Finalmente o universo compartilhado da DC Comics chega a seu momento mais importante, o crossover que unifica todos aqueles famosos heróis em um só filme, em uma só missão, interagindo como se fossem um só. Já é sabido todas as circunstâncias que esse filme é lançado, todavia é interessante perceber como os caminhos tomados por este universo cinematográfico resultam nas forças e nos pecados de Liga da Justiça. Desde o fracasso de bilheteria de Batman vs Superman, um filme que paga o preço pelas pretensiosas e autorais ideias de Zack Snyder, até o agradável Mulher Maravilha, de Patty Jenkins, que consegue acertar em cheio aquilo que o público queria encontrar no filme da heroína. É na tentativa de conciliação de visões tão distintas que nasce Liga da Justiça.

Talvez seja por isso que o longa deixe tão visíveis as linhas que amarram essa ideias tão diferentes, uma obra que nasce do diálogo entre fatores tão distantes, que aqui surgem numa clara de tentativa de organização dentro de um modelo bastante pragmático. Batman Vs Superman era o caos (lembrando que há muita criatividade numa aparente bagunça), Mulher Maravilha, a organização, Liga da Justiça é algo entre esses elementos tão extremos, seguindo uma ordem mitológica que parece guiar o universo até aqui.

Aliás, esse é um ponto que deve ser exaltado em Liga da Justiça, como essa temática sempre presente no universo se materializa no longa conjunto. Essa ideia da criação de mitos e deuses na era dos homens. Se Batman Vs Superman era sobre a queda de ídolos e Mulher Maravilha sobre o conhecimento do mundo dos homens (em vários sentidos) por uma figura mitológica, Liga da Justiça é sobre a elevação desses seres a um novo posto, a chegada a uma espécie de Olimpo que se ergue no cinema. A visão de como aquelas figuras dos quadrinhos são como a mitologia do mundo contemporâneo. Um olhar interessante que surge com força nesse longa, aqueles personagens são representados como deuses gregos, como as estátuas da antiguidade clássica, sempre em posições que revelam a quantidade de músculos sobre-humana daquelas personagens. É assim que se justifica a câmera de Snyder num contra-ploongé (câmera de baixo para cima) extremo, deixando os heróis sempre em cima de um pedestal cinematográfico. Assim como as cores e uso extremo dos efeitos especiais nos cenários e nos heróis, desconectando-os da realidade, realmente seres diferentes da humanidade. Se os artesãos gregos tinham mármore, Snyder tem o computador para esculpir seus deuses.


O filme segue com a lógica do visual provindo dos vídeo games (algo que pauta não só o universo DC, mas toda carreira do diretor), algo que faz com que afaste Liga da Justiça de qualquer tom realista. A primeira cena, onde Batman investiga a aparição de seres vindo de outro planeta, parece algo vindo dos desenhos animados, mostrando uma deslumbrante visão daquele mundo. Algo que vai sendo ainda mais explorado com a ascensão do vilão do filme, Lobo das Estepes, com as cores que vão ficando propositalmente com um aspecto fantástico. É claro que essa crença absoluta no recurso digital tem seus tropeços, como o aspecto um tanto quanto estranho, pouco crível até mesmo na fantasia do filme.

Algo que ainda é presente em Liga da Justiça é um fator sentimental que permeia os outros filmes do universo. Aqueles heróis, ou deuses, se unem e movem seus poderes por uma relação afetiva com a humanidade, seres movidos por sentimentos primordiais de defender o mais fraco. Impulso primordial, como mostra uma pequena cena em que uma casa na Rússia é cercada por seres voadores alienígenas e uma garotinha pega com coragem um inseticida. Os heróis da DC são seres que acreditam, como a própria Mulher Maravilha diz, para eles, a engrenagem do mundo só voltará com essa boa vontade. Sentimento heroico por si só, algo tematicamente forte em Liga da Justiça.

