Aquilo que amedronta é algo extremamente subjetivo, ligado ao âmbito mais íntimo dos seres, talvez essa seja a relação também da forma como alguém amedronta outra, quando finalmente revela o que possui dentro de si, revelando facetas que desmontam e afligem o próximo. O Scary existente no título do pré-indicado da Geórgia é sobre esse tipo de horror, aquilo que surge do âmago humano para abalar laços íntimos não preparados para uma verdade existente num ser tão próximo.

Scary Mother pode ser considerado um filme de terror, mas talvez numa categorização que mereça uma série de revisões. Um filme do incômodo, de uma tortura constante e de um pavor que parece ser completamente petrificante. Não há seres sobrenaturais, muito menos perseguições, mistérios ou assassinatos, o que existe é um medo de que fatos e ações íntimas sejam colocadas para fora, sejam colocadas no mundo, sem que aqueles estivessem preparados para o íntimo daquela que eles chama de mãe, filha, esposa ou amiga. Um terror do real, daquilo que ocorre de maneira silenciosa todos os dias.

Numa dessas revisões de gênero deveria ser necessário afirmar que Scary Mother assume o ponto de vista do monstro, daquilo que gera pavor, que amedronta e deve ser freado. Como já dito, o grande demônio da vez é uma mulher de meia idade, mãe de três filhos, que vive como escritora. Ela está trabalhando em seu próximo livro, isolando-se do restante da família, escrevendo pelo seu corpo aquilo que deve ser acrescentado em suas páginas. A família espera ansiosa, mas sua obra é como um vômito de suas partes mais íntimas e internas, das sensações mais reprimidas e impedidas de serem colocadas para fora. A protagonista, Manana (Nato Murvanidze) pare em forma de obra de arte um demônio, identificado assim pelos outros, mas necessário ser liberto para que não a consuma.


É interessante como o filme constrói essa questão de parir de algo extremamente incômodo. Manana surge depois de seu retiro, toda sua fúria ressoa em forma de livro, de obra de arte, algo que vai ser colocado numa mesa da família, como um jantar envenenado. A questão do longa é justamente entender que aquilo tratado como algo monstruoso é na verdade uma necessidade, colocado perfeitamente nessa visão da protagonista. Manana vive esse período de encontro consigo mesmo, o longa começa demonstrando uma figura exausta, como se realmente tivesse parido algo, construindo uma relação simbiótica entre a peça artística e o íntimo da artista, como se realmente só ali pudesse abrir-se e demonstrar tudo o que sente e o que deseja.

Logo a mulher é taxada de pornógrafa, dona de uma literatura de pouca vergonha, chula e que realmente não deve ser publicada. Sua família pede para queimar tudo aquilo que pode estar relacionado ao livro, pede-se para que a mulher volte para seu estado de repressão. “Escreva qualquer coisa menos isso”, clama o marido e o mercado em relação a um material artístico, pede-se para que arte não envolva os sentimentos mais internos, que não brutalize a sociedade com temáticas ainda colocadas como tabu, como a sexualização de uma mulher de meia idade, algo tão presente em debates recentes. Isso só pode ser o filme de terror de qualquer artista.

O longa, então, funciona nesse duplo sentindo, à medida que tenta retransmitir as sensações que aqueles personagens vivem, principalmente a de Manana, porque se realmente há aflição em relação a quem lê sua obra, com certeza existe muito mais no interior daquela figura, também faz um comentário de como é construir uma obra de arte sobre o incômodo. Dessa forma, esse diálogo com o filme de horror volta à tona, da forma como o filme reproduz sentimentos em relação ao medo e à repugnância. O mais interessante é que Scary Mother não cai na armadilha de construir um filme cheio de imagens impactantes, que causariam esses sentimentos através de sequências apelativas, ou seja, uma imagem torturante ou bizarra. Pelo contrário, o longa faz essa reprodução de sensações através de um uso inteligente e habilidoso dos aparatos e técnicas cinematográficas.

Sacry Mother provém de um absoluto controle cinematográfico de sua diretora, Ana Urushadze, que constrói um filme do incômodo, que se sentea aflição de conviver com um parto de algo tratado com repugnância. Essa força está presente nos enquadramentos opressores, que fazem as figuras humanas concentrarem-se no canto do quadro, enquanto paredes, nunca belas, compõem o restante do plano. Ou a ruídagem do desenho de som, em que algo parece estar sempre estar estourando, como se fosse esse incômodo pulsante, mostrando sua necessidade de externalização. A direção faz um percurso por essa profusão de sensações, dessa agonia constante ao tentar conceber essa obra de incômodos.

Num plano extremamente significante, Manana lê um trecho do livro a sua família, a diretora emprega uma traveling que sai do rosto da personagem até mostrar toda família chocada com o que é lido. O movimento para trás faz com que se tenha a sensação de que algo interno da personagem foi colocado para fora, externalizado, servido à mesa para a tentativa de assimilação de seus entes. À medida que a câmera se afasta, a protagonista começa a ler o texto numa velocidade vocal impressionante, todos se incomodam, ela parece não respeitar nenhum ponto ou vírgula, a raiva com que ela vomita suas próprias palavras é impressionante, como se realmente estivesse livrando-se de algo, uma coisa imediatamente reprimida, mas que já está exposta, já está no mundo em forma de arte, todos ali sabendo da existência desse demônio interno.

O domínio do cinema e dessa transposição só acontece de forma exemplar também pelo trabalho da atriz principal. Nato Murvanidze faz uma interpretação impressionante dessa mulher afetada por seus mais íntimos anseios reprimidos, uma transformação física, que está na fala, mas também como sua expressão se modifica quando ela é incapaz de escrever e algo parece assombrá-la, deixando-a à beira da loucura. Nato Murvanidze faz com que suas palavras sejam faladas de forma cortante como aquelas que estão em seu livro. Se o público do filme não tem acesso ao que está escrito no livro, sabe-se de sua força e de sua potência pela angústia expressada pela atriz.

Scary Mother é um filme de terror pautado em emoções reais, uma obra que consegue traduzir o processo de criação de uma obra que envolve esse anseio de colocar para fora sentimentos e angustias tão internas, algo que faz qualquer ser tornar-se um monstro. O longa da Geórgia, imperdível na 41º Mostra de São Paulo, é uma obra gritante que clama por atenção, um terror necessário e extremamente íntimo.