Críticas

Mostra SP | Crítica: Félicité

Félicité é uma mulher que vive numa área pobre do Congo e trabalha como cantora nas noites da região. A mulher vive sozinha com seu filho adolescente e se mantém sem precisar da ajuda de ninguém, passando o recado que pode realmente se manter forte, independente de qualquer situação. A mulher é dona de uma força incrível, conseguindo transformar aquilo que a derruba em motivação para cantar e se superar.

O longa é uma espécie de provação dessa personagem forte, desse ser em constante luta numa região e situação de eternos desafios. O espectador então passa a acompanhar essa protagonista em seu pior momento, justamente seu único companheiro, o filho Samu, sofre um acidente e Félicité precisa juntar um dinheiro para que uma cirurgia possa melhorar a condição dele. A mulher, seguindo seu modus operandi, parte numa jornada individual, para mais uma vez provar o quanto é forte, ou quanto é capaz de fugir de mais uma situação adversa.

Selecionado por Senegal para ser seu representante no Oscar, o longa dirigido por Alain Gomis impressiona por sua realidade, utilizando uma câmera que gruda no rosto de sua protagonista, e independente de onde Fèlicité esteja a câmera continuará ali. Nessa condição do real, o filme não se importa se em alguns momentos os ambientes ficam subexpostos, com um alto nível de ruído, o importante é que o longa capte as cenas nos mais sórdidos confins de um país subdesenvolvido. Esse hiper-realismo faz com que a jornada de Félicité pareça ainda mais forte, mais potente e mais urgente. Essa empatia emocional se dá principalmente por essa vestimenta de realidade contida no filme.

O longa torna-se uma obra extremamente forte, pautada por essa luta real, com uma câmera da imperfeição, assim como aquele lugar registrado. A peregrinação de Félicité é uma jornada de reafirmação, se mostrando como dona da ação em seu mundo particular. Ainda que para conseguir dinheiro para a operação de seu filho, a protagonista tenha que ir a uma série de lugares, até os bairros mais abastados clamando por ajuda, aquela é uma mulher da ação, daquilo que se faz para conquistar o que deseja.

Obviamente em mãos mais conservadoras ou menos habilidosas, Félicité poderia ser um melodrama sobre uma mãe que tenta salvar o filho ou alguma coisa do gênero. Esse não é o tom do longa, pelo contrário, aqui o realismo afasta qualquer possibilidade de emoção forçada, ou de sentimentalismo banal. Félicité é um filme da força.

No centro disso tudo está a excepcional atriz Vero Tshanda Beya Mputu, numa atuação física, em que o corpo se move nesses turbulentos movimentos rumo a desafios de sua realidade. Expressiva, a atriz demonstra essa imparável luta, culminando não só na conquista de seus objetivos, mas também num movimento de briga por se manter feliz e convicta, por ser possível cantar e mudar toda sua expressão depois de um dia de dor.

Esses são os momentos mais belos, quando o longa consegue extrair a beleza e felicidade dessa jornada, algo existente em pequenas situações, como no prazer que a personagem tem ao cantar livremente, ou quando seu filho retoma a vontade de tomar uma simples cerveja após alguns períodos de trauma. É necessário afirmar que se há beleza nessa força, nessa luta incessante, há também um movimento contrário tão forte quanto o primeiro. Como se o sofrimento fosse um parâmetro fundamental para ascensão da personagem principal.

Félicité não deixa de ser um filme da dor, e que anseia por mostrar esses momentos, como se quisesse escancarar a violência daquela realidade. O fato é que esse discurso não deixa de ser perigoso, ou pelo menos reforça um imaginário cinematográfico e audiovisual de uma realidade sangrenta nas periferias africanas. E ainda que realmente exista violência nesses lugares a questão aqui é justamente como se filma esse fato, é possível afirmar que há certo sentimento abjeto nessa câmera que gruda em personagens até mesmo nos momentos mais violentos, onde sangue de um linchamento na rua chega a espirrar na lente da câmera. Há uma exploração excessiva da violência das ruas, algo que agrada apenas ao espectador que tem curiosidade em saber acerca de uma determinada realidade de um país.

Nesse sentido essa capa realista é muito perigosa, pois petrifica a brutalidade como se fosse uma imagem capturada dentro do mundo real, como um documentário totalmente isento – algo não existente nem mesmo no campo documental. Portanto, assim como o filme mais sentimentalista e melodramático, Félicité também é construção, e a violência que está apresentada ali é tão gráfica e realizada quanto o filme menos realista já feito. Assim, nessa opção pela brutalidade, fica até o questionamento se é realmente necessário que o espectador veja a protagonista passando por todos aqueles desafios, apanhando em algumas ocasiões, ajoelhando por dinheiro em outras, algo que possui sua pequena parcela de espetacularização da humilhação.

Sorte é que Félicité é um filme que possui esse equilíbrio de força entre sentimentos tão oposto, e talvez sua força afetiva seja igualmente forte as suas controvérsias violentas. Um filme que carrega felicidade no nome não poderia conter apenas um elemento sangrento, e de fato é isso que carrega o longa como uma obra que se diferencia em partes a um retrato do continente africano, ali não existe só dor, mas momentos de beleza que surgem nas horas mais improváveis.

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