A história de Gabriel Buchmann ganhou imediata repercussão, o caso do brasileiro que desapareceu numa trilha rumo ao topo de uma famosa montanha africana, sem guia e totalmente perdido. Gabriel ficou 19 dias desaparecidos até seu corpo ser encontrado. A trajetória do garoto no continente africano poderia gerar diferentes filmes, mas parece que Felipe Barbosa faz o certo. Gabriel e a Montanha refaz os 70 últimas dias da passagem do jovem pelos mais diversos países da África subsaariana, num filme sobre a perda e sua conexão com uma autodescoberta.

Amigo de infância do diretor, o longa tem um cuidado ao fazer um retrato ético de Gabriel e sua trajetória, uma história extremamente emocionante que facilmente cairia nas armadilhas do sensacionalismo melodramático. O longa então faz uma espécie de investigação para entender como retratar aquela situação, como fazer um filme que possa envolver sem perder suas responsabilidades, como conseguir homenagear a aventura de Gabriel sem retirar a humanidade e a verdade do personagem real. Perguntas difíceis que o filme parece responder.

Assim, Gabriel e a Montanha é um longa totalmente ligado ao dispositivo que constrói para sua ficção, fazendo com que a narrativa ganhe um tom de extrema sinceridade. O longa de Barbosa abre um rico diálogo com o cinema documental, utilizando depoimentos dos que viveram aquela história no meio de sua narrativa, como também fazendo os personagens reais ficcionalizarem-se participando na narrativa fílmica. Os companheiros de viagem de Gabriel reproduzem suas próprias ações diante de um protagonista ficcional, unindo o documentário e a ficção no mesmo plano. É importante ressaltar que Gabriel e a Montanha é um filme que não se insere na indagação contemporânea dos limites do documentário e da ficção, mas demonstra perfeitamente a consciência de seu diretor ao entender o que esses dispositivos causam na sua narrativa ficcional.


Gabriel e a Montanha é marcado por essa ligação com a realidade, algo marcado até mesmo pelo retrato imagético que faz da África nada romantizada. O realismo empregado pela fotografia de Pedro Sotero entende quem nem sempre câmera na mão agitada significa verdade, cumprindo muito bem esse diálogo entre o ficcional e o real. É a partir desse processo que a figura de Gabriel pode ser dessacralizada, um personagem com problemas, construído não apenas de virtudes, mas também de questões bem complexas, que fazem o espectador se questionar do por quê daquela viagem.

Essa narrativa pautada no real e numa constante busca pela honestidade faz de Gabriel e a Montanha um filme muito sensível. O longa demonstra um amadurecimento muito grande de Barbosa tanto como roteirista quanto como diretor. Gabriel e a Montanha é um filme aberto a ouvir seus próprios personagens algo que está colocado em cena, não sendo, dessa forma, um filme com narrativas e representações prontas, ligada apenas a estratégias narrativas e convenções de roteiro, uma obra muito humana.

No contato com esse personagens reais, o Gabriel do filme é um garoto mais próximos dos erros do que dos acertos, buscando uma compreensão sua na causa dos outros. Mais do que uma missão a ser seguida, uma posição política a ser provada, mas sobretudo um entendimento de seu próprio eu que parece não se afirmar, que tenta buscar nesses países diversos algo próximo a sua felicidade. Gabriel é um homem que está ali tentando gerar empatia, que busca compreender as conjunturas do local, mas também é intransigente, duro, birrento, achando que todo aquele continente está a seus pés. Essa relação verdadeira entre obra e retratado abre espaço para uma grande atuação de João Pedro Zappa, que encarna um garoto entre a satisfação que logo se transforma numa explosão de raiva e incompreensão, algo marcado por sua fala rápida e pequenas expressões faciais que demonstram essa irritabilidade.

O mais interessante de Gabriel e a Montanha acontece quando sua namorada vai visitá-lo, como se uma parte do eu que tenta fugir fosse de encontro consigo mesmo. Um momento que remete a esse dilema sentimental, em aproximar-se daquilo que ama, mas também recordar aquilo que rechassa na sua vida. Esse encontro central define sobre o que é aquele filme, e curiosamente esse momento traz de volta alguns ecos incômodos de outras obras de Felipe Barbosa, como a discussão política aberta entre os namorados que coloca didaticamente as posições de Gabriel sobre o mundo e posiciona o filme politicamente. Por outro lado, é ali, através do que sua namorada retira, que fica evidente a sua busca por uma autoaceitação, em compreender o que lhe espera no Brasil, o que realmente deve fazer com as oportunidades que tem. Gabriel e a Montanha é um filme sobre o próprio encontro e por isso a jornada interrompida torna-se tão triste, essa autodescoberta é freada justamente quando ela parecia tão próxima da plenitude.

Felizmente o longa não se afasta de seu lado sentimental, pelo contrário, Gabriel e a Montanha é uma obra que abraça sua sensibilidade, que constrói momentos sensíveis, que busca o emocional daquela história. Justamente por essa honestidade presente no longa isso fica à flor da pele, sendo transmitido de maneira nada forçada ao público, fazendo de Gabriel e a Montanha um filme lindo. A cena em que Gabriel declama Mário Quintana ao pé de uma cachoeira para sua namorada, afasta qualquer possibilidade de pieguice, sem trilha, só dois garotos encontrando uma razão no meio de um lugar qualquer, sensível e honesto por si só.

Gabriel e a Montanha tem muitos valores, uma obra que evidencia uma relação muito honesta entre sua narrativa e seu retratado, um filme da sinceridade e de uma beleza dramática. Felipe Barbosa faz seu melhor filme, um drama sem receio de envolver seu público com muita verdade.