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Crítica | Roda Gigante

Publicado por Giovanni Rizzo

26/12/2017 12:39

O novo filme de Woody Allen tem uma conexão extremamente próxima com seu título anterior, o ótimo Café Society, algo que é um excelente indício, visto que os últimos títulos do consagrado cineasta eram marcados, sobretudo, pela irregularidade. Roda Gigante e Café Society possuem ligações externas à própria obra, como o fato de marcarem a segunda parceria entre Allen e a Amazon Studios, assim como a segunda vez que Vittorio Storaro assina a fotografia do cineasta (fator fundamental para Roda Gigante ser o que é), mas o que mais interessa é como esses fatores formam filmes tão semelhantes e tão diferentes, na mesma medida e na mesma força.

Se essas aproximações externas dizem muito pouco sobre os filmes em si, a maior semelhança é que ambos os longas possuem uma forte melancolia no corpo de uma comédia, dois filmes divertidos, que estão enraizados num sentimento de impotência em relação aos acontecimentos que se vê em tela. Talvez, nesses dois filmes, Allen consegue realizar o que já fizera em outros momentos de sua carreira, conseguindo achar um tom certo para falar dos assuntos que deseja, como fez no início com suas comédias mais escrachadas, ou como no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 com seus dramas sérios, numa fase cunhada pelo seu referencial à Bergman. Com essa lucidez, Allen faz um belo duo, sendo Roda Gigante um título que ganha força ao longo de seus 101 minutos, uma obra muito clara no que deseja dizer e de como isso está inserido formalmente.

A melancolia aqui está inserida através de um olhar feminino, a figura de Ginny (Kate Winslet), uma mulher marcada por seus erros do passado e que por isso abandona todos seus sonhos para ter uma vida extremamente ordinária, morando atrás da roda gigante em Coney Island, com seu marido que possui um carrossel, enquanto ela tem que trabalhar como garçonete para equilibrar as contas da casa, convivendo com suas constantes enxaquecas e com o filho que vive ateando fogo nas coisas. Dois eventos, então, chegam para mudar a vida de Ginny, a filha de seu atual marido pede abrigo por estar sendo perseguida pela máfia, fazendo com que surja uma pressão ainda maior em Ginny, e o romance com um salva-vidas que estuda teatro e representa todos os sonhos esquecidos da mulher de meia idade.

O filme é marcado pela sua forte conexão com a protagonista e pela sua relação entre as pressões domiciliares e o arejar de sua própria vivência, quando pode se encontrar com aquele rapaz, Mickey interpretado por Justin Timberlake. Roda Gigante passa a ser um filme sobre essas transições de sensações e sentimentos, evidenciando uma mulher em constante transformação, que tende a viver num mundo de instabilidade, justamente por sentir em momentos tão próximos, sensações tão contrastantes. Esses fluídos de emoção são o foco de Woody Allen, algo que marca todos os aspectos da obra.

Tudo em Roda Gigante funciona para demarcar esse sentimento de instabilidade, algo que faz com que o longa seja uma obra marcada pela assinatura. Se em Café Society Allen claramente era buscada uma mise-en-scène do invisível, onde a câmera buscava se ausentar em detrimento da construção narrativa, aqui há justamente o oposto, a procura por estabelecer e evidenciar os aparatos cinematográficos como construtores de significados, deixando o estilo como algo fundamental de Roda Gigante.

Essa questão está ainda mais associada pelo trabalho de Storaro, com uma iluminação evidente em praticamente todos os planos do longa. Em Café Society havia a luz do pôr-do-sol da costa oeste americano em tempos áureos de Hollywood como um signo absoluto daquele filme, uma luz natural que invadia a vida do protagonista remetendo a outro amor. A marca de Roda Gigante é a luz neon, publicitária e popular dos anos 1950, algo que vem de uma intervenção humana, sem a qualidade da natureza, extremamente volátil, que pode mudar com uma simples configuração elétrica, com um simples manejo de interruptores. O artificial que toma conta de uma vida supérflua, sem substância, sem desejos reais, algo que pode até ser exuberante – como toda fotografia de Storaro -, mas que não encontra essência. O neon marca essa busca por algo de verdade, as nuances dessas luzes coloridas que modificam drasticamente a paleta de cores da vida de Ginny, fazem um retrato de uma mulher tão instável quanto elétrons num tubo de luz fluorescente. Uma mudança constante que não encontra seu próprio lugar.

Algo que é igualmente visto nos aspectos da direção de arte, evidenciando o contraste entre a casa extremamente apertada de Ginny, onde vivem mais pessoas que podem habitar ali, e os encontros à beira-mar com aquele salva-vidas, onde surge um ar para o respiro, que mesmo em meio ao verão nova iorquino há um lugar vazio, silencioso e totalmente belo, um respiro não só para ela quanto para espectador. Algo que abre precedentes para se acreditar num desfecho melhor para aquela protagonista. E costurando tudo isso há ainda um estilo de Allen que aqui faz questão de se aparentar, quando a câmera em movimento único apresenta um espaço para depois focar em dois personagens num mesmo plano, existe quase uma assinatura. Aqui mais do que estabelecer significado, os planos fazem questão de demonstrarem que são realizados por Allen. Os movimentos de câmera pesado, que fazem questão de chamar atenção para si e mostrar essa protagonista atordoada, caminham nesse mesmo sentimento.

O que faz com que Roda Gigante não seja um filme extremamente afetado é justamente outra qualidade de Allen, agora como diretor de atores, e aqui as performances do elenco fazem com que todo esse trabalho formal se conecte profundamente com a temática. Algo sintetizado pela atuação de Winslet, onde esse investimento técnico e estético está conectado ao corpo e a expressão da atriz. Como as luzes neons mudam do azul para o vermelho, e a protagonista vai da tristeza a raiva em segundos, ou como o sol abre na praia e uma calmaria toma conta da face e da fala daquela mulher. Ou ainda quando ela entra em seu pequeno apartamento e rispidamente começa a se atormentar, a conversar de forma ríspida, sem pausa e com um tom mais elevado. A Ginny de Kate Winslet é essa alteração de sensações constantes, é o filme inteiro traduzido em seu corpo.

Por outro lado, Jutstin Timberlake e Juno Temple, o salva-vidas e a enteada de Ginny respectivamente, fazem um contraponto extremamente leve, cômico sem deixar que as pretensões do filme se enfraqueçam. Timberlake faz um tipo específico de canastrão galanteador, o garoto bonito e em forma que se acha mais inteligente do que realmente é, soltando frases inteligentes que não passam de um lugar comum, algo que casa muito bem com esse interprete ícone pop, nessa autoironia, nesse humor que se conecta também com o ator. Assim como a persona de Juno Temple, encarnando essa inocência e arrependimento nessa personagem que volta para casa após se envolver com homens perigosos. Esse dois proporcionam um outro tom ao filme, enriquecendo essa tragicomédia.

Roda Gigante resulta assim num filme extremamente equilibrado, de um Woody Allen lúcido acerca daquilo que deseja falar. Uma obra que surge de força da sua composição técnica estética, mas bem amarrada por valores que vem de uma sutileza autoral, dosando bem essa pulsão pela assinatura com a força cinematográfica. Se Café Society buscava uma invisibilidade da forma e Roda Gigante é diametralmente o oposto, o que os dois mostram é que ambos utilizam suas estratégias cinematográficas para demonstrarem suas essências.

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