A obra de Jorge Amado sempre foi conhecida por ter uma forte afinidade com a figura do popular, levando para literatura a figura do povo baiano e suas respectivas tradições: como as religiões de matrizes africanas, a música, a capoeira e tudo mais. A obra do escritor é habitualmente trazida para o mundo audiovisual, principalmente por ter um ainda rico diálogo com o público.

A versão de 2017 de Dona Flor e Seus Dois Maridos parece visar justamente esse viés da obra de Jorge Amado, fazer uma obra cinematográfica de grande acesso popular, algo que ecoa aquela produção de mesmo título realizada em 1976, que reinou absoluta por muito tempo como a maior bilheteria do cinema nacional. Essa pretensão popular molda todas as opções presentes nesse filme, a escolha do elenco, as opções estéticas e as narrativas. A questão é que nessa lógica confunde-se o popular com o popularesco, algo fabricado com cara de povo.

Recheado de um elenco global, com o trio principal formado por Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum, Dona Flor e Seus Dois Maridos tenta chamar atenção pela proximidade com rostos já vistos televisão, aproveitando-se daquilo que eles já entregaram em outras obras audiovisuais fora do cinema. Não é à toa que Dona Flor é encarnada por Juliana que há pouco tempo estava no papel de Gabriela, outra personagem icônica do autor, evocando novamente a sensualidade da mulher de Jorge Amado. Algo parecido acontece com Leandro Hassum, mas aqui ele não reproduz nenhum personagem desse universo literário, mas sim sua própria persona, já vista em tantos outros filmes nacionais. Aqui ainda pior, uma vez que o humor exagerado do comediante parece ainda mais fora do tom dentro deste filme, como numa espécie de esquete na farmácia que é dono, aplicando uma injeção numa outra mulher, algo que não parece fazer parte nem da mesma narrativa dentro dessa versão, apenas uma exibição do mesmo ator de sempre.


Não é coincidência, assim, que o ator que mais se sai bem nessa nova roupagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos seja Marcelo Faria, que se esforça para criar seu próprio Vadinho, o marido malandro mas bom de cama de Dona Flor. Engraçado e incorporando esse bom malandro com alta dose de ironia, o ator parece ser o único com liberdade dentro do longa. Essa falta de liberdade cerca até mesmo os aspectos da direção, que parece buscar aquilo que o público já está acostumado, procurando uma fórmula para aquilo que é popular.

Pedro Vasconcelos, provindo da televisão, realiza uma obra excessivamente televisiva, que se limita a construir uma direção baseado majoritariamente na relação entre planos e contra-planos sempre fechados nos rostos dos personagens. Mas também pela utilização da trilha musical constante, que deseja ditar aquilo que seu espectador sente. Isso não acontece apenas com a música instrumental, mas também com grandes clássicos da música brasileira, como É o Amor e Isso Aqui Tá Bom Demais, que são reproduzidas ao cansaço, sempre ligados a uma emoção da personagem principal. Essa opção banaliza as próprias músicas escolhidas e se num primeiro momento podem causar forte empatia pela canção já conhecida, depois já não se conecta mais a imagem que está sendo assistida. Na cabeça do espectador sobra apenas a música, já muito mais gravada no imaginário brasileiro do que a nova versão de Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Essa tentativa quase de adivinhação em relação àquilo que o público gosta faz com que seja gerado um outro sentimento no longa, mostrar o quanto ele é diferente daquilo que se vê, como se tentasse esconder essa busca pelo popularesco. Isso não se encontra através de um aprofundamento estético ou narrativo, mas simplesmente na exaltação dos valores de produção da obra, os grandes cenários, a iluminação artificial e planejada sempre presente e alguns enquadramentos incomuns, desejando mostrar quanto aquele filme é bem cuidado e produzido. Quando na verdade esses três elementos nunca estão intrinsecamente conectados com aquilo que o longa deseja dizer.

Até porque Dona Flor e Seus Dois Maridos parece ter dificuldade em definir sua linha central. Se Jorge Amado era um mestre em sua narrativa e na composição de sua história através das palavras, o filme se perde na extensa obra do escritor baiano. É interessante ver como o longa se confunde nessa narrativa, parecendo nunca entender o que realmente importa na história que conta. Os dois terços do filme são marcados por acontecimentos que passam rápido, num amontoado de relações que se perdem, numa possível agilidade narrativa que conectaria o público moderno a uma obra antiga. A questão é que isso torna o roteiro de Dona Flor e Seus Dois Maridos num filme pouco fluído, sem ritmo, que faz com que sua um pouco mais de uma hora e meia pareçam muito tempo.

Nesse esquema de tentar alcançar desesperadamente o público parece não haver nada em Dona Flor e Seus Dois Maridos, num filme que até mesmo desenha mal a relação entre a mulher e seus dois homens, parecendo haver só uma única constância, o sexo. E esse é sem dúvida a última aposta por aquilo que é popular, a atração sexual e corpos globais nus, a fim de atrair ainda mais a atenção do público. Se em Jorge Amado, essa pulsão sexual era tratado como uma espécie de afronta em relação àquilo que costumeiramente era encontrado na literatura – principalmente pelos olhos e prazeres de uma mulher, no filme isso é só um grande atrativo comercial, o sexo como anúncio e não como uma força motriz questionadora de uma obra.

Dona Flor e Seus Dois Maridos torna-se um filme do gozo fácil, que busca nos lugares cômodos uma relação com seu público, como se descesse o nível de seu discurso para encontrar certa popularidade. Nessas escolhas o que se encontra é um filme que apresenta aquilo que ele julga ser popular, nunca encontrando o que há de povo em Jorge Amado.

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