Visages, Villages narra o encontro entre a cineasta Agnés Varda e o artista plástico e muralista JR, que viajam França adentro retratando imagens de moradores de vilarejos para construírem grandes intervenções urbanas, o que dá o tom da obra desse artista plástico. Todavia o documentário é muito mais do que um simples retrato de um processo artístico, é uma obra que diz muito a respeito de seus autores, principalmente da veterana cineasta francesa.

Varda é um nome fundamental para o cinema contemporâneo, teve envolvimento providencial com o grupo da nouvelle vague e ao longo de mais de cinco décadas de carreira realizou obras instigantes, transgressoras e fundamentais para a história do cinema. Em Visages, Village o que se vê é um retrato de uma artista que sente o peso do tempo, que no auge dos seus 88 anos começa a repensar sua produção e sua vivência. Varda encontra em JR ecos de sua obras e pontos de diálogo, como se encontrasse no jovem artista rastros de seu passado e de seus mais diversos encontros.

O documentário retrata esse ponto de intersecção entre os dois autores, visões diferentes que se complementam para trazer as reflexões da diretora à luz. Essa é uma relação empática, que faz o filme girar em torno dessas duas figuras, sendo algo mais importante do que sua própria jornada ou trabalho artístico. As intervenções urbanas que se vê são um reflexos das conversas que surgem dessas duas figuras, algo que se materializa naqueles grandes murais realizados por JR.


Varda diz não conhecer os olhos do rapaz que como um disfarce não tira seu chapéu e os óculos escuros, a cineasta comenta que o jovem tem acesso a todas as informações dela, enquanto o contrário não ocorre. Varda chama JR de teimoso, pede para conhecer sua avó, pergunta sobre suas mais diversas obras, revelando um cuidado específico da mulher em relação ao jovem. E é totalmente interessante perceber como esse carinho com um terceiro pode dizer tanto sobre aquela cineasta. O que ocorre é que JR traz uma vivacidade, que Varda acredita não possuir mais. Isso fica evidente, quando ela diz que seu novo companheiro parece tanto com seu antigo amigo Jean-Luc Godard na juventude, esse encontro produz uma recordação de seus anos mais prolíficos.

Varda diz ter ficado encantada com a forma que JR empregou nas paredes de prédios e construções rostos e imagens que ficaram sempre escondidas pelo um cotidiano, retirando aqueles retratados da sombra de um esquecimento. E no trabalho de uma cineasta que sempre jogou com a própria construção imagética há, nesse momento de sua vida, a necessidade de pensar o valor daquilo que ela mesma criou, é necessário pensar o quanto dela não ficará nessa sombra que parece tão amedrontadora.

Assim, em Visages, Villages JR auxilia nesse processo, estampando um passado da diretora que não quer ser esquecido. O diálogo com a perda e o esquecimento é algo extremamente presente na narrativ. Essa procura de Varda pelo artista é muito significativa, a cineasta já não consegue enxergar, tem sérios problemas de visão e sofre com um processo literal de esmaecimento de suas imagens. Varda, então, busca reproduzir e ir ao encontro de locais marcantes relacionados ao seus trabalhos e aos encontros com seus mais antigos amigos. Não é à toa que nessa viagem ela procura refazer fotos que tirou de seu amigo fotógrafo, Guy Bourdain, ou vai até o túmulo de Henri Cartier-Bresson, todos homens da captura de uma imagem, ecoando a questão de realmente entender qual é a imagem que fica.

Nessa relação contrastante entre JR e Varda surge um filme em que essa constante busca não soa nem pedante, muito menos pretensiosa. Visages, Villages é um filme leve, descontraído, em que os dois autores ficionalizam para câmera e isso é só aceito pela sinceridade imposta pela narrativa. Varda e JR são personagens de seu próprio longa e muitas vezes imagina-se o quanto algumas cenas forma de fatos encenadas e treinadas, mas isso não reflete necessariamente em algo que freie a narrativa documental, mas transpareça uma relação entre os dois artistas. Um vínculo em que JR doa seus olhos para Varda, enquanto ela doa uma narrativa extensa que se coloca nos murais do artista.

Visages, Villages segue por esse caminho na carismática narração de Varda, repleto de momentos engraçados que sempre comentam a trajetória da cineasta e de seus amigos – como no momento em que surge uma referência à Banda à Parte, de Godard, reproduzindo a famosa corrida no Louvre, no caso com Varda sentada numa cadeira de rodas. O documentário tem esse sentimento de aceitação para com a vellhice, algo que reflete sua comicidade, mas também algumas preocupações. Nessa viagem pelo interior de Varda há momentos singelos de leveza, como outros carregados de uma forte carga emocional, como seu possível encontro com Godard, que a cineasta demonstra sentir falta.

Visages, Villages amarra tão bem toda essa narrativa parecendo que os realizadores já sabiam de todas suas etapas, ou transparece uma grande habilidade ao lidar com o improvável. Todavia a grande questão é que toda essa trajetória revela na verdade uma passagem muito bela da vida de Agnés Varda, lidando abertamente e sinceramente com seus maiores medos e anseios, no auge de seus 88 anos. Se Visages, Villages for de fato a imagem derradeira de Varda quanto cineasta, será um belo retrato que fica.