Não precisa nem dizer que festivais e premiações têm uma grande importância no meio cinematográfico, reconhecendo e elevando o patamar de alguns filmes. Todavia, o simples fato de uma obra ganhar prêmio x ou y não o certifica como um grande filme, e vem sendo bastante discutido os caminhos que os grandes festivais de cinema tomam, com alegações que os palcos de Cannes, Veneza e Berlim parecem mais um grande lobby entre as grandes produtoras mundiais, do que a busca por trabalhos realmente expressivos.

The Square foi o grande vencedor do prêmio máximo em Cannes, dirigido pelo sueco Ruben Östlund que já havia passado pelo festival com o interessante Força Maior, o longa merece ser visto por olhos desprovido de uma compreensão maior pelo fato da obra ter angariado a Palma de Ouro. Essa relação seria honesta até mesmo com o filme, que pede uma atenção, que tenta construir um grande panorama crítico da sociedade europeia, um filme cheio de imagens que aparentam ter mais de um significado, e apenas por isso já reflete toda sua pretensão.

A equação pretensão mais Palma de Ouro pode fazer com que qualquer filme seja aceito sem as mínimas considerações, uma aceitação plena de todas as suas propostas e ideias, não tendo em vista nem mesmo a relação da obra com seu objeto temático. The Square é uma crítica à elite cultural europeia, colocado aqui como a classe alta da sueca, funcionando como um exemplar do que acontece no restante do continente, e não só por lá, um reflexo geral dessa classe.


O longa narra o período em que Christian (Claes Bang), curador de um importante museu de arte moderna, prepara o lançamento de uma nova exposição chamada The Square, uma mostra que diz sobre a confiabilidade no próximo, algo que transformaria as paredes do museu num lugar de estabilidade e asseguração de direitos. Todavia, nos caminhos dessa preparação, o longa vai mostrando que nem mesmo aquele homem está preparado por defender os valores de sua exposição.

Apesar de The Saquare possuir essa linha narrativa bem determinada, o filme funciona mais como uma série de episódios que envolvem Christian e sua nova exposição. É a partir dessa estratégia que o longa assume essa posição de construir um grande painel crítico de um espectro da sociedade. A cada episódio um novo ponto é colocado nesse panorama, essas situações sempre servem para fazer uma nova crítica, construir uma imagem de um grupo que se insere nessa elite cultural.

O filme então vai fazer questionamentos sobre quase tudo que se relaciona a essa classe cultural. The Square passa por pontos como a relação do jornalismo e seus objetos, a definição da arte contemporânea, os limites da própria arte, o distanciamento entre arte e público, assim como a distância entre objeto artístico e objeto temático, as novas gerações ligadas à internet e o constante desejo por viralizar nesse mundo digital, e também a falência das relações humanas. Ou seja, The Square é um filme que deseja falar de quase tudo, se um deses temas já carece de um olhar profundo para a sociedade, essa profusão temática reflete apenas na superficialidade, em pontos que o filme não consegue colocar sua investigação como algo tão acertado.

Como The Saquare parece possuir uma série de episódios e objetos temáticos em sua narrativa, o longa tem uma grande irregularidade, fazendo com que alguns momentos sejam de fato interessante, e outros nem tanto. Há momentos que sua crítica não resulta em nada além de clichês sobre esse mundo artístico, como o faxineiro que limpou obras de artes realizadas a partir de um grande monte de cascalhos, ou indagação de que um objeto qualquer, como uma bolsa, seria considerado arte se estivesse no espaço exibitório do museu. Algo extremamente ultrapassado, figuras e indagações reproduzidas há muito tempo, sem nem ao menos tentar colocar uma vírgula a mais na discussão. Ou, também, a dupla de publicitários, bastante característicos com seus cabelos compridos e um jeito descolado de falar, que buscam, nas mais absurdas ideias, um jeito de polemizar e estar em alta no mundo digital. Um estereótipo também já bastante reproduzido, fazendo com que haja ao longo de The Square uma série de caricaturas.

O que mais incomoda no vencedor da Palma de Ouro é a crença na sua própria inteligência, como se tudo o que diz realmente tivesse um valor incrível para um debate sobre a crise dessa elite cultural, ainda que em muitos momentos sejam apenas obviedades reproduzidas. Esse tom pretensioso se dá por momentos em que há uma tentativa de estranhamento na composição de seus planos, ou no surgimento de eventos ou figuras que parecem alheias ao curso das coisas – como uma briga por uma camisinha usada, ou o surgimento de um macaco numa cena pré-sexo, algo que faz com que a atenção de seu espectador fique suspensa daquilo que está sendo dito, parecendo que há em The Square um quebra-cabeça muito mais difícil do que realmente é. O longa ainda marca essa pretensão por sua trilha erudita que amarra os mais diferentes episódios, não percebendo o quanto é um exemplo de sua própria crítica.

O longa tem momentos interessantes, como a extensa performance do homem macaco durante um jantar de gala no museu, uma sequência que diz respeito aos limites da arte e a rejeição violenta por parte de um público que se incomoda com uma expressão artística, e que o exagero dessa ação faz com que a crítica funcione para os dois lados. Ou a relação entre Christian e um garoto da periferia, que foi acusado num mal entendido por roubo pelo curador do museu, uma criança que realmente desafia os valores que o protagonista jura defender. The Square vive desses momentos e de uma comédia que surge do absurdo, conseguindo fazer rir, fatores que às vezes balanceiam suas pretensões.

The Square é uma obra de homens culturais distantes de seu público, onde o discurso do museu define o que é importante ser visto sem a mínima conscientização de seu público, um disparo contra a autoindulgência artística e seu rígido discurso. Talvez, se trocasse os corredores do museu pelo tapete vermelho de Cannes, The Saquare apareceria como objeto de sua própria crítica, a aceitação cega de um discurso marcado simplesmente pela nomeação de um grande prêmio.