uma série de experimentações visuais do diretor, que foram realizadas ao longo de seus últimos três anos. Após sua morte, o projeto foi finalizado como um longa-metragem. 24 Frames baseia-se em 24 imagens, entre fotografias e pinturas, onde o diretor faz uma operação técnica para colocar movimento naqueles planos, uma contemplação em torno de quatro ou cinco minutos em relação aos movimentos numa cena comum, estática por excelência.


O longa pode remeter a outra obra de Abbas Kiarostami, como Five (2003), onde o espectador era convidado a contemplar cinco longos planos minimalistas e intimistas. Se aquela obra parecia muito mais concisa e intensa, parecendo compreender essencialmente a relação entre tempo e a absorção do público, em 24 Frames, talvez por não conter o olhar final do cineasta, essa precisão não é tão acertada, parecendo repetitivo em algum dos momentos. Todavia, o que há de mais interessante é perceber o quanto esse testamento cinematográfico está completamente ligado ao cinema do iraniano.

24 Frames é uma obra sobre os limites do registro pictórico, ou como o cinema e a imagem em movimento pode expandir as fronteiras da imagem. As obras de Abbas sempre, de uma forma inevitável, reflete um fazer cinematográfico que faz repensar todos percursos históricos do cinema, como o simples ligar de uma câmera e deixar uma situação se apresentar ao público, como faziam os pioneiros irmãos Lumière, tendo em Abbas uma reflexão filosófica daquelas imagens que cria. Aqui, no seu projeto isso vai além, remonta o pré-cinema, ou a fantasia de pensar como o movimento poderia ser captado e como isso alteraria quadros e fotografias.

Nesse processo de imaginação, Abbas cria cenas em que esses limites do quadro sempre são alterados. A questão do movimento é fundamental e muitas vezes está associado a uma ideia de fazer o imóvel transformar-se em móvel. Mas também está completamente ligado ao ponto em que uma representação pictórica é uma reprodução específica de um tempo e espaço, não podendo saber o que vem antes ou depois. O antes e o depois é uma questão que fica no imaginário diante de uma obra estática, podendo ser respondida pelas operações cinematográficas. As imagens do filme não se preocupam em constituir narrativas, mas um momento temporal a mais do que aquelas imagens estavam fadadas.

O espectador reforça os significados daquelas imagens, reflete-se sobre essa questão temporal, em imagens que não são dadas, mas pedem uma inserção na obra, fazendo com que sentidos e sentimentos sejam uma via dupla entre público e obra. Algo que está totalmente ligado com outra investigação das figuras, a relação entre o campo e extracampo, aquilo que estaria fora do quadro de representação. Assim há um jogo entre aquilo que entra e sai da figura contemplada pelo espectador, algo que é complementado pelo trabalho de som. A dimensão sonora parece sempre refletir o mundo para além do quadro, para além da imagem que se vê. Ou seja, o espectador está constantemente em contato com figuras incompletas por si só, sendo impossível captar um momento por completo pelos seus limites técnicos e estéticos – algo que afeta também a prática cinematográfica.

A narrativa daqueles 24 Frames estão além daquilo que se vê, como se o movimento cinematográfico também tivesse limites para expandir a experiência da representação pictórica, assumindo as impossibilidades da incompletude das imagens, sejam elas dinâmicas ou estáticas. O jogo estabelecido por Abbas surge até mesmo na tentativa de compreender em suas imagens o que é fotografia e o que é movimento, a cada frame isso está mais dissolvido, como se quase não houvesse uma distinção entre essas experiências. 24 Frames remonta a opção do cineasta por um cinema pouco ligado às artes literais e narrativas, em detrimento de um fazer cinematográfico ligado a experiência visual, conetado com as estética da pintura e da fotografia e seu aberto diálogo com o público.

Vale ressaltar a beleza do último frame, em que uma menina está sentada frente a seu monitor assistindo a um filme, nesse momento o que se vê na tela é uma cena frame a frame, não se vê uma cena em movimento, mas sim as fotos que reproduzem o movimento cinematográfico. Nesse momento, esse dinamismo que parece estar em jogo no longa é dissecado, evidenciando a conexão entre essas duas linguagens, mostrando a intersecção eterna entre o cinema, a fotografia e a pintura, todas baseadas numa simples e incompleta imagem. 24 Frames remonta toda a tradição do cinema, chegando finalmente no frame, como indica seu título, aquilo que é fundamental para a imagem em movimento.

24 Frames é o fechamento de uma de uma obra que consegue remontar toda uma tradição, um filme que pode não ser um grande Abbas, mas que sem dúvida alguma é um grande testamento cinematográfico. 24 Frames é uma síntese da obra de Abbas Kiarostami, que pode ser resumida em imagens simples, porém profundas. Mesmo que haja um melancólico the end em 24 Frames, sabe-se que haverá muito de Abbas no que fica do cinema.