O Outro Lado da Esperança é mais um retrato da crise de refugiados na Europa pelo cinema, temática que dá a tônica de muitos filmes presentes na 41º Mostra Internacional de São Paulo. O grande ponto de interesse é realmente perceber o quão inovador pode ser esse olhar em relação a algo que assombra o velho continente e traz uma dor extrema àqueles que não possuem mais um país.

O longa finlandês dirigido por Aki Kaurismaki (O Porto, Os Cowboys de Lenigrado Vão para a América) parte justamente dessa proposta: como abordar um tema tão relevante sem cair num lugar comum, sem repetir os mesmos discurso que já se ouve há algum tempo? E essa não é uma questão egocêntrica que almeja chamar atenção para o próprio filme, mas sim buscar uma nova visão para aquilo que tanto se fala. Nesse sentido, Kaurismaki faz uma obra memorável que não se prende a nenhum discurso pronto para refletir a relação entre países desenvolvidos, caso da Finlândia, e os refugiados que surgem de toda a parte do mundo.

Talvez o grande mérito do filme seja justamente o fato de analisar essa situação para constatar que a relação entre Europa e imigração revela uma profunda crise no coletivo europeu, escancarando processos históricos recentes que não cicatrizaram, o que gera uma falência profunda da moral individual e coletiva. Falando dessa maneira, O Outro Lado da Esperança pode parecer um filme repleto de pretensões sociais, que mantém sua temática a frente de qualquer outra coisa em seu discurso cinematográfico, algo que estaria mais próximo do trabalho de Ken Loach (Eu, Daniel Blake) do que de Kaurismaki. O que surpreende realmente em O Outro Lado da Esperança é como esse olhar do cinema é bem trabalhado, é colocado à tona para que se entenda relações muito profundas.


Assim, é curioso como uma temática tão forte e presente é transmitida através de uma outra via. Aqui não se busca uma aproximação do realismo cru, do naturalismo constante que faz com que o público tome a obra como verdade. Pelo contrário, no longa há uma clara aparência de ficcionalização, de um mundo que aparenta ser totalmente oposto àquilo que se espera. Em O Outro Lado da Esperança é comum se ver uma fotografia rebuscada, onde claramente se percebe uma fonte de luz construída e fora da ação; uma decupagem bem marcada, com planos bem construídos, evidenciando uma mise-en-scène sempre aparente; e de atuações que muitas vezes beiram o anti-naturalismo, aparentando um mundo de interpretações e não de realidades.

Na contramão dos processos de um cinema político, O Outro Lado da Esperança consegue ser mais relevantes do que muitas obras que tomam seu discurso como real. Kaurismaki realiza uma comédia sobre essas crises infinitas sem caçoar da situação, ou deixando-a em segundo plano. Sua visão sobre o tema surge realmente do humor que consegue extrair de um mundo construído e isso faz um espelho sobre a sociedade europeia e seus problemas.

O longa possui dois eixos narrativos, o de Khaled, um refugiado sírio que chega ilegalmente no cargueiro de um navio e tenta pedir asilo político na Finlândia; e a história de Wikström, um homem de meia idade sem dinheiro que sai de casa e acaba ganhando no jogo, para assim tornar-se um pequeno empresário. Kaurismaki faz humor a partir da cisão do mundo desses dois personagens, que só se encontram na parte final do filme. Enquanto Khaled busca entender aquele novo país e buscar sua legalidade, Wikström tenta consolidar seu restaurante num mundo que parece totalmente desconectado com a realidade do homem sírio.

A comicidade presente em O Outro Lado da Esperança ressalta esse mundo europeu alheio aos problemas do mundo, as ações que cercam Wikström são marcadas por um ar non sense sutil, em que todas as personagens agem de forma estranha. Enquanto Khaled, numa atuação quase teatral, declama toda sua dor de percurso entre a Síria e a Finlândia, Wikström tenta melhorar seu restaurante que possui apenas três funcionários que vieram de graça com a compra de seu estabelecimento.

Dessa forma, compreende-se o riso provocado pela obra de Kaurismaki, há a construção de um mundo totalmente a parte, e por isso tão ficcionalizado, um mundo que se importa com seus pequenos problemas (aqui exagerados como artifício de humor) sem perceber o quanto eles são ridículos. Não é à toa que a imagem mais real do filme vem através de um plano de uma televisão ligada mostrando as notícias da guerra na Síria, como se até a imagem televisiva conseguisse estar mais próxima a realidade do que aquela cidade finlandesa.

O Outro Lado da Esperança é um filme sobre as crises europeias, a falta de dinheiro, os problemas com o emprego e principalmente a questão dos refugiados estão presentes ali. Na sua construção de um universo particular esses são temas que rivalizam com um humor do bizarro, como se esse mundo desejasse ser desconcentrado dos problemas reais. Do outro lado, onde deveria encontrar a esperança, há na verdade um lugar que deseja olhar para seus pequenos problemas, tão ridículos que chegam a gerar gargalhadas no cinema. O Outro Lado da Esperança é uma das visões mais criativas sobre o problema da imigração.