Crítica | Uma Razão para Viver

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Num primeiro olhar o primeiro longa dirigido pelo experiente ator Andy Serkis parece uma obra extremamente perigosa, mostrando por suas imagens, seu título e até pela propaganda do longa, um filme afeito aos mais variados clichês, entregue a um melodrama total, o típico filme para chorar. É bem verdade que esses dois fatores podem ser encontrado em Uma Razão para Viver, mas o mais interessante é ver como o longa consegue fugir desses estereótipos para construir uma interessante relação com seu espectador.

O longa narra a história de Robin Cavendish, um britânico que durante uma longa viagem ao continente africano adquire pólio, colocando-o num grave estado de saúde. Paralisado do pescoço para baixo, o jovem tem sérios problemas respiratórios, e na época a doença fazia com que alguns meses restassem para o seus pacientes. É aí que entra o grande diferencial da narrativa apresentada aqui, Robin é uma daquelas figuras que surpreendem os médicos e provam que há algo além da doença, uma resistência ferrenha em relação aos laudos médicos.

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Uma Razão para Viver mostra justamente esse percurso em relação a uma recusa da morte, a uma vida que pode emergir de uma situação tão adversa. O mais interessante é como essa lógica se dá dentro da narrativa fílmica, uma vez que a morte não é jogada numa relação de chantagem emocional, a conquista do público surge justamente na exaltação da vida. O filme vai mostrando episódio por episódio na vida de Robin, revelando como de diversas maneiras ele evitou ficar preso a uma cama. O roteiro do filme é amarrado por diversas situações que descaracterizam aquele personagem como um pobre coitado, ou qualquer coisa do gênero, uma batalha por apenas continuar fazendo aquilo que ele já fazia.

Uma Razão para Viver torna-se um filme leve, algo que surge da surpresa desse longa não explorar de forma inoportuna a condição de seu protagonista. Ao acompanhar suas tentativa de voltar para casa, ou nas várias investidas para construir uma cadeira de rodas com respirador – algo improvável para época, o filme vai se divertindo com as aventuras daquele homem, como se cada passo fosse uma aventura. No filme de Serkis a vida surge dessa maneira, não no diálogo chantagista com a morte, ou na emoção superficial existente na exploração de uma doença.

Uma Razão para Viver é um filme leve e divertido, com longas sequências onde o humor fica aparente, como na sequência onde a família Cavendish viaja pela Espanha, ficando presa numa remota estrada no meio do país. Esse sem dúvida é o fator mais interessante do longa, um tom cômico inocente, trazendo para narrativa até mesmo figuras muito particulares do universo da comédia, como os cunhados de Robin, irmãos gêmeos que falam de maneira parecidas, que se complementam em suas ações, promovendo as mais variadas gags em dupla.

O longa, dessa forma, é um filme agradável, e mais do que isso, que deseja agradar sempre, como se não tivesse a mínima vontade de tirar o seu espectador do conforto. Uma experiência comum por completo, óbvio que isso muitas vezes deixa a obra no senso comum, nada arriscado e bastante previsível. É claro que toda essa jornada acabaria com um discurso de valorização da vida comum, algo que até pode ser verdade, mas que no filme é colocado de forma bastante expositiva, sem nenhuma sutileza, fazendo até mesmo que um dos personagens realize esse pronunciamento, mais de uma vez diga-se de passagem.

É esse sentimento que pauta também a relação do diretor com seu filme, a direção de Serkis pode ser segura e bem realizada, mas abusa de um senso comum do bom gosto, como diversas cenas onde o por do sol invade seus planos, com aquela coloração alaranjada típica do crepúsculo cinematográfico, numa simples reprodução de algo que seria bonito sem nenhuma reflexão. No academicismo de Serkis, fazendo um trabalho bastante subserviente ao seu roteiro, é ressaltada narrativa que conta, o longa tem momento sensíveis que até relembram os grandes momentos do cinema clássico, sem dúvida alguma a grande inspiração do ator como diretor, um percurso interessante para as primeiras investidas na direção, uma vez que aquele cinema dos anos 1930/1940 é marcado pelo forte pacto entre filme e público.

Talvez o que falte para Uma Razão para Viver estabelecer um pacto extremamente forte com seu espectador passe por seu elenco, principalmente em seu protagonista. Andrew Garfield começa a ser um ator que confunde boa atuação com transformação física, o ator parece desejar a todo o momento forçar uma mudança física em seu rosto e em sua boca, algo que o transforma fisicamente, mas afasta de suas emoções, o que é mais necessário, ainda mais num filme como este. Felizmente seu contraponto na atuação surge pela força dramática de Claire Foy, interprete da esposa de Robin, que segura toda emoção do longa e carrega o filme, demonstrando todo o drama em Uma Razão para Viver.

O longa em todos aspectos é com certeza uma obra de forte relação com seu público, que deseja claramente agradar, mas pelo menos faz isso através de um viés leve, sem explorar a doença alheia. No resumo de sua ópera prima, Andy Serkis faz uma estreia segura num filme que tem uma boa relação com o público.

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