Crítica | A Vilã

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Muito se diz do famoso cinema sul-coreano, e quando alguma obra do país oriental chega por aqui os filmes já vêm com um pequeno selo de qualidade. Como acontece com o cinema argentino, há esse estigma de que qualquer filme dessa cinematografia seria incrível, algo totalmente falacioso, uma vez que as obras que chegam aqui passam por filtros e filtros, como se o espectador brasileiro tivesse acesso apenas ao fino do fino de tal produção. Algo que acontece ainda mais com os sul-coreanos, chegando ao Brasil apenas títulos que passaram por crivo de festivais, de público e de crítica em outros países.

Não é incomum que os sul-coreanos estejam em grandes festivais, e são um dos favoritos do chamado World Cinema. Todavia, o mais importante é entender a relação direta entre os filmes e o espectador. No caso de A Vilã, que também esteve em Cannes, que também passa pelos filtros até chegar ao mercado brasileiro, é interessante ver como a obra utiliza-se de tudo que se espera de um filme vindo da Coréia do Sul, sem ao menos buscar uma relação honesta com seu espectador.

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O longa conta a história de uma assassina que enfrentará de tudo para se vingar do homem que matou seu pai e seu marido, levando sua missão até as últimas consequências. Na sua trajetória, ela acaba caindo numa rede de assassinas de aluguel, que promete a heroína não só sua vingança como também uma nova vida. A Vilã apresenta então uma narrativa já vista, principalmente no cinema sul-coreano, em títulos que fizeram o nome dessa cinematografia, como a trilogia da vingança de Chan-wook Park, Eu Vi o Diabo, de Jee-woo Ki e Mother – A Busca pela Verdade, de Joon-ho Bong, nomes consagrados do cinema coreano, algo que caracterizou esse ímpeto violento e vingativo dentro dessa cinematografia.

Essa semelhança não é casual, A Vilã busca realmente esse contato com obras que já fizeram sucesso distante de seu país, o selo de exibição em Cannes ajuda a promover esse intercâmbio, mas o que mais se nota é esse sentimento de um longa feito para exportação. Assim como a trama de vingança, o filme aposta na construção de uma violência gráfica, como se tentasse quebrar paradigmas em relação ao nível de violência de outras obras, mas também se conectando a uma longa tradição do cinema de ação oriental, como algo que quebraria ao código de regras morais dos grandes blockbusters americanos.

A Vilã não tem apenas em suas doses cavalares de sangue cenográfico sua aproximação com aqueles famosos filmes, mas também na tentativa da construção de um roteiro cheio de reviravoltas, com surpresas que o espectador nem imaginaria. A questão é que nas outras obras já citadas aqui, ainda que esse recurso narrativo servisse como uma cooptação do público, as viradas narrativas estão completamente conectadas com uma investigação estética e formal daqueles cineastas em suas obras, por exemplo, o uso da montagem fragmentada na trilogia da vingança de Park. Em A Vilã essa questão é uma simples alternativa, como se fosse um elemento indispensável para que o longa alcançasse esse patamar de grande obra sul-coreana.

O filme utiliza esses elementos presentes em arriscados títulos como um mero check list daquilo que se espera de uma obra como essa. A Vilã parece um enlatado, seguindo todo uma receita, mas com o gosto daquilo que é pré-pronto. Esse claro produto de uma indústria que busca saltos ainda mais comerciais entrega um roteiro cheio de problemas, que suas viradas parecem nunca serem justificadas, mas deixando transparecer como tudo aquilo é forçado, sem nenhuma vida. Num amontoado de clichê, não há característica marcante que faça o espectador entrar naquela narrativa mirabolante, o que faz com que o filme aposte em soluções ainda mais duvidosas, como uma relação entre mãe e filha, quando a assassina pare e constrói uma relação de bastante chantagem emocional, uma mulher paga para matar com uma garotinha fofa e sorridente. Atabalhoado, ainda há no roteiro de A Vilã tempo para a construção de um interesse amoroso entre a protagonista e um homem da firma onde ela trabalha, isso já da metade para o final da projeção, algo que revela quanto aqueles elementos estão ali apenas para agradar e fazer com que A Vilã ganhe ainda mais espectros comerciais.

Nessa confusão narrativa, as reviravoltas são até difíceis de acompanhar, uma vez que todas essas informações são jogadas aos montes, sem o cuidado de lapidar aquilo que se vê. Na ineficiência narrativa, surge a vontade de colocar toda atenção no aparato técnico que ronda A Vilã. Algo que passa por um trabalho de câmera incomum, com grandes movimentos de câmera, a iluminação rebuscado que se utiliza mais uma vez do já lugar comum neons coloridos, e a grande utilização de efeitos especiais nas suas espetaculosas cenas de ação.

Algo que é demonstrado no plano inicial, onde os primeiros minutos de ação são acompanhados através de uma câmera subjetiva, em que o espectador, como num vídeo game, assume o corpo da protagonista, uma sequência que reflete a estética do próprio longa. Após esses longos minutos com a câmera assumindo totalmente o corpo da heroína e reproduzindo os mais absurdos golpes de ação, a cena deixa de ser subjetiva, passando para a objetiva, deixando o longa em terceira pessoa, isso sem nenhuma justificativa, apenas mostrando o que aquele filme pode fazer em termos técnicos. Uma exposição sem objetividade, muito menos com algum significado.

Nessa exaltação da técnica, algo que é bem diferente de estética – pois essa diz respeito a uma relação entre conteúdo e forma -, A Vilão demonstra ser uma obra de esvaziamento dos dispositivos cinematográficos, onde esse estilo de um novo cinema de ação nem sempre pode alavancar um filme. É justamente essa a grande diferença entre este longa e seus conterrâneos, A Vilã tenta copiar essa tendência do cinema sul-coreano, numa clara e exclusiva tentativa comercial, o que resta é apenas essa embalagem tecnicamente satisfatória, mas sem nenhuma substância.

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