Esses são pontos que se mantém resistentes em Liga da Justiça, ideias defendidas que continuam uma coerência temática e estética ao longo do universo DC, algo próximo a uma unidade. Se isso funciona num aspecto macro, estabelecendo um fio condutor entre diversos filmes, é curioso como essa sensação não está presente numa dimensão mínima, ou seja, o filme em si. Esse grande ruído em Liga da Justiça fica evidente nessa falta de concisão, conseguir construir um filme em torno de um objeto, uma única narrativa que realmente careça da união daquele grupo.

Se nos diálogos é exposto o quanto aquela nova ameaça é perigosa, na prática, na relação filme e espectador, isso nunca fica claro. Há uma sensação de que tudo aquilo é apenas um pretexto para aquela reunião. Muito disso se deve ao fato do antagonista ficar sempre em segundo plano, um ser sem motivações internas, apenas uma figura aterrorizante difícil de derrubar, algo pouco substancioso. Sem essa premissa é difícil acreditar realmente na conexão daquele grupo, algo que fica ainda mais sentido através da atabalhoada apresentação de personagens, algo marcado pelas três figuras que ainda não tiveram seus filmes solos: Flash (Ezra Miller), Aquaman (Jason Momoa) e Ciborg (Ray Fisher), algo esquematizado, tendo que mostrar cada um em seu habitat, quase dizendo quem são e o que fazem, e ainda que o filme leve tempo nessa pragmática apresentação, o envolvimento entre público e figuras nunca é pleno.

Nota-se evidentemente uma pressa pela produção em conceber logo esse crossover, para de uma vez por toda alcançar sua grande concorrente Marvel. Todavia, essa relação das personagens não funciona, as figuras ainda não estão presentes no imaginário do público e em um filme conjunto nenhum roteiro é capaz de causar uma enorme empatia com figuras novas. Isso faz com que características de Flash, Aquaman e Ciborg apenas fatos exagerados, fora do tom. Liga da Justiça enfraquece-se na relação entre seus personagens, não consegue criar uma trama bem amarrada e vai demonstrando problemas em sua estrutura narrativa.

Liga da Justiça tem esse seu ponto mais insustentável, seja nesses atabalhoados episódios de apresentação de cada figura, seja na busca por aquele novo vilão, dois pontos que parecem apenas desfocar a atenção do público, num filme um tanto quanto atrapalhado. Esses pontos são ainda mais ressaltados por um roteiro extremamente conveniente, onde tudo é conquistado com facilidade, se a questão é convencer Ciborg, isso ocorre de maneira corriqueira, se o grupo tem que ir atrás do corpo de Superman, isso surge sem dificuldades, e assim por diante, como se nada desafiasse aqueles heróis. Numa aparente gana de colocar tanta informação em um só filme, nada é colocado com cuidado, num fio muito frágil, enquadrando tudo o que aquele filme significa numa típica fórmula.

Avesso a qualquer ousadia e ineficiente em apenas reproduzir um padrão, Liga da Justiça rende-se a muletas muito mal pensadas, como uma série de diálogos expositivos, alguns flashbacks e uma enormidade de frases de efeito, numa busca por uma aceitação fácil de seu público. Assim como as tiradas cômicas, que aqui surgem com força, numa clara tentativa de reproduzir aquilo que faz sucesso em termos de super-herói. E tornar o filme divertido uma vez ou outra não apaga o mau desenvolvimento narrativo. Algo que ainda leva uma problemática atuação de Ezra Miller que parece sempre num outro tom do que o restante do filme. Ou o inexistente timing cômico de Ben Affleck, transformando o sisudo homem morcego de Batman Vs Superman em algo um pouco mais leve.

Liga da Justiça sofre dessa indecisão entre aceitar uma fórmula, colocar em sua trajetória tudo aquilo que faz sucesso em termos de blockbuster heroicos, e manter sua forte marca autoral, temática e estética. Nesse meio do caminho, sobra um filme regular, indeciso, que deixa aparente suas costuras, num retalho de boas e más ideias que nunca parecem possuir uma unidade. Humor não era a única coisa que faltava na Liga da Justiça e o filme parece um passo atrás no universo DC.

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