Esplendor, novo filme de Naomi Kawase, parte de uma situação específica, e desenrola-se a partir dela. No caso uma jovem que passa a se relacionar com um homem que começa a ficar cego. Enquanto os dois se conhecem, ela trabalha na audiodescrição de um longa-metragem. O filme é trabalhado em cima dessa questão sobre a possibilidade de uma pessoa enxergar por outra, num processo empático de compartilhamento de sentidos, logo de sentimentos.

Esplendor é uma obra completamente ligada a essa sua questão principal, absolutamente tudo está conectado a essa sua temática. O filme gira em torno desse processo de audiodescrição e da cegueira que atinge aquele homem. Talvez seja o filme da diretora que mais esteja preso a uma questão narrativa, enquanto suas obras anteriores – como o brilhante Segredo das Águas – partia de uma situação para construir uma experiência de sensações sentimentais, aqui a tônica realmente é dado por sua temática. Um longa de Kawase extremamente preso a uma linha narrativa.

Isso ocorre claramente pela importância daquilo que o filme fala. Talvez seja a primeira vez que o processo de audiodescrição seja colocado na tela. E de fato essa é uma operação interessantes, esse processo de reconhecimento das sensações passadas por uma imagem, para que se possa traduzir em outra linguagem aquilo que o cinema causa. Algo bastante caro dentro da filmografia da diretora, um trabalho sempre preocupado com emoções e sensações. Fato é que pela sua importância Esplendor é um filme bastante preso a sua temática. Uma obra que deixa sua experiência sensorial em detrimento da explanação desse assunto.


Assim, o longa fica dependente de uma linha narrativa forte que sustente aquela temática. Isso ocorre através da relação entre os dois protagonistas. A troca entre a intérprete e o artista que começa a ficar cego funciona da mesma forma que o processo audiodescritivo. Primeiro pela independência de um sentir sem um sentido fundamental ao ser humano, e depois pela confiança em uma terceira pessoa para traduzir imagens e suas emoções. O longa tenta traduzir através de uma relação entre personagens a sua temática principal.

A questão é que isso surge no filme como uma clara operação de roteiro, um caminho encontrado pela realizadora para continuar fiel a seu tema. Algo que faz com que as emoções, ainda que pretensamente intensas, fiquem em segundo plano, estejam abaixo da temática numa linha sucessória. Naomi Kawase nunca foi tão subserviente a uma narrativa e isso faz com que seu longa perca em intensidade, é muito mais forte o interesse e importância daquele processo de audiodescrição do que realmente as sensações de seus personagens.

O Esplendor fica de fato interessante quando seu tema torna-se investigação formal, o estilo de direção também é pautado por aquilo que se fala, e a sensação passada pelo filme é sempre da impossibilidade do ver, um longa que tenta inabilitar, por muitas vezes, sua principal operação, a imagem. Constantemente, a câmera de Kawase se move de forma que as figuras não possam ser identificadas, que objetos passam pela câmera tornando tudo turvo, como a cegueira que atinge o protagonista. Ou até mesmo o trabalho com a profundidade campo, sempre reduzida elegendo apenas uma figura a ser vista. Kawase passa pelo mesmo processo de cegueira para evidenciar a importância da audiodescrição.

De fato, o momento mais bonito de O Esplendor acontece quando uma plateia assiste a um filme pelo olhar da protagonista, como se realmente evidenciasse a efetividade daquele processo em vias sentimentais. Resulta-se então na força das imagens ainda que elas não possam ser vistas, mas sempre poderão ser sentidas.

Esplendor se faz importante por colocar em evidência esse processo, todavia, o espectador sai mais ciente de sua existência e importância, do que partilha as emoções vistas naquela sala de cinema. No Filme de Kawase o tema é ao mesmo tempo seu maior trunfo e seu maior empecilho.