O sul-coreano Hong Sang-Soo ganhou muita notoriedade ao longo das últimas duas décadas no cenário do cinema autoral, sendo uma presença constante nos mais importantes festivais de cinema. Além disso, é conhecido por realizar uma série de filmes num curto espaço de tempo, isso pode ser mensurado pelo fato do cineasta ter uma obra em exibição na Mostra, tendo outro filme no circuito comercial e outros dois longas que estiveram na seleção do Festival do Rio de Janeiro. O que impressiona mais ainda é que Hong Sang-soo mantém uma coerência autoral muito grande em suas obras, parecendo que elas mantêm com muita força um mesmo eixo temático e estilístico, que dificilmente fica marcado por uma autoindulgência.

O Dia Depois, filme que esteve na seleção principal do Festival de Cannes, certamente partilha tudo que há no cinema do autor sul-coreano. O longa narra os acontecimentos de apenas um dia na vida de um homem, dono de uma editora de livros, em crise no casamento e tendo que treinar uma nova funcionária em seu empreendimento. O desenrolar desse dia guarda uma série de reviravoltas e expõem as verdadeiras intensões daquele homem. Como todo filme de Hong Sang-soo, todas as tramas e subtramas são pautadas pela simplicidade, por uma reprodução de momentos simples do cotidiano que são captados pelo estilo do cineasta. Algo que revela muito sobre as relações afetivas através de eventos comuns.

Em O Dia Depois essa questão das relações chega ao campo da hipocrisia, um homem que mantém seu casamento, mas que deseja seguir os planos com sua amante. Esse dia narrado em tom de crônica pelo cineasta aborda com sarcasmo as opções daquele homem. O longa muitas vezes retira humor dessas situações, fazendo uma reflexão sobre relacionamentos porosos, nada sólidas, apenas construído por preocupações completamente individualista.


Nessa situação armada por Hang Sang-soo há algumas figuras centrais, o dono da editora, a sua nova empregada, sua esposa e sua antiga funcionária,, a atual amante. O longa gira apenas em torno desse núcleo e todas as conclusões são realizadas apenas a partir das interações desses poucos personagens, durante aquele específico período de tempo. Basta ver aquele único dia para entender como se dão as relações de todos aqueles seres. Hang Sang-soo mais uma vez demonstra uma habilidade absurda para investigar intimamente os hábitos e relacionamentos de pessoas comuns.

Os filmes do cineasta também costumam ter um artifício narrativo para chegar a seu ponto de interesse. Por exemplo, o mesmo dia sendo representado de maneiras diferente em Certo Agora, Errado Antes; ou a construção de três pontos de vista masculino para a mesma personagem em Nossa Sunhi. Aqui o que se estabelece é uma dinâmica de um entra e sai, como se o personagem principal fosse um hall de entrada, em que uma personagem sai de cena para entrar outra que inicia um diálogo com aquele homem, e assim por diante. É nessa situação que surge um humor incisivo, o cômico funciona a partir de como este personagem responde diferente a cada mulher que surge em seu encontro, muitas vezes tomando uma decisão completamente oposta àquela que ele tinha dito segundos atrás.

O Dia Depois é um filme sobre essa volatilidade dos interesses dentro de um relacionamento. Quando alguém simplesmente abre mão de todas as convicções para manter suas redes de contato. O longa não chega a culpar seu protagonista, chama-lo de mentiroso ou algo assim, mas a questão é justamente ver a hipocrisia naquela situação. Sentir a incongruência das opções daquele homem, não percebendo o mal que evoca nas mulheres a sua volta. É interessante como a sua nova funcionária funciona no roteiro como um ser que sofre por todos os erros daquele ser, logo ela que não o conhecia antes e que está apenas em seu primeiro dia de trabalho. É ela quem sofrerá a ira da esposa traída e também a inconsistência de uma relação extraconjugal nada sincera.

Nessa lógica, o dono da editora surge como um ponto cômico dentro da obra, e sua nova editora traduz as reais consequência dessa situação. O primeiro se faz humor através da ridicularização de suas ações, como todo aquele jogo cênico beira o tosco e sem noção. Enquanto, a mulher faz O Dia Depois chegar a outro patamar, há momentos que ela coloca o protagonista na parede, gerando uma reflexão sobre sua vida de aparências, não só em seus relacionamentos, mas também em sua própria carreira. Em um desses diálogos algo extremamente comum torna-se uma explanação totalmente profunda, como é de praxe nas obras do cineasta, como quando a funcionária indaga como aquele homem ousa dizer entender a realidade, sendo que suas palavras podem ser um jeito apenas de traduzir sua própria verdade, que naquele momento o espectador já sabe não ser das mais dignas, e isso ocorre de forma sutil e sincera, acreditando que realmente aquilo poderia ser dito num almoço.

O Dia Depois tem um aspecto de conto moral, de fazer com que aquela situação sirva realmente como um exemplo em relação a traição e suas mentiras. Nessas circunstâncias, como se fosse necessário para provar seu ponto, Hong Sang-soo faz seu núcleo principal um tanto quanto interessante. Todavia, as duas outras mulheres agem da forma totalmente esperada, a esposa histérica e a amante desesperada, algo que não deixa essas figuras serem partes fundamentais dessa narrativa, apenas tipos que funcionam para levar a história adiante.

O longa ainda consegue surpreender em seu desfecho, mostrando apenas uma cena depois do dia que se desenrola a história, realmente o dia depois presente no título, algo que faz o espectador entender realmente sobre o que é de fato aquele filme. Mais uma vez Hong Sang-soo faz uma obra que através de poucos e simples momentos comuns chega a conclusões interessantes sobre as relações afetivas, aqui com um toque de humor sem perder sua intensidade e profundidade